Mostrar mensagens com a etiqueta Carta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carta. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #43


No verão de 2014 a mamã falhou a Feira do Livro. Nem foi nem comprou nenhum livro.
Hoje a mamã está morta por umas migas com entrecosto, um polvo à lagareiro, uma posta bem grande de bacalhau, bem grossa e bem temperada de sal com batatinhas cozidas. Ai, a mamã matava por um arroz de pato bem feito.

Mas não pode.

No centro da parede da minha cozinha, faltam três azulejos.
O cano foi furado, como vos disse.

Valores mais altos se alevantam.

domingo, 15 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #42

O dia hoje foi longo. Começou com a mãe a despertar pela primeira vez na sua casa. Esteve muito calor, tanto que a mamã se refugiou na casa nova o dia inteiro. Antes entre a frescura dessas paredes, a trabalhar, do que estendida e a amolecer, como se derretesse em banho-maria, na casa da bisavó.
Foi um dia sem fim, em que dei por mim a esfregar chãos, pintar janelas, tectos, a dispensa. Sentada no último degrau do escadote, com uma lata de tinta no colo, a mãe sentia os salpicos da tinta branca caírem-lhe nas mãos, nos braços, na cara, no cabelo. O meu rabo-de-cavalo ficou cheio de pintas brancas, que espero que saiam com facilidade. Enquanto pintava o tecto a ouvir as músicas da Smooth Fm I’ve got you, under my skin, e etc., a mãe sentiu-se muito capaz. Já no topo do escadote percebo que não tenho medo de alturas. Não tenho medo de me sujar. Não tenho medo de estragar as unhas. Lido bem com esquemas de tentativa e erro, e apesar do investimento na tinta, a mãe gosta de ir cuidando das coisas por si mesma.
Convenço o avô a furar a parede da cozinha para pendurar uma calha que servirá para os escorredores de loiça. Qual a minha surpresa quando, pouco depois de ouvir a broca a funcionar, oiço o equivalente a um repuxo na minha cozinha. O jacto de água ia de uma ponta à outra da cozinha, atravessando-a em largura. Muito bem, muito bem. Muito bem, furámos um cano. Acontece a todos, certo? O avô ficou chateado. Diz que o cano é de plástico, dos modernos, porque se fosse de ferro, sendo a broca para pedra, teria era queimado a ferramenta. Temos que tirar azulejos - haverão iguais? E temos de reparar o cano. Ele baixou a cabeça e queixou-se do azar que tem. A mãe ouviu os risinhos das tias Ana e Cláudia, para quem tudo tem solução fácil, porque são meras espectadoras e não intervenientes. A mãe sentou-se nos ladrilhos da cozinha a fazer cálculos mentais. É capaz de ter enterrado a cabeça nas mãos por um bocado. O avô pergunta porque estamos para ali prostradas, umas a rir e outras sem reacção, porque não vamos buscar a esfregona e damos conta do problema imediato, que é o chão encharcado?
A mãe não pode permitir que isso a deite abaixo. Pôs-se de pé e foi acabar de pintar a despensa. Não pode permitir que isso a deixe em baixo. Mas preciso que saibam que foi difícil. É difícil ter meia dúzia de tostões na conta a meio do mês quando trabalhamos tanto e nos parece que trabalhamos desde sempre. É difícil precisar de ir ao médico mas pôr a casa à frente. Daqui por diante será assim. 
Quando fechei a porta de casa e vim embora para o forno que é o primeiro andar da bisavó, observei o chão riscado da sala, os pedaços de cimento e areia que arranquei com a espátula ao tecto da marquise, os ladrilhos pintalgados de tinta branca no corredor, o furo de onde jorra água (caso a mesma não tivesse sido fechada), a cozinha prenhe de chaves philips e chaves de fendas, espátulas, latas de tinta, lixas, buchas, parafusos e pregos, lençóis de plástico pintalgados de tinta. Parece tudo mais caótico do que nunca e a mãe prestes a começar uma nova semana, isto é; sem tempo de endireitar as coisas.
Tudo isto são degraus. Cada problema a seu tempo. A mãe resolve – sobe – um a um. Até chegar a vocês.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #40

Pequenos,

Dei por mim a entender o significado de ter-se fé. Ter fé; acreditar em algo que não se vê, do qual não se tem certezas, sobre o qual não há explicações, mas que nos é vital. Ter fé é ser-nos vital acreditar em água. A fé sustém-nos, mantém-nos suspensos no ar. É o milagre de que os pés nos permitam andar. É o milagre do equilíbrio e das proporções, a fé.
Hoje fez-se luz na minha casa. Não sei se virão a conhecê-la, mas a 11 de Junho de 2014, a mãe escreveu uma sms onde dizia “na minha casa”. E o electricista iluminou-me os cómodos. À noite, a mãe tinha planeado levar o portátil para a nova secretária e escrever alguns capítulos do novo romance, que não desenvolve. Contudo, a tia Cláudia e a tia Ana quiseram estrear a electricidade com um filme. Pensámos muito bem no filme a ver, o momento era solene. Então optámos pela primeira longa-metragem animada da história do cinema; A Branca de Neve e os Sete Anões. Rimos todas e arrepiámos-nos com a malvadez daquela bruxa. Poucas coisas na vida são assim. Poucas nos penetram na alma, poucas não descolam. Como um filme que, mesmo conhecido de trás para a frente, ainda gera emoções. Ainda irrita, ainda encanta, ainda indigna, ainda causa medo.
A Josefina está ao meu lado, sentada na minha cama a observar a rapidez dos meus dedos a escrever estas palavras. A mãe não vos sabe explicar amor. Acha que é uma questão de fé. Olho-a e não vejo apenas uma gatinha com casca de tartaruga. Imagino-lhe os pensamentos e as opiniões. É como se o meu espírito crítico, assustadiço e curioso, vivesse fora de mim e ocasionalmente recuasse as orelhas e semicerrasse os olhos quando confrontado com a bazófia humana. A mãe não se sente sozinha quando elas estão comigo, e é-me essencial ter fé de que são mais do que carne e necessidades. Elas também vos ficarão para a posterioridade. Um dia a mãe estará a debater-se sobre o final a dar a estes animais. Desaparecerão? Ficarão doentes? Terão uma daquelas doenças dos humanos? Um cancro? Uma insuficiência renal? E a mãe terá de decidir se deve abatê-los ou não. E vocês verão as carcaças velhas de algo que significa muito mais do que um corpo frágil daqui a dez ou quinze anos. Estes dois animais levantaram-me do buraco. Permitem-me amar. Amar é um entregar de armas, e os animais não as usam de volta contra nós.
Pensam que amar é algo livre de opressões? É algo bafejado de suprema liberdade? Estão enganados, meus queridos. As dores da vida obrigam-vos a cerrar o peito. A conter o dique. A amar para dentro; ou seja, a amar não amando. Não demonstrando. Não saboreando o bom do amar. O bom do querer, o bom do alívio que é o ser-se amado de volta. A mãe não pode abrir o peito para ninguém – nem para ela mesma. Isto faz algum sentido? Mas a mãe não pode. Não se deixa. A decisão é já da hierarquia superior, dificilmente tenho acesso a essa chave. Está fora do alcance do meu consciente. A mãe não pode amar [se não às gatas]. Não pode chorar se não as gatas; que ficam doentes sem que a culpa lhes diga respeito, que se perdem porque deixei a janela aberta, que por vezes me concedem a honra de virem sentar-se no meu colo. Não posso chorar se não a estes seres a quem devo protecção, mesmo que não me dêem nada. Porque não posso permitir-me, jamais, voltar a amar e a esperar amor de retorno. Não posso eleger um poço como o único que pode fornecer-me água.
Ia morrendo de tanto ingerir petróleo no passado, numa tentativa patética de matar a sede.
Hoje a mãe esteve sentada com as tias a comer pistachos, a comer nachos e a ver a Branca de Neve e os Sete Anões.
A mãe queria saber a opinião do vosso pai. Queria saber se ele se sentaria no chão comigo, de costas numa almofada por estrear, e se me deixaria pousar a cabeça no seu ombro. Depois no colo. Gostaria de saber se ele aceitaria passar uma noite comigo num chão de uma casa vazia, que cheira a verniz e a tinta por secar e a amoníaco e a benzina. Gostaria de saber se ele consideraria esse recanto de chão o nosso palácio. A mãe vive de fé. Da fé de que um dia vai poder acordar ao lado dele, com todos os meus defeitos e os dele. E que esses defeitos sejam o porquê de nos amarmos. Tenho uma sala vazia e um gira-discos. O vosso pai dançaria comigo no eco dessas paredes ao cair da noite? Dançaria comigo a By Your Side? Seria eu capaz de prometer que nunca o deixaria, quando dei por mim a quebrar recentemente essa promessa que fiz a alguém? Seria eu capaz de acreditar, de olhos fechados, que ele estaria lá sempre para mim? A mãe não tem resposta para estas perguntas. É uma pessoa quebrada, em construção.
A mãe sente-se diferente. Ultimamente perdeu controlo da sua mente e do seu corpo. Uma coisa ligada à outra, mal me reconheço. A mãe parece estar a deformar-se a um ritmo demasiado rápido para assimilar. Mas tenho fé – ou cairia – de que voltarei a ter mão em mim. De que voltarei a amar-me e a ter orgulho em mim. De que voltarei a poder valer a alguém, como valho à Josie e à Valentina.
A mãe tem medo de querer muito. O confortável é menos letal.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #39



