quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Carta aos meus filhos #10

Queridos,

Hoje a mãe perdeu-se por meia hora algures entre uma estação cujo nome não sabe dizer e outra à qual deveria chegar mas cujo nome também não sabe dizer. Pesando os acontecimentos do dia e dos últimos tempos, sentiu essa desorientação como uma suprema liberdade. Perdermo-nos significa não sabermos onde temos os pés. Para onde vamos? Como retornar ao nosso caminho? E a mãe saiu do metro, perdeu o autocarro que devia apanhar e, num ímpeto de fé, meteu-se no primeiro que apareceu. Pensou “com sorte, leva-me aonde quero ir”. E, sentada de frente para as janelas que passavam os arredores como um filme em tela verde e cinzenta, golpeado por rasgos do final do dia, sofreu os altos e baixos do desconhecido e do vagamente familiar. Hoje deu por si a pensar sobre felicidade, casa, religião, o sentido da vida. Desde que chegou que tem procurado os sinais. Sabem, quando estão num sítio e não entendem ao certo como foram lá parar mas, de repente, uma rádio próxima toca a vossa música favorita e vos reconcilia com o universo? A paz transmitida é de quem sabe que está onde deve estar. E, embora vivendo na casinha nº5 – e o 5 significa muito para a mãe, porque somos cinco irmãos – a mãe não voltou a receber sinais sobre estar no sítio certo. Ou, até hoje, não tinha voltado a receber. E o que aconteceu hoje para me reconciliar com a minha vida e para me passar a confiança necessária para entrar num autocarro desconhecido sem saber onde iria aportar?
Bremen é uma cidade lindíssima. Fiquei encantada e envergonhada com a minha ignorância quanto à arte e à História germânicas. A Catedral inebriou-me e a história dos músicos enterneceu-me. Mas a certeza de que hoje estive onde o destino quis que estivesse foi o que aconteceu quando a hora de voltar ao comboio se aproximou. A mãe conseguiu voltar – apenas guiada pelo se sentido de orientação – quem diria que tenho um? – para Bremen Hbf (estação central). Depois de percorrer todas as montras com os olhos, meteu-se numa espécie de self-service de bolos e bebidas quentes mesmo em frente à estação. (Porquê ali e não noutra das dezenas de montras que inspecionei?) Faltava uma hora e meia para o meu comboio e, por isso, comprei uma berliner e um café (uma aguadilha, na realidade) e sentei-me à janela. Um senhor alemão veio apoiar os cotovelos na minha mesa (alta) e começou a debitar coisas conhecidas em Espanhol e contou-me que viveu 8 anos em Alicante. Sentei-me a comer enquanto o funcionário me dizia que os espanhóis não gostam de estrangeiros e lhe pareceram rudes. Entretanto outro senhor, de barba comprida e um estranho chapéu preto na cabeça (que pareceu careca sob as malhas), vem sentar-se ao meu lado em silêncio e ouve discretamente a nossa conversa. Às tantas os dois começam a falar da América em alemão e sou excluída. Oiço o alemão dizer: mas você não bebe álcool, e o outro senhor anui. Pouco depois o alemão desaparece e fico sozinha, a comer a berliner com recheio de doce de amora ou framboesa e a conversar com o senhor que não bebe álcool. Fala mal Inglês, diz-me, porque não aprendeu na escola. Eu acho o seu discurso claro e os seus olhos pacíficos, a escola da vida é infalível. E assim passei ali a hora e meia que faltava para o meu comboio a pensar: olhem para mim, com um metro e cinquenta, sozinha na Alemanha e a conversar tranquilamente com um muçulmano – o bicho papão mundial, segundo a comunicação social. Jovenzinhas, fujam!
O senhor contou-me que é muçulmano, da Argélia e, com um tom conciliador, perguntou-me o que acho dos muçulmanos, o que ouvi dizer deles? Então explicou-me que tem que se sentir os outros com o coração. Que, o que quer que seja que uma religião ou um governo professem, sabemos sempre dentro de nós o que é certo e o que é errado. Respeitam os animais, não comem cão nem gato, adiantou, não são como os chineses. Nem comem animais como o porco ou a cobra, nem bebem o seu sangue. Elucidou-me, por exemplo, no que diz respeito à poligamia. Os homens da sua religião não o fazem por luxúria. Fazem-no por generosidade. Porque um homem, quando tem posses, deve ajudar uma mulher. A primeira mulher tem outro estatuto, mas a segunda pode ser uma viúva com filhos. Ou alguém que, por algum motivo, não casou quando era esperado. Alguém que precisa de apoio e ele estende-lhe esse braço. Porque não ajudá-la se tem meios para o fazer? Se não tiver meios de a sustentar é até imoral acolhê-la como sua mulher. Pus-me a pensar que tantas vezes o homem ocidental leva da mulher ocidental (por acordo mútuo) o mesmo que o homem islâmico leva da mulher islâmica, e sem lhe dar nada em retorno. Tantas vezes nem um telefonema nem um post-it, quanto mais uma casa e alimento. Talvez seja por me sentir desamparada, mas achei que tudo aquilo faz imenso sentido. Ninguém é perfeito, afinal de contas, e muito menos uma cultura, sociedade ou sequer civilização são perfeitas.