A mãe hoje está triste.
As pessoas entram e saem das vidas umas das outras.
Quando as esquecemos, é triste. Quando nunca seremos capazes de as esquecer, ainda pior. A mãe está triste porque ainda viveu pouco, não sabe se, quando se deseja uma pessoa um dia, a desejamos para sempre ou se, numa manhã, a pessoa deixa de ser objecto de desejo. O desejo, (mesmo o amor), por vezes adormece em nós. A mãe ainda não sabe se um dia acordará de novo.
Por isso, quando alguém que foi importante na nossa vida deixa de o ser e passamos pela pessoa como se fosse um vizinho a quem apenas dirigimos “bons dias” e “boas tardes”, é triste. Mas quando passamos pela pessoa e o nosso estômago se embrulha, e o nosso coração acelera, e a nossa boca seca, é ainda mais triste. É triste esquecer e é triste não esquecer. É triste lembrar das promessas sussurradas a meio da noite, quando tudo é mais sincero e mais cru. Mas é ainda mais triste tê-las soterrado em nós e passarmos-lhes ao largo.
A mãe viveu pouco.
Precisa de aprender.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #37



Filhos,

Talvez a mesa de centro de madeira virgem, rendilhada, se encontre ainda lá por casa. Talvez a primeira cama de ferro que a mãe comprou, aquela de cabeceira branca, tenha sido entretanto herdada por um de vós. Talvez a mãe tenha escrito dois bestsellers (ou dois fracassos) na secretária que ontem arrastou para o quartinho de trás. Talvez a casa já nem seja a mesma, quando vocês chegarem, mas talvez ainda tomem os cereais nas tigelas cor de beringela que a mãe distribuiu pelos armários da cozinha.
A mãe está a construir um lar, uma casa onde vai aprender a valer-se e a valer aos outros domesticamente. A mãe vai pôr uma televisão na cozinha, porque tem dificuldade em fazer apenas uma coisa de cada vez. Picar cebola a fitar os azulejos soa a tortura para a mãe. Por isso vou ligar a televisão, abrir os livros de receitas e aprender todas aquelas receitas que um dia vos farão felizes.  Já tenho jarros, vazinhos e flores frescas.
Escolhi cores de parede, interruptores e tomadas eléctricas, candeeiros e móveis de casa de banho, um faqueiro. Lavei chãos, janelas, paredes. Levantei pesos que me achava incapaz de conseguir mover, e tenho sido um gigante na construção da primeira coisa na vida que sinto de minha. Escolhi detergentes e toda a casa cheira a lavanda e a amoníaco.
É um projecto tão grande que de vez em quando tenho de suspirar e absorver melhor o ar para me mentalizar de que é real. A mãe, finalmente, tem paredes e tectos seus. E tem vinte e quatro anos. E tem duas lindas gatinhas que nunca vão deixar que me sinta sozinha.
Em todos os outros campos afectivos, a mãe sente-se estranhamente vazia. Costumava sentir-se uma donzela à espera de resgate. Agora tenho unhas e, quando o príncipe chegar à torre, eu já terei derrotado o dragão e partido há muito.
Cá vos espero. 
Cada vez mais perto :)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #36


Em 2006 a mãe tinha dezasseis anos. Estendia roupa ao ar livre na Tenência, lençóis, vestidos leves de verão. Ia descalça, pela hora de menos calor, expôr os trapos recém-lavados àquele sol implacável. Estava tanto calor que me deixava envolver pela humidade dos tecidos, pelo seu aroma a detergente, a limpo. Lavava os cabelos na fonte, deixava-os secar nas costas. Nessa altura usava-os compridos, avermelhados, encaracolados. Estendia a roupa de vestido branco, era-lhe muito apegada nessa época. Na época em que era romântica. Ouvia a No Me Platiqués Más vezes sem conta e imaginava um amor perfeito.
 Desabafo.Não há coisas perfeitas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #35

«Will you stay with me, will you be my love?»

Sabem em que instante a mãe entendeu que o italiano não poderia ser o vosso pai? Porque a imagem deste homem terno e elegante, que fala tão bem a sua língua materna quanto inglês, a brincar convosco… é tão enternecedora quanto ilusória. A mãe não chegou a perder muito tempo a imaginá-lo de mangas de camisa dobradas até aos cotovelos para vos erguer acima da cabeça, porque algo me dizia que ele estaria ausente. Ele diz que os pais foram ausentes, cresceu com a avó. A mãe dedicou-se à excelência de um piano que ainda hoje a arrasta em diversos eventos culturais e o pai… já não me recordo o que fazia o pai. Sei apenas que não estavam por lá quando ele precisava deles.
Ser a miúda de um workaholic… Experienciei-o algumas vezes. A pergunta existencial é se há wi-fi no hotel. Se há rede na serra. Depois sucedem-se as visitas fortuitas à caixa de e-mail, não vá o mundo estar a acabar por falta de uma palavra dele. Depois os telefonemas; os que faz, porque são urgentes, e os que são urgentes e que não pode ignorar. A mãe olhava pela janela enquanto chovia na Avenida da Liberdade. Quando o olhava, enrolado numa toalha, ou com uma meia por calçar, ou a brincar com a chave do quarto na mão a um passo da saída quando estávamos todos aprumados, ele piscava-me o olho. Erguia o indicador; só mais um minuto.
Pede-me perdão. Enquanto esperamos pelo almoço, pede-me perdão. Diz que tem mesmo de ser. Que em breve é todo meu, para falarmos do que eu quiser. Dos gatos, da casa, dos nossos países, do espanhol que ele tem enferrujado e que eu me recuso a articular. Enquanto o táxi nos leva ao Cabo da Roca, vai a trocar mensagens com um indiano. Mais trabalho. A paisagem passa-lhe ao lado. Não consigo evitar fechar o rosto, lamentar a certeza de que tanta coisa lhe passa ao lado enquanto dedilha o ecrã do iPhone com os dedos bem cuidados, de unhas rentes, de pele macia que, quando já não é hora de ninguém ligar, me acariciam o cabelo até eu adormecer. E, quando finalmente vê o oceano, esta criatura estranha do Adriático, tão fascinante quanto letal, sorri como uma criança. E eu deixo-me fascinar por ver-lhe os olhos a cintilar. Damos as mãos, tiramos fotos, aproveitamos a meia hora em que o taxista espera por nós. E entretanto é hora de partir, de voltar ao táxi. Falo com o taxista sobre os vinhos de Colares enquanto ele volta aos e-mails urgentes do emprego. Aperta-me a mão direita com a esquerda e responde a tudo com a outra. Mas não está lá, está no escritório a tratar de ser o melhor, de ganhar mais, de fazer tudo bem feito.
Na Catedral de Toledo, a mãe deu voltas no deambulatório, pendurou-se nas grades do cadeiral, desistiu de usar os audio-guias, bufou. Durante todo esse tempo ele falava ao telefone com a chefe.  Sentado num dos bancos da igreja, sorridente, parecia que estava na própria sala, e não numa catedral por visitar e com um comboio para apanhar daí a quarenta minutos. Falava de vinhos, fazia piadas. Eles são sedutores, sabem? Os italianos são sedutores como tudo. Mesmo a falar com a própria avó conseguem ser sedutores. Então, depois de meia hora a circular sozinha, o meu ar de frete não o convenceu a desligar o telefone. Fui sentar-me atrás dele. Fiz beicinho. Lá está o sorriso, o piscar do olho, o indicador erguido; só um minuto. Inclinou-se para mim, beijou-me por entre “ahams” para a patroa. E eu pensei que tinha reparado em mim, que ia despachá-la, dizer, quem sabe, que lhe dedica trezentos e sessenta dias e que cinco são dele para os passar com quem quiser. Mas ele desmanchou-se numa gargalhada para a chefe e de repente estavam a falar da tradição das bruxas na terra dela. Quando desligou a chamada era hora de irmos. Pouco ou nada vimos.
Em Paris temos uma hora. Metade desse tempo é passado a ligar para todo o lado. A mãe, registando o forno a lenha do restaurante, observando os campanários da Notre Dame através da janela, lamentando-se em silêncio ao Sena, dá-se conta de que já o sabia. Não pode chorar por um amor fadado a fracassar. Resignada, sorri-lhe com tristeza. Ele fala ao telefone, sério, ergue as sobrancelhas, sorri. Enquanto o telefone está em espera, surrura “You look gorgeous”. Digo-lhe que o nariz está ressequido de tantas fungadelas primaveris. Diz-me que o meu pequeno nariz está perfeito como sempre. Sabe bem ouvir, derreto-me um bocadinho ao ver-lhe a doçura morna dos olhos castanhos a sorrirem-me com tanta meiguice. Mas no instante a seguir esses mesmos rios estão longe, são frios. Alguém atendeu do outro lado. Ali trata-se a sagrada matéria laboral. Eu sou infantil. Sou carente. Sou incompreensiva. Mas não estou iludida. Não penso que um homem assim mude depois do casamento. Não penso que um homem que só tira plena satisfação do trabalho venha a correr para casa para fazer amor com a sua mulher. Não penso que um homem assim passe mais tempo em família por ter um, dois, três filhos. Ele evocaria a santíssima trindade do amar é sustentar e educar. Amor traduzido em tempo, tempo convertido em dinheiro. Para fraldas, para ténis, para amas, para escolas particulares, para actividades extra curriculares, para jantares fancy, para relógios de marca e fatos italianos, para o telemóvel da última geração, para uma universidade no estrangeiro, particular. É assim que este homem pensa. “Quero dar ao meu filho as oportunidades que puder, para que ele tenha o mundo à sua disposição se o quiser agarrar”.
Eu não quero arcas frigoríficas de peixe congelado para os meus filhos. Quero um pai que se sente com eles à beira rio e os ensine a pescar. Um pai que saboreie com eles, à mesa do jantar, a frescura de um peixe suado por eles (quase decerto estragado pelas minhas fraquíssimas capacidades culinárias). Quero um homem que fique comigo cinco minutos a mais na cama, de manhã. Um homem que me atrase. Que me despenteie. Que suje o punho no café e ainda assim não troque de camisa.
Se calhar nunca seríamos ricos, mas seriamos tão felizes!
E foi ali que tudo acabou. Olhando nos olhos dele, vendo as potencialidades do nosso futuro à minha frente... Sorrindo perante a solenidade do seu profissionalismo, desejei-lhe sorte e alegrias. Vi o que seria feito de mim se insistisse em nós.
- O telefone dele a assombrar-me de novo a meio da noite;
- A chefe dele a dizer para ele não me deixar "consumi-lo" demasiado;
- Ele a dizer que lhe faltam dez anos até ser pai, para depois continuar a adiar;
- Eu a precisar dele e ele a precisar de trabalhar;
- A tragédia de me ver em segundo lugar na vida da única pessoa para quem a minha felicidade deveria vir em primeiro;
- Eu a desconfiar que ele me trai;
- Eu a chorar no chuveiro (já aconteceu);
- Eu a ponderar traí-lo;
- Eu a chorar no meu canto da cama (já aconteceu);
- Eu a chorar, ele a dizer que não entendo o quão importante é o trabalho dele para nós;
- Eu a sair.
Assim vislumbrei apenas aquele que será somente o futuro dele …  Que elegante que será, quando for a um jantar de amigos com a mulher pela cintura. Ela será bonita, de seios pequenos, gosta de vermelho e arranja as sobrancelhas. Faz dieta. Fazem amor duas vezes por semana e são ambos felizes assim. Ela entende o que é pôr a carreira em primeiro lugar. Filhos? Só depois dos trinta e cinco, e dois, porque número ímpar é caótico. Cão? Nem pensar, demasiado fora de controle. Gato? Enche-lhe os Armani de pêlos. Máquina de café? Só Nespresso. E ele será sempre um homem charmoso. E eu nunca deixarei de me sentir um bocadinho movida por esse seu charme inato. 
Mas o meu papel seria sempre esse, de mulher que se arranjou, que fez as sobrancelhas, que se pintou, que deu um jeito ao cabelo indomável, apenas para descobrir que lhe é invisível. Que o olhar dele foge com discrição para o relógio a cada vez que me passa a palavra. Que, para ele, eu estaria bonita de qualquer maneira, porque ele viu-me uma vez, guardou essa imagem e vive disso. De me ver bem mesmo quando não estou. De ignorar as sombras por detrás dos meus sorrisos. De me pedir perdão, mas tem de atender este telefonema, é mesmo importante.
O que importa na soma dos dias são as horas bem aproveitadas. Não quero viver de ausências impostas. Estou farta de analisar quadros na parede de restaurantes e padrões de toalhas de mesa.
 Tudo isto apenas para a mãe vos dizer que não quer ser a miúda de um workaholic, por muito adorável que ele seja, por muito puro que seja o coração que lhe bate no peito. Se o vosso pai for um workaholic que nunca vos ensinou a andar de bicicleta, por favor atirem-me isso à cara sem escrúpulos. Vá lá, permito-vos isso. Só desta vez.