Fez notar que o importante é não julgar, respeitar, e sobretudo tentar compreender. Informar-se, não ouvir falar, mas procurar saber. Aprofunda o discurso dizendo-me que um pai tem sempre um filho favorito perante o seu coração. Também o marido muçulmano não sente o mesmo por todas as esposas, mas não lhe é permitido trata-las diferencialmente, assim como também não o fará perante um filho. Diz-me que acha que tudo seria mais complicado só com uma mulher – quase como se dissesse que no amor entre duas pessoas, uma passa a ser o mundo da outra e, se a relação deles desmoronar (se um morrer, digamos), o mundo desmorona também. Acrescenta que o argumento de que as mulheres, então, também deveriam ter vários maridos, não faz sentido. Não faz sentido porque a mulher é receptáculo de protecção e não fonte dela, é gerente de receitas e não geradora das mesmas. Quando essa mulher tivesse um filho – pois que seria um útero para várias sementes – quem seria o pai? Por muito patriarcal que seja esta visão, eu entendi. Chama-se tradição, e também a tourada é respeitada e é abominável. Porque não abrir um pouco mais a mente? Serão essas mulheres escoltadas por uma arma até ao “altar”?
Adianta que a imagem de violência, terrorismo, maus-tratos para com mulheres, não é ilustrativa de grande parte do islão. São sim o retrato de situações que nem o Deus deles aprova, mas que alguns indivíduos praticam. Mas em cada religião há elementos bons e maus, e Deus (Alá) criou o mundo e não se deve criticar as coisas como ele as fez, ou critica-se a obra superior. Não se deve rir dos outros nem falar nas suas costas, ou gozamos com a obra de Deus (que eu traduzo por – com a ordem das coisas – nada nem ninguém é perfeito e todos temos telhados de vidro).
Fala-me de gratidão – tem saúde, tem trabalho, vive há vinte e dois anos na Alemanha e acha que é como viver noutro sítio qualquer - porque o importante é ser-se feliz e casa é onde nos sentimos bem –, não está desfigurado e tem forças para ir agradecendo pelo que lhe foi oferecido.
Profere tudo isto com humildade, um brilho nos olhos e uma mão no peito. E diz-me; não é minha missão tentar converter-te, mas quando chegares a casa e tiveres dois minutos, podes tentar ler sobre o islão. Depois acrescenta que imagina que eu receie as pessoas da sua religião pelo que se ouve em todo o lado, e eu contei-lhe a minha aventura com um iraniano em Roma. Saliento que me perdi e apenas fui jantar com o rapaz, nada aconteceu nem nenhum romantismo se insinuou. Ele ouve com atenção e no final diz-me, pacientemente: foi um erro, Deus pode desculpar-te uma, duas, três imprudências, mas chegará a vez em que algo de mal te acontecerá. Podia ser agora, aqui neste café, podia ser eu o mau.
E di-lo com tanta bondade no olhar que é como um pai a falar com um filho, e não uma ameaça dissimulada. Ainda não foi dessa vez que tentei a sorte e ela me atirou ao chão. Digo-lhe que sei reconhecer uma boa pessoa quando a vejo. Ele diz-me o mesmo.
Quando me despedi dele, estendi-lhe a mão. Eu tinha meia hora até ao comboio e ele meia hora até à próxima oração. Pediu-me perdão por não poder apertar-me a mão e explicou-me uma última coisa: um muçulmano pode apertar a mão (ou beijar o rosto) de mulheres da sua família com quem não possa casar-se. Uma irmã, tia, cunhada, mãe. Mas não pode fazê-lo a nenhuma mulher com quem possa casar-se. Por isso pede-me perdão pela recusa, diz que lhe seria mais fácil apertar-me a mão do que debitar-me uma explicação. Acrescenta que não é porque tenha nojo de mim ou me ache feia ou indigna, mas o Deus dele pede-lhe que não o faça e ele prefere respeitá-lo. E eu fui-me embora com a certeza de que aquela conversa estava à espera de vir ter comigo.
No autocarro para local desconhecido, perguntei-me se seria agora que a sorte me fugiria de debaixo dos pés. Estava a anoitecer, encaminhava-me para onde, mesmo? Não sabia. Contudo sabia que preciso de beleza na minha vida. E a beleza é algo de relativo que causa comoção. E aqui tudo o que me comove é por uma beleza discreta que não guarda nada de familiar para me mostrar. E casa é onde somos felizes. E a felicidade é quando estamos aonde sabemos que devemos estar. E a mãe não sabia para onde estava a ir, mas sabia que voltava ao caminho certo, mesmo não sabendo onde o autocarro a levava.
E, com a decisão que acabara de tomar, já fazia sentido estar na Alemanha, dormir na casa número cinco e ir a Bremen.
Quando o autocarro finalmente parou, o mercado de flores já tinha fechado. A mãe atravessou a estrada já familiar e desceu para o metro que tinha de apanhar.