Quando encontrar o vosso pai vou-lhe perguntar:


 Will you stay with me? Will you be my love?

domingo, 18 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #34

Mes amours,

Hoje falo-vos dos desencontros da vida. A mãe já se tinha apercebido disso, mas de repente sente-se capaz de verbaliza-los. Talvez haja mais pessoas que tenham experienciado isto, ou talvez seja toda a minha vida desencontrada a estender-se perante os meus olhos.
Sintomas de uma vida desencontrada:

- a tua casa de sonho está numa pequena aldeia da Beira Interior, mas tu tens de investir (muito mais) numa que se encaixe melhor no teu quotidiano. A tua família está aqui, o teu emprego está aqui;
- o homem que te quer bem, que te beija os dedos quando róis as peles em redor da unha, que te humedece os lábios com a própria língua quando dizes que os tens secos, que te ajeita as sobrancelhas numa paragem de autocarro, vive a três mil quilómetros de distância e não podes viver de ser acarinhado;
- gostas do teu emprego, o que o transforma numa âncora. Adoras os teus amigos; outra âncora. És incapaz de te separar dos teus avós e dos teus irmãos;
- o lá e o cá não podem ser conjugados, queres demasiadas coisas dispersas, mas quere-las com a determinação de quem sabe quem é. Contudo, por comodidade, sabes que ficarás a vida inteira onde estás e que nunca terás um quintal com flores para plantar, limoeiros e morangueiros.
E é isto uma vida desencontrada. Quando o emprego, a família, a casa de sonho, a pessoa que poderia animar-nos a existência, se encontram em diferentes latitudes. Significa viver de abstinências quanto àquilo que mais se quer, e ainda ter de se ser grato àquilo que se tem.
Pena que só tenhamos uma vida, ou eu seria tanta coisa…! Iria a tantos lados…!

Escolham bem, queridos. Porque muitas das decisões que tomamos significam caminhos sem retorno.

PS - Durante muitos anos (uma percentagem significativa da idade que tenho) a mãe achava que amar significava fazer bem a outrem. Queria fazer o objecto do seu amor feliz. Amortecer-lhe as quedas, escudar-lhe as dores. A mãe achava-se disposta a fazer qualquer sacrifício para o ver bem, e, estivéssemos alguma vez estado juntos, ter-lhe-ia aceite todas as decisões, ainda que isso me levasse para longe do caminho que queria abraçar na minha vida. (Em parte partilhávamos certos ideais; um certo amor ao interior e à terra, um certo desprezo pelo supérfluo e o dispensável). Agora a mãe só consegue encantar-se por quem lhe faz bem. Por quem quer vê-la feliz. Por quem se desviaria do seu caminho para ingressar no meu e ver-me realizada. É um amor mais egoísta, pois é. Mas é o único modo de ser-se feliz em plenitude. Também isto julgo que já vos havia dito: escolham quem vos quer bem em vez de se retorcerem por alguém que vos considera um acidente de percurso enquanto não aparece alguém melhor.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #33

Filhos,

Criar-vos é bem mais difícil do que parece. Bem dizem que só quem os tem dá valor ao difícil que é. A mãe ainda não tem filhos, mas criar as irmãs tem sido bem mais amargo do que recompensador. Apesar dos inúmeros momentos bonitos, e daquilo que a mãe vai fazendo com q.b. de sacrifício e q.b. de gosto, há sempre algo que falha. Um quê de ingratidão vs será que fiz mesmo as coisas mal feitas?
Hoje a tia Cláudia disse, no calor do momento, uma coisa muito, muuuuito feia à bisavó. Como tanto eu como a bisavó estávamos a discutir com ela, fiquei com a impressão de que o dissera para mim. Voltei para trás e perguntei-lhe, com a voz fria de incredibilidade, se era para mim a sugestão. Ela disse que não, que era para a avó, o que de repente tornou tudo pior aos meus olhos, mas melhor para a Cláudia. Porque se fosse para mim, eu teria de me defender e ela não ia gostar. Sendo para a avó, fiquei furiosa mas deixei que a avó exigisse respeito por si. Em simultâneo, ela entendeu logo que dissera algo muito grave e recuou, pediu desculpas à avó sem que ninguém lho pedisse. Contudo, cinco minutos depois estavam as duas contra mim. A tia Cláudia e a tia Ana, esclareço.
A Cláudia lembrou-se de dizer que eu lhe batia quando ela era pequena, diz que lhe dava bofetadas. Só me recordo de uma bofetada, mas recordo-me que ela a mereceu. Disse à Cláudia que quando ela nasceu eu era pequena e ainda assim assumi muitas vezes o papel de sua educadora, por demissão voluntária dos pais nesse cargo. Mas ela diz que eu teria catorze ou quinze anos, idade que de facto teria, e lhe batia.
A Ana achou que era boa hora para dizer que também se lembra de eu lhe bater. Lembro-me bem de todas as vezes que dei palmadas nas palmas da mão da tia Ana e das vezes que lhe pedi que se virasse para lhe aplicar a colher de pau nas nádegas. Nunca fui bruta, nunca tive o objectivo de a magoar. Talvez quisesse vexá-la um bocadinho, para que o espírito se lhe vergasse e fugisse do que estava errado. Uma vez não queria comer. Outra vez bateu na avó com a colher de pau. Outra vez atirou comida ao chão. Outra vez fechou os punhos e bateu-me nos joelhos, julgando tratar-se da Cláudia. Mas era eu, e não poderia deixar passar em branco.
Nunca tirei qualquer prazer desses episódios educativos, nunca as vi magoadas por causa de mim. Vi-as sim a comer o peixe até ao fim e a ter respeito (ou medo, como queiram) a alguém que só tinha de abrir-lhes os olhos.