Nunca duvidei realmente de que a vida me trouxesse aonde preciso de estar. É só ter fé e acreditar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carta aos meus filhos #8

No meu primeiro dia de trabalho em Hamburgo,

Descobri que coragem é mesmo coragem. Não é só assumir o pódio de uma atitude ousada. É mantê-la e velar pelas nossas escolhas.
Tendo acordado às 06:00, descobri que as coisas realmente demoram mais quando nos sentamos por dois minutos a tomar o pequeno-almoço, lavamos a loiça, limpamos as migalhas da mesa, apagamos as luzes de presença que acendemos à noite, escolhemos a roupa à pressa, pintamos o rosto e o desodorizante mancha a camisola. Em seguida os sapatos escolhidos não condizem com a chuvada lá fora. Entretanto o pijama ficou dobrado debaixo da almofada da cama feita. Só me atrasei em dez minutos, por isso experienciei o rush das sete e dez dos subúrbios para Hamburgo. Com entra-e-sai do metro (que está em obras e por isso demora uma hora a chegar ao centro com um troço do caminho sendo feito por um autocarro), todos apanhámos chuva. Todos cheirávamos, debaixo do Hugo Boss e do Amor Amor, a cachorro molhado, como dizem os brasileiros. Para não falar na minha rua que cheira a estrume. Verdadeiramente, por entre os arbustos de lilases e hortências, com a chuva todos os jardins cheiram a estrume.
Nas finanças fui atendida em dois minutos e descobri que não era ali que devia estar. No Consulado português sentei-me por uma hora a ver a RTP1 e a ouvir os transmontanos a falar no ouro que o Salazar amealhou e no subsídio que recebem da tropa – 18,00€/mês equivalentes a uma carga de trabalhos e toneladas de papelada. Não fui atendida porque, nessa hora em que lá estive, esteve sempre a mesma pessoa sentada perante a única pessoa que estava a atender. Senti-me em Portugal. 
Refugiei-me no Starbucks e dei por mim a perguntar-me se essa cadeia têm alguma coisa que a valha além dos copos bonitos que ficam bem nas fotos do instagram. Pior expresso que jamais bebi. E por 1,90€.
Depois Neuer Wall – onde trabalho, é o paraíso das primas donnas. Cartier, Bvlgari, Louis Vuitton, Gucci, Tiffany & Co, etc. E o pesadelo de quem trabalha com mercado brasileiro e sai às tantas do escritório por causa do fuso-horário. Na Praça do Parlamento já está tudo fechado quando saio, e nem saio assim tão tarde. Nem é possível comprar-se pão, já.