Quando a tia Ana nasceu, eu fui a primeira pessoa que lhe deu biberão. Discuti com a enfermeira para que lhe trouxesse mais um quando ela sorveu o primeiro com sofreguidão. Mudei-lhe fraldas. Noite dentro, quando ela chorava e a mãe não ouvia, era eu que ia ajeitá-la no berço, repor-lhe a chucha. Sujámo-nos as duas quando lhe dei a primeira papa. Na fotografia que partilhei delas ontem, reconheço que a roupa que trazem vestida foi por mim escolhida e paga. 
E de repente estão as duas de lágrimas nos olhos e voz quebrada a acusar-me de as espancar.
Eu bem dizia que era a única pessoa que se interpunha entre elas, que se julgavam princesas, que eram tratadas como princesas, e o grande mundo que espera por abocanhá-las. Quis que soubessem que há limites, que há barreiras, que nem todas as portas estarão abertas, que nem tudo é aceitável. Mas tenho feito tanto pelas tias, e temos tido momentos tão bonitos… e faço-lhes a vida tão mais fácil do que a que eu própria tive, também com sovas mas indiscriminadas e que me souberam a injustas, que não entendo.
Não entendo nem sei lidar com ingratidão. A mãe pode perdoar muita coisa, mas custa-lhe a engolir que não se reconheça quem nos faz bem.
As duas deram-me as costas e foram-se embora. A mãe ficou aqui sozinha a perguntar-se se realmente foi má, se de facto foi cruel. Mas para isso teria de ter tirado algum prazer perverso das lágrimas delas, e nunca tirei, pois não?
Ainda assim, a tia Cláudia disse uma coisa feia hoje. E a mãe pensa que, se não fossem metade das “crueldades” a que a submeti, ela nunca teria voltado atrás de livre vontade para pedir perdão à avó. Por isso… Ainda que me custe ter sido sempre a má da fita, alguma coisa certa devo ter feito.

E terei de viver apenas disso, até que talvez um dia elas entendam.

domingo, 11 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #32

Meus príncipes,

A mãe não anda muito bem ultimamente. Já está a fazer os possíveis para ficar bem, mas há sinais de que melhora com lentidão.
Ando meio fragilizada a nível físico, não há doença – daquelas que moem mas não matam – que não me encontre. Hoje estou com dores de garganta, ouvidos, espirros, tosse, expectoração, moleza. Mas daí que estou mole todos os fins-de-semana. Chego a perder a noção do tempo por passá-lo a dormir. Penso em ler, mas ao final da terceira página já estou desinteressada e sonolenta. Depois tento jogar o meu jogo habitual – não me apetece. Tento escrever – não consigo. Tento reescrever, coisa que não me exige muito da cabeça, mas também para isso falta motivação. A televisão nem tento ligar.
Que faço então? Deixo-me ficar estendida, de pijama, janela aberta até refrescar, depois fechada até aquecer, depois de novo aberta. Que faço, pois? Observo as cortinas a ondular ao vento. Espreito a tonalidade do dia, os azuis, os liláses e os alaranjados do final de tarde. Oiço música. Como, quando não como penso em comer. De vez em quando tapo-me com uma manta e permito-me voltar a adormecer. Mas só porque sim, porque cansada não estou e ter sono é impossível.
Hoje pareceu-me, enquanto fitava o nada, que estou à espera. A mãe não lhe sente uma grande falta, mas também não tem outra fonte de alegrias a não ser as tias Ana e Cláudia e a gata. A mãe deixa-se ficar, sempre à espera
Quando é que o vosso pai vai chegar e salvar-me? Quando é que ele virá resgatar-me de mim mesma? Animar-me os domingos? Levar-me a sair? Beijar-me na praça central de uma qualquer capital europeia? Criticar os meus cozinhados? Insistir em sintonizar o rádio para as músicas dele? Queixar-se dos lenços que deixo por toda a parte? Quando é que vou ouvir-lhe as gargalhadas a ecoar na casa? Quando é que ele virá para julgar que manda, só para eu ir por trás fazer tudo à minha maneira?
Por uma vez, a mãe sente que precisa de ser devolvida à alegria de viver. Ele que chegue depressa, por favor. A mãe nunca precisou tanto dele como agora.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Carta aos meus filhos #27

A mãe mudou muito nos últimos dois meses.
Em primeiro lugar, tem uma gatinha nova. Chama-se Joséphine, faz hoje uma semana e um dia que está connosco e já começou a dar retorno. Trouxe felicidade, preocupação colectiva, risos, piadas, pescoços esticados para a ver, costas curvadas para que possamos espreitá-la por debaixo da mesa. Um gato traz sorte e é algo de místico. A vossa bisavó Norvinda pega nela ao colo, acaricia-a, dá-lhe biscoitos para gato e lamuria-se com um riso num canto dos lábios. Diz que até o gato tem dinheiro a guloseimas e ela não. Então, a mãe comprou-lhe um chocolate de leite da Nestlé; primeiro porque a placa da avó não lhe permite comer chocolates com frutos secos, segundo porque o bisavô Américo trabalhou na fábrica da Nestlé durante muitos anos e levou muitos destes para casa.
Tudo isto por causa da Joséphine. A mãe pensava que a sua relação com a bisavó estava desgastada, a verdade é que a bisavó me julgava de ferro e achou-me incapaz de vergar. Mas a mãe vergou de tal modo que chegou a valer-se dos cotovelos para manter a cara longe do chão. Assim sendo, a bisavó cuidou de mim, abraçou-me, protegeu-me, desejou-me o melhor. E é sincero, e por isso aceitou a Joséphine e deixa-a dormir-lhe no colo enquanto assiste televisão na cama. Por isso, desta vez, não houve discussões e o dia 24 de Março, quando a Josie chegou, foi um dia feliz. Se temos medo de amar? Oh, temos todos, sim. Estamos todos feridos pelo desaparecimento do Napoleão. Mas, enquanto nos prostássemos a um canto, uma belezinha como a Jo ficaria sem família, sem tecto numa noite de temporal como ontem. E assim descança as orelhinhas numa almofada de veludo e dorme numa mantinha de bebé dentro da alcofa que lhe comprei. Praticar um luto eterno para quê? A mãe tem mais medo de amar do que de ser odiada. Dói tanto ver-se o objecto do nosso amor estilhaçado pelas circunstâncias...
O avô Jorge, de quem a mãe tem tão poucas boas coisas a dizer, merece aqui uma menção pela positiva. Fez uma caminha para a Joséphine, recortando-lhe um rectângulo num cesto muito antigo que a mãe trouxe da Tenência. Filhos, em 2002 a mãe sentou-se nas ruas de uma pequena aldeia algarvia, rodeada de senhores que não sabiam ler e que teciam poemas de memória, e admirou a agilidade das suas mãos que entrelaçavam cestos. Esse cesto foi agora tornado num pequeno palácio para a minha princesa. Chama-lhe "porta-chaves", o que é a coisa mais carinhosa que o ouvi chamar a um animal. Às vezes finge que tem alguma coisa para fazer no meu quarto só para vir vê-la, incapaz de resistir ao impulso de estender a mão e acariciá-la.
A mãe passou por uma fase muito má e viu com quem pode contar. De repente, nem tudo era negro. Há muita gente que se preocupa comigo e devo retribuí-lo sendo o mais feliz possível.
A mãe voltou a acreditar que vocês venham um dia cair nos meus braços, e … surpreendam-se! A mãe sempre se achou uma durona, mas perante os olhos dilatados do Napoleão e a barriguinha em alvoroço da Josie, a mamã mal consegue dormir de preocupação. Pega neles e telefona para os veterinários de Almada, corre para lá. Torna-se a crazy cat lady que, no fundo, é só uma mulher protectora a lutar pelo bem-estar dos seus protegidos. Mal consigo ignorar-lhes os gemidos por atenção, por colo, por carinho. E se a mãe se tiver tornado assim com vocês também? Se for a galinha superprotectora que sempre esperei não ser?
A Joséphine escala para o meu colo e estende-se de costas sobre o meu braço enquanto almoço, expondo a barriguinha colorida. Tem-na gordinha e saudável e a mãe sente-se satisfeita por saber que lhe comprou a comida e os biscoitos que a fazem tão roliça e feliz. A mãe está tranquila por saber que ao primeiro sinal de alarme tem meios de a proteger de tanta coisa… Embora nunca de tudo. Ao vê-la estendida, exposta às minhas mãos, sendo que apenas uma, se mal intencionada, poderia causar-lhe tanto mal... significa o mundo para mim (it means the world to me faz mais sentido). A mãe quer animar outras existências, saber-se capaz de salvar alguém.
Sinto que posso, finalmente, voltar a escrever. Voltar a concentrar-me no meu trabalho, nos meus amigos e naquilo que me dá prazer. 
A chuva já não me traz melancolias, empurra-me adiante. A mãe, por fim, está em paz e aprendeu a esperar.
A mãe tem um lindo plano de futuro e até já comprou uma varinha mágica.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Carta aos meus filhos #26