Acabo o dia a encaminhar-me, noutro metro a cheirar a cachorro molhado, para uma casa vazia e em silêncio onde não posso esquecer-me de acender as luzes do exterior – por causa dos passantes ou de possíveis assaltos? – e de fechar as cinquenta mil portas. Espera-me aquilo que tentei que fosse uma canja mas que, na realidade, é só sopa de arroz e cenoura. 
Amanhã, desconfio, será igual.

sábado, 31 de agosto de 2013

Carta aos meus filhos #7

Guten tag,


Hoje foi um dia tranquilo. Não se ouve o mínimo ruído nas redondezas, está sempre tudo em silêncio. No primeiro dia pensei que a casa tinha isolamento de som. Depois ouvi a televisão do vizinho e pensei que se tratava de um fantasma. Nesse mesmo dia cheguei à conclusão de que a casa não tem qualquer isolamento. As pessoas é que não fazem barulho, é quase como se não vivessem. Não falam alto, não gritam, não deixam cair coisas nem batem com portas.
Em relação aos alemães, o que sei deles até agora? São educados – alguns conseguem ser gentis. Mantém as distâncias mas ajudam, sorriem sem serem tagarelas nem revelarem qualquer pormenor da sua vida. Raramente são mordidos pelo bichinho da curiosidade. Respondem a uma pergunta e seguem o seu caminho.
Têm uma estranha predilecção, estes de Hamburgo, por água com gás. Pergunto-me por que carga de água alguém beberia água com gás se pudesse beber uma simples e refrescante água mineral?
Almoçam cedíssimo e, segundo aprendi hoje, não jantam. Certo é que são todos bem constituídos, ainda não vi nenhum magrinho ou baixo. How can it be?
Os serviços parecem ser caríssimos. Cerca de 200€/mês para água, electricidade, internet. Isto faz com que as despesas da casa estejam estudadas ao pormenor. Vamos ver se me habituo a comer pão ao jantar.
Quando uma coisa é barata aqui, parece mesmo muito barata, tipo gel de banho da Nivea (alemã) a 1,95€ sendo que, em Almada, custa 3,20€.
Ontem e hoje distraí-me com um tutorial de alemão – Der roman ist interessant. Die romane sind interessant. E com um de piano – Für Elise é a primeira composição a estudar.
Em breve espero inscrever-me nas aulas de Alemão.

Ich bin schon in Hamburg.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Carta aos meus filhos #6

Hallo,

Hoje foi o segundo dia da aventura Hamburguesca da mãe.
Tudo começou com a devida pesquisa acerca dos locais onde tinha de ir. Assinalei-os devidamente no mapa, sem grande noção de distâncias. Tanto o Burgeramdt (escritório de apoio a estrangeiros onde vou pedir o nº de contribuinte alemão) e o Consulado Português ficam nas margens do lago Alster – suposto ex-libris do turismo em Hamburgo.
Então como correu o dia, hoje?
Acordei antes das 09:00, ignorei o despertador e pesquisei pelas moradas dos locais/saídas do metro, etc., no computador. Nota mental para comprar um tapete para o rato. Comi uma tigela de cereais (a olhar para as flores da vizinha). Arrumei a cozinha. Fiz uma nota mental para comprar sacos do lixo. Tomei banho. Arrumei o wc. Vesti-me e, depois, sentei-me para calçar as botas (pensando eu que o cinzento lá fora não anunciava nenhum calor). Conforme me sento no quarto a calçar as botas oiço um barulho vindo do escritório. Deste onde estou agora a escrever-vos. Uma espécie de televisão ligada com uma mocinha a falar em alemão. Foi tão óbvio que o barulho vinha daqui que vim ver do que se tratava. O som eclipsou-se antes de poder olhar cá para dentro. Nem televisão, nem rádio, nem despertador. Os cabelinhos do pescoço assanharam-se-me, mesmo porque vi que, no sótão, há duas máscaras de gesso de dois rostos. Podiam ser uma antevisão de uma máscara veneziana, mas estas nunca passaram de dois moldes de gesso e não gostei de as ver ali, bem como não gosto do palhaço de madeira em forma de sombra sobre a minha cabeça e para lá da cortina, enquanto durmo. Também a língua alemã e o passado do país me causam melindres, pelo que tive de afastar tudo isto das ideias para continuar a fazer a minha vida. Voltei ao andar de baixo, pousei tudo na cómoda da entrada e dei-lhe as costas para me ver ao espelho na casa de banho de apoio. Oiço cair o batom da Eucerin (comprado em Almada Velha mas importado de Hamburgo!). Pelo barulho seco soube que só podia ter sido ele a cair da cómoda. Baixei-me para o procurar sob a cómoda com o ruído da queda ainda a ecoar no vestíbulo. Não o vi. Agora sim, se não estivesse adiante, atrás da porta, teria fugido a correr. Lá estava ele. Na casa de banho de serviço descobri que tinha uma unha falhada e que a lima estava no andar de cima, de onde eu tanto queria fugir. Pensei «quando voltar a casa vou lá», mas depois obriguei-me a vir e pareceu-me tudo inquietantemente normal.
Saí de casa duas horas depois de ter acordado. A brincadeira de comer-limpar a cozinha, tomar banho-limpar o wc, dormir-fazer a cama, atrasou-me em mais de uma hora.
Assim sendo lá apanhei o metro para Steinstrasse e rezei para dar com o escritório de estrangeiros. Dei várias voltas ao bloco, inclusive paguei 2,00€ por um café expresso, suei e doeram-me os pés até descobrir que tinha saído do metro no sítio exacto onde era o escritório. Era só atravessar a estrada. Perdendo cerca de uma hora perdida, cheguei lá às 13:00 apenas para descobrir que fechara às 12:00. Damn you, sexta-feira na Alemanha! Fecha tudo mais cedo. Sentei-me e choraminguei um bocadinho antes de continuar o meu caminho para Jungsfernstieg, a estação central. Pelo caminho pus-me a ouvir Scorpions e animaram-me bastante. Tanto que tirei a Canon da mala e lá fiz de turista. Perante uma ponte com dois homenzinhos que, ao longe, me pareceram extremamente familiares, pus-me a rir. Encaminhei-me para lá apenas para descobrir que, à esquerda, temos o Colombo e à direita – fiquei sem fôlego – o meu rico Vasco da Gama.
Metro é U-bahn, e esta saída funciona para o Consulado e para a rua onde trabalho. Dei um pulinho a essa rua e depois fui ao Consulado. Ver a bandeira de Portugal fez-me sentir, por momentos, menos perdida. Subi ao primeiro andar às 14:00, uma hora depois de ter fechado. Desta vez não choraminguei; sorri.
Não há muita gente a saber falar Inglês por isso, depois de dar quatro ou cinco voltas à praça onde é o Parlamento, enfiei-me num centro comercial para comer qualquer coisa. Como a cidade não é direcionada a estrangeiros, as ementas estão todas em alemão. Não são os preços que assustam, são aquelas palavras com “ch”, “zein”, “k” que assustam. Por isso refugiei-me numa montra de Pasta e sou cumprimentada com um “ciao”. O moreno sorridente tinha de ser do Sul da Europa. Digo-lhe, em Inglês, que não falo Alemão. Ele pergunta-me se falo Italiano e quase me atiro ao chão de alívio. Pomo-nos a falar em Italiano e, enquanto como macarrão à bolonhesa, ele conta-me que é da Sicília e que há vinte e cinco anos que mora aqui com a família. Chama ladrões aos governos e pergunta o que é que aquela gente faz com o dinheiro que rouba, visto que bastava roubarem metade para já viverem o mesmo género de vida. Diz que sente falta da família, da comida – o que é que vocês comem em Portugal? Portugal é um país lindísimo, da língua dele e, sobretudo, do sol. Diz-me que vivemos em bons países com más pessoas, e é por isso que ele não vai voltar a Itália. No final, os três sicilianos – entre os 30 e os 50 anos – juntam-se ao balcão para me dizer adeus. Com educação, e sem maldade, o senhor mais velho diz-me, quando me despeço, “sei molto bella”. Quis ter um bocadinho mais de forças, hoje, para lhe responder “non, sono è molto brava”. Disse-lhes foi que, graças a eles e ao Italiano, me senti finalmente em casa desde que cheguei. Como ficam a uma caminhada de 5 minutos a partir do meu trabalho, penso que vá lá almoçar com frequência.

Voltei para casa exausta, a dormir no metro. Cheguei a casa e devia sair para ir tratar das coisas que preciso – entre elas o raio de uns ténis porque fiquei com os pés num oito. Ao invés, vou dormir e curar as costas até que seja hora de fazer o jantar.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Carta aos meus filhos #5

Meus queridos,


Nunca me senti tão crescida e tão capaz como hoje, vinte e nove de agosto de dois mil e treze. Não chorei no embarque, não sofri tremuras nem nervos e até consegui sair do aeroporto com toda a dignidade possível a uma mulher de 1,50m que carrega 39 kg entre as duas malas que pode trazer consigo. Depois, meteu-se num táxi escolhido a dedo por um senhor da Índia ou do Paquistão que falava Inglês mas que, nas entrelinhas, tagarelava em Alemão. Meteu o GPS para a morada que a mãe lhe deu e, 24€ depois, estava em casa.