A mãe viveu hoje aquele que, decerto, estará entre os dias mais complexos da sua vida. Não bastando ter acordado às quatro da manhã para um voo às sete e vinte, apanhou o metro e depois o barco para Lisboa. O metro comeu-lhe um euro e não emitiu o bilhete. Nesse momento permiti-me sorrir, “quero lá saber”, pensei. Um euro na altura não era muito – era menos do que o bilhete do metro, era o equivalente a uma barrinha de chocolate individual. Mal sabia que era o primeiro duma série de azares.
Chegada a Cacilhas, observo a corrente do Tejo. Sim, tendo trabalhado onze meses em Lisboa e tirado uma Licenciatura de três anos no Estoril que implicou várias travessias de cacilheiro no rio, a mãe nunca tinha visto o rio com corrente. Não era uma breve agitação, era um apressar-se para a foz. O Tejo, o enorme Tejo a correr.
Levantei dinheiro suficiente no terminal para me safar, contidamente, nos dois dias que vou permanecer na capital da República da Irlanda, onde estive pela primeira vez em Setembro de 2012. Pedacinho de sorte número um – e crucial.
Em Lisboa apanhou um táxi no Cais até ao aeroporto, sempre preocupada com o horário do voo, isto porque às cinco da manhã estava a receber e-mails da Lufthansa a respeito de alterações no dito cujo. A mãe tinha vindo na noite anterior de Madrid (mas sobre isso falarei noutra altura, porque foi a antítese perfeita desta experiência inolvidável), por esse motivo não sabia que havia uma tempestade por estas bandas a fazer das suas. Ventos fortes, chuvadas e objectos a voar. Não chegou a ter tempo de ficar preocupada com o voo, mesmo porque sempre gozou de grande sorte, custava-lhe a crer que esta pudesse acabar assim de repente. E, olhando em retrospectiva para o decorrer deste doze do dois de dois mil e catorze, tive muita sorte em vários troços do percurso.
Com o voo atrasado trinta minutos, observo a chuva pela janela do avião e pergunto-me que mais me aguardaria nesta quarta-feira. Mal eu sabia.
A travessia até Frankfurt decorreu sem qualquer sobressalto, dormi o caminho todo e, tirando a omelete embebida em natas e óleo que me serviram, nada me embrulhou o estômago durante a viagem. À parte de uma criancinha que não chorava – uivava -, nada causou qualquer incómodo nas cerca de três horas que durou a viagem.
Quando Frankfurt surgiu sob as nuvens, revelou-se um centro industrial à beira de um pequeno rio e bastante próximo do aeroporto onde aterrámos. Havia algumas nuvens, mas estava sol. Pensei que, se a Alemanha estava abonada de tão bom tempo, então até Dublin haveria de correr tudo bem.
Aterrámos com uma hora de atraso e os passageiros que iam embarcar para Washington e Moscovo foram rapidamente escoltados aos seus voos. Eu tive de atravessar o aeroporto inteiro acompanhada de uma russa que só falava português e que era, nada mais nada menos, do que a mãe da criancinha que dera o espectáculo lírico durante o voo. Vi o aeroporto inteiro, das salsichas a fritar aos pretzels e à falta de wi-fi gratuito, e por uma vez decidi ligar os dados móveis fora de Portugal. Burrice número um. Tal apenas serviu para descobrir um saldo (negativamente) suspeito na minha conta, associado a umas certas transferências/levantamentos para um tal de Deutsche Bank. Estando eu na Deutschland, nem me ocorreu que ainda no dia anterior recorrera a essa caixa em Madrid. Alertei umas quantas pessoas (burrice número dois) e fiquei eu própria em pânico conforme julgava que me tinham clonado o cartão ou acedido à área de clientes online. Como é que me iria safar por dois dias em Dublin se cancelasse o cartão?! Num impulso algo tosco, apaguei a aplicação do banco do telemóvel. Burrice número três, embora inofensiva. Fiz contas mentais ao dinheiro que levantara e congratulei-me por assim haver feito. Eu nunca ando com grandes somas de dinheiro, mas nessa manhã deu-me para isso.
Após resolver o mistério (já sem dados móveis para poder acalmar as pessoas que havia preocupado – burrice número quatro foi ter deixado mil e uma páginas da internet ligadas sem precisão, o que esgotou o tráfego todo que tinha disponível), deixei-me absorver pela culpa. Sim, és tu que gastas o dinheiro mal gasto. E, posto isto, vêm-me todas as amarguras de que me queixo e, sentada por entre japoneses, irlandeses, ingleses e sul americanos de língua espanhola, ponho-me com pensamentos lúgubres e penso que fazia melhor em desaparecer (burrice número cinco). Mergulho nisso por um bocado, com o livro que andava a ler nas mãos. Dando-me conta de que tenho os olhos marejados, penso que posso incriminar o livro pela minha emotividade.
Quando finalmente chego ao meu portão de embarque para Dublin, sou obrigada a passar pelo controlo de passaportes. Viro-me para um gigante loiro e digo que não tenho passaporte, que já estive la Irlanda e que como cidadã europeia sei bem que não preciso de passaporte para lá entrar. Ele olha para mim do alto dos seus (pelo menos) dois metros e ri-se. Garante-me que é preciso passaporte. Garanto-lhe que não é. Garante-me que sim, porque a Irlanda não faz parte do espaço Schengen. Garanto-lhe que já lá estive e que não tinha passaporte. Garante-me que estou errada porque é irlandês, é de Dublin e vai lá cinco vezes por ano e sempre mostra a identificação. Quase me viro e levanto o cabelo “Veja, veja o trevo que tatuei no pescoço porque fui a Dublin mesmo sem passaporte!” Não tenho ao menos um cartão de identidade? Burrice número seis – envolver-me numa discussão perante todo o aeroporto com um irlandês que no final se põe a rir e me pergunta como cheguei ali sem cartão de identidade. E digo-lhe que lhe perguntei se tinha de mostrar o passaporte, e que era isso que estávamos a discutir. O bureau não diz ID control, diz Passport control, e era isso que falávamos. Ele volta a rir-se, bem disposto, porque se calhar não dormiu só quatro horas como eu, e diz-me que dê vinte euros ao controlador que ele deixa-me passar. Nesse momento percebo que estava a brincar, rio-me mas é tarde de mais. Já toda a gente tem os olhos postos em mim, e deixo-me corar perante todos. Já sou a cabra arrogante e irritadiça, e se os hindus, iranianos e japoneses perceberam do que falei, devem ter-me achado mais cabra irritadiça ainda. Eu tinha razão e ninguém sabia!
Na sala de espera começo a debitar no portátil pequenos textos sobre o que cada uma das pessoas que conheço pensaria se recebesse a notícia da minha morte. Faço-o intercalado com a leitura do tal livro que adiante voltarei a mencionar. Fecho o computador e embarco noutro avião da Lufthansa, rodeada de pessoas que apenas falam alemão e de um piloto que, finalmente, se faz entender quando passa informações em inglês.
Já estamos no ar, e eu cada vez mais entusiasmada com o livro, e eles a debitar as regras de segurança, e eu a querer saber se o Nick matou mesmo a Amy, se a Amy está mesmo a tramar o Nick, quando oiço dizer que o voo tem a duração de duas horas. Não sei porque tinha metido na cabeça que era só uma hora. Nunca mais chego ao destino (pensei, precedendo o pensamento com uma asneirola daquelas). Afinal o porco do Nick tem uma amante? E a Amy que era a esposa ideal! Então, já no ar, oiço o piloto dizer que o tempo está mau em Dublin e é provável que o voo seja “atribulado”.
Podia bem ter dito antes de embarcar.
O voo correu sem sobressaltos de maior, li mais cento e cinquenta páginas do livro. Passamos Amesterdão, diz o piloto, tudo OK. Passamos Inglaterra, informa o piloto, tudo OK. Estamos no mar da Irlanda, diz o piloto, e há sol, poucas nuvens e está tudo OK. Estamos a chegar à Irlanda, diz o piloto. E, de repente começa aparecer o mar lá em baixo, muuuuuuuito lá em baixo e muuuuuuito sarapintado de ondulação. O piloto anuncia que a aterragem (a ser bem sucedida) vai ser complicada. Preparem-se para a turbulência. OK, não me assusto com pouco e ainda há poucas horas, descolando de uma Frankfurt iluminada pelo sol, pensei que não tenho medo de alturas.
Volto a olhar o mar lá em baixo; muito escuro mesmo de dia, e de repente estou a absorver este trecho no livro que estou a ler:
“Podia acontecer – era possível, pouco provável, mas havia precedentes – o rio levar o meu corpo até ao oceano. Até senti pena de mim própria, ao imaginar o meu corpo elegante, nu e pálido, a flutuar por baixo da corrente, com uma colónia de caracóis agarrada a uma perna nua, as mechas de cabelo atrás de mim como algas, até ao fundo, a carne saturada de água a saltar em tiras macias, e eu a desaparecer na corrente como uma aguarela até só restarem os ossos”.
Erro número sete: não ter fechado o livro de imediato. Continuei a ler para me abstrair do vento que fustigava as asas do avião. Ao meu lado, um alemão entroncado também continuava a ler um jornal na sua língua, de cabeça enterrada nas letras porque as mesmas fugiam a cada sacudidela do avião, que parecia ser chicoteado aqui e ali por mãos invisíveis. Mas eu já tinha aterrado na Irlanda, sabia que a qualquer momento surgiria a costa. Se lá em cima o avião estava mais ou menos estável, que mal poderia advir do solo? E o piloto diz que há massas de vento a redemoinhar junto à terra, e eu penso "OK, animador". Então vejo terra, finalmente. Já há muito que passámos o mar revoltoso e nos embrenhamos num nevoeiro de nuvens cerradas. Os assobios do vento e das asas do aparelho a cortá-lo não é muito agradável, mas não é suficiente para causar pânico.
Mas então, ao ver como o avião é sacudido ao descer dessas nuvens, o piloto anuncia que vai tentar uma aterragem arriscada, porque tem receio da querosene que temos a bordo. Anuncia-o primeiro em alemão, e eu só lhe entendo a hesitação na voz. Depois di-lo em inglês, e ouvir “querosene” da boca de um piloto que detém a nossa vida nas mãos não é lá muito agradável. Diz que, se se vir impossibilitado, vamos dar uma volta. Vamos dar uma volta e logo vemos se as condições mudam, se o ângulo de aproximação à pista facilita a aterragem. Penso para mim “Cork, sigam para Cork. Querosene é combustível? Sei lá eu o que é combustível. Se temos muito combustível sigamos para Cork, que é no interior e que há-de estar calmo”. Mas querosene cheira-me a queimado e sou engolida por imagens de todos nós a arder. Penso nos meus pertences, e, de repente, penso no conteúdo dos meus pensamentos no computador. Como é que o meu avô reagiria à notícia da minha morte? E sinto que A chamei.
O piloto conduz-nos para a pista mas então, sem qualquer aviso, muda de ideias  e sobe a pique. Diz que não dá, que vamos ver. Enterra-nos de novo no nevoeiro espesso e esbranquiçado onde o aparelho não parece submetido a qualquer pressão. Devemos ter descrito uma curva, mas fê-lo durante tanto tempo, e de modo tão suave, que li mais umas dezenas de páginas, esquecida de que as minhas mãos suavam, as minhas axilas suavam, o meu lábio superior suava. E a chuva que humidificava as janelas, dado o calor da respiração colectivamente pesada no interior do avião, tinha o tom das tempestades tropicais. 
Estávamos todos encalorados, todos concentrados nos seus livros e nas suas revistas – e sei mesmo o conteúdo de todas as páginas que li, por entre reflexões acerca de morrer em paz. 
Não vai custar nada, pensei. Não pensaste nisso à tarde? Sim, ripostava a mim mesma, mas não é suposto levar ninguém comigo. Quanto mais um avião cheio de gente. Chamei-nos a Morte, pensei. E depois pensei que sou é insignificante perante a natureza. Eu e todos os outros humanos ali presentes. Somos todos impotentes. E de repente cheirou mal, como se alguém tivesse tanto medo que o tivesse despejado para as calças, e senti pena de nós. Mais por sermos só isto – frágeis, medrosos, mais animalescos que humanos perante uma ameaça – do que por podermos não chegar a terra com vida. Podíamos ter colapsado no mar (e penso que descrevemos um círculo sobre Dublin porque de repente lá estava ele, de novo a agitar-se sobre si próprio) ou podíamos ter chegado a terra aos solavancos e a querosene, que me cheira a inflamável, ter-nos carbonizado sob a chuva.
O piloto disse que ia tentar uma nova aterragem. Se não conseguisse fazê-lo com segurança, seguiríamos para Belfast. Pediu-nos perdão mas vários outros aviões já haviam sido desviados para Belfast. Belfast – a capital doutro estado. Então era grave. Então era melhor pensar na minha vida.
E da minha vida poucos flashes houveram, confesso. Há muitas pessoas que nem me afloraram à mente, e outras que lamentei não haver recordado do quanto as amo. Outras que amo e a quem nunca havia dito que amo. E as minhas irmãs, as minhas brilhantes irmãs. O buraco que eu poderia trazer para as suas vidas. 
E escrevi. E estudei. E fui, à minha maneira, feliz. Então pensei nele, e entendi que só havia uma coisa por fazer da qual me arrependia. Só uma coisa para a qual não havia despendido tempo. De resto, dos meus nervosismos e achaques, resultaram todos os tipos de declarações honestas – de amor ou inimizade, e descrevi-me bem enquanto vivi. Há muita gente que me conhece, que me entende. Pouco ficaria por dizer. Só isso me apertou o peito e me ardeu na garganta e prometi-me, solenemente, que o faria quando aterrasse. 
Iria morrer sem ter entendido o verdadeiro significado da minha vida? Perguntei-me que sentido teria (eu) feito assim, com um final em aberto, um dilema por resolver, nenhum futuro vislumbrado ainda. Terminar assim, porquê? Que enredo seria este que não entendi? Iria morrer enquanto lia um livro chamado Gone Girl? Iria morrer tendo mantido um blogue onde escrevia cartas a filhos que a tragédia me impediria de ter? No mesmo dia em que me vi tão sem esperança que concluí de facto que é pouco provável que a vida mos dê e que é mais improvável ainda que eu soubesse o que fazer com eles? Seria a ironia o género desta obra de ficção?
Conforme o avião enfrentava a pressão dos ventos e as asas pareciam papel ao seu sabor, pensei para mim que o melhor era irmos para Belfast. Vamos para Belfast, vamos para Belfast. E pensava também, uma vez mais, que não me assusto com pouco, mas que por fim o silêncio tomara o avião e todos tinham os seus países e os seus entes queridos em mente.
Aterrámos em Dublin, sim. Num aeroporto deserto tanto por fora quanto por dentro. Só quando o avião se imobilizou de todo é que o piloto, já depois de pedir perdão por termos aterrado com uma hora de atraso, admitiu em inglês que nunca se sentiu mais satisfeito com uma aterragem. Pedacinho de sorte número dois.
O meu lugar era a meio do avião, mas tive de encaixar a mala num compartimento lá atrás devido ao mesmo estar lotado, pelo que me pus de pé a fitar o fundo do corredor, e assisti a uma marcha de pessoas pálidas e em suspiros e de olhos inchados que quase partilharam um triste fado comigo. Sorrimos uns aos outros – sorri aos japoneses e eles sorriram-me, sorri aos irlandeses, ao indiano, aos alemães, à rapariga irlandesa de cabelo tingido de preto que me se oferecera para me ajudar a erguer a mala para o compartimento. Estava, também ela, apática. Juro que vi vermelhidões nos olhos de um homem asiático. Nos olhos de cada um uma história de sobrevivência, uma nova vida. Os dedos dedilhavam furiosamente no telemóvel, e se calhar perguntavam-se, tal como eu, se a torre de vigia do aeroporto consideraria que houvera de facto perigo de nos perdermos. Se sairíamos nas notícias, se o nosso piloto era um herói, se as nossas vidas haviam sido salvas.
E de repente estava enjoada e queria vomitar. As mãos tremiam e a força falhava-me.
Renasci.
Das nuvens, das cinzas… renasci.
E cumpri a minha promessa.
Seja o que o universo quiser quanto a isso.