A casa é adorável, uma verdadeira casinha de bonecas cheia de marcas de vida. Espanta-espíritos, fotografias, desenhos, um mapa mundi com pins coloridos a assinalarem os mais diversos destinos, incluindo a costa este da Austrália, roupa nos armários e objectos que já não via há algum tempo, como aqueles despertadores de mostrador digital com algarismos a vermelho. Contudo, tem demasiadas portas. Tem duas portas na cave, duas portas ao nível da rua, uma porta para o sótão e uma para a cave. É muita porta para uma mulher assustada guardar. Espero que confie na vizinhança, que é amorosa, e não tenha ideias idiotas. E as escadas matam-me (como meia conclusão; casas com três andares e escadas não têm piada!!!).

Como balanço do primeiro dia, cheguei a duas conclusões: 

A primeira é a de que não sei fazer nada. Ao jantar consegui ferver o óleo (de tal modo que o frango ficou instantaneamente chamuscado ao tocar-lhe), queimar o frango (lixo) e a frigideira (muita esfregadela) e, em seguida... Bom, eu queria fazer frango com mel e amêndoas. Esta última mistura deu azo a um nougat que solidificou no garfo e se recusou a sair até levar com água a ferver em cima. Como até não sou azarada, o nougat pegou-se de tal modo ao negro do chamuscado prévio que, com o segundo, saiu o primeiro também. Queimei-me no braço com óleo e algumas vezes com os recipientes saídos do forno. Sim, tive que recorrer ao forno para poder jantar. Gastei todo o óleo da dona da casa (meia garrafa) - a repôr - e não consegui fritar uma perna de frango. O cheiro a fumo (e a nuvem) eram tais que, momentos antes de ligar o exaustor, pensei que a vizinha do lado, guardiã da casa, viesse aí de extintor em punho.

A somar a isto sou desastrada e impaciente. Uma coisa leva à outra num ciclo vicioso. Fico frustrada pelo quão desligada sou. O fogão, por exemplo, não faz qualquer barulho. Receio vir a esquecer-me que está ligado / de desligá-lo.

A segunda conclusão é a de que jantar sozinho (quem sabe viver sozinho) não tem tanta piada quanto promete. Meter a mesa para um e jantar de olhos postos nas flores do jardim da vizinha não é libertador. É deprimente. E se o computador (a música!) estiver noutro andar, o silêncio abate-se sobre tudo e a sensação de isolamento é inquietante.

Não estou desesperada nem nada que se pareça, mas parece-me importante salientá-lo.

Por isso, meus meninos, por hoje largem o PC e vão comer com os pais.
A mãe finalmente acertou na receita de frango com mel e amêndoas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Carta aos meus filhos #4

Mes amours,



A mãe não tem tempo. Tem 700 páginas dum romance histórico para rever e só lhe apetece fugir e gastar o pouco tempo que resta em Portugal com cozido à Portuguesa, compilações de música tuga e conversas de escadas com cigarros e as amigas. Já tenho casa, ao menos isso. Um negócio da China dos meus. Entretanto falei com uma pessoa. Com uma pessoa que me olhou fundo nos olhos e que me fez perceber que os medos - como fantasmas dançantes - estão a emergir. Durante anos mantive-os fechados na cave, e agora estão todos a subir ao primeiro andar, quase, quase a bater-me à porta. Será verdade que vivi sempre com medo, a suster a respiração, aterrorizada com voltar a esfolar os joelhos?

Mas também estou tão feliz.
Ontem já fui às compras, já me começo a imaginar feliz no apartamento onde viverei sozinha até ao Natal. Se houver um canteiro vou plantar salsa. Salsa e flores. Há montes de sítios que quero ir visitar em redor - Copenhaga, Berlin, Amesterdão, Wismar, Lubeck, Köln, Brugges, Paris, Estocolmo. A mãe vai ser feliz como nunca foi, escrever sobre coisas novas e preparar-se. Dissera-me para preparar; rodas suplentes para o carro, dois cães, uma espada firme, um manto sólido. Quando a guerra vier, a mãe não admite perder. Admite desistir, mas não perder. E desistir não é perder, talvez vezes é safar a pele. Fugir ao erro, amar-se. Escolher-se.

A mãe não é a Papisa.
A mãe não quer ser como a Papisa.
A mãe é a Imperatriz e o pai é o Imperador.