Mas o dia ainda não acabara, e como tal, o autocarro para o centro que passa de quinze em quinze minutos acabara de passar. Azar número 1028. Então perguntei a um táxi quanto seria até ao centro, visto que tenho os trocos contados, e ele deu-me um valor bastante razoável. Choveu e esteve trânsito durante todo o caminho até ao hotel. O senhor deixou-me num cruzamento à chuva e ao vento e disse-me que fosse para a esquerda, a rua era de sentido único e ele não poderia aventurar-se nela. Assim fiz, com o rosto fustigado por um vento tão forte que as lágrimas me caiam pelos olhos sem que eu pudesse controlá-lo. Acontece que o hotel era na direcção oposta dessa rua. Azar número 1029.
Lá dei com a entrada, fiz check-in e recebi a password do wireless, que funciona mais ou menos. Para sentir que voltei à minha vida de pequenas sortes, o barman é português, a sopa é a melhor que já comi e congratulei-me com um cheesecake de Baileys. Num dia como hoje, que mais poderia voltar a fazer-me sentir inteira?
Ah... está um frio de rachar e o hotel não tem secador de cabelo.
Ah... mas tem uma chaleira e já tinha saudades de chá com leite.
Ah... parti uma unha, a que uso para coçar o nariz.
Ah... ouvi a voz dele.
Ah... esqueci-me de trazer cuecas.
Vou ter de lavar e secar as mesmas na tábua de engomar, good old irish way.