quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Carta aos meus filhos #17

Meninos,

O gato ainda não voltou a casa. Ontem, à luz do aeroporto de Fiumicino, na fila para embarcar para Bari, a mãe sentiu que a sua pele era translúcida. Se súbito, teve vergonha da rede de veias e articulações que lhe cruzam a pele. Sentiu-se embaraçada por causa das olheiras, da brancura excessiva da pele, que em certas luminosidades foge para verde, azul, roxo. A mãe sentiu que, se olhassem para mim, se alguém se voltasse ou olhasse sobre o ombro, ver-me-ia como eu sou.
O guia turístico que nos tem levado a calcorrear as ruas de Lucera tem uma luz especial. É a pessoa diferente; a mãe encanta-se sempre pela pessoa mais normal do mundo, mas no contexto errado. Os italianos falam alto e usam muito as mãos, riem e dizem piadas de olhos cintilantes. Este italiano fala um inglês cuidado e usa vocabulário específico que a mãe reconhece mas não está certa de que conseguiria reproduzir com tanta fluência. Por sabê-lo tão metódico, por o ver tão direito de pasta na mão enquanto, a seu lado, a guia local explica tudo em italiano risonho e gesticulado, e por lhe registar o timbre pacífico e as piadas que profere sem que se lhe altere a expressão do rosto, a mãe tem dificuldade em desviar os olhos dele.
Quando ele repete as explicações da italiana, que a mãe entendeu, acrescenta sempre qualquer pormenor interessante. Quando está perto de mim a explicar, não consigo impedir os cantos da boca de se curvarem num sorriso. Oiço na sua voz que também lhe nasce um sorriso nos lábios, que é rapidamente controlado.
Quando a mãe chegou, apresentou-se-lhe como um furacão: chegara há uma hora e já conseguira perder a mala com o computador, o telemóvel e o BI. Ele fez tudo para os recuperar.
Se isto fosse Portugal, a mãe diria que poderia ter encontrado o vosso pai. Não é que tenha o coração completamente desocupado, mas acabou de encontrar lá um espaço. Não foi o italiano que abriu esse espaço; o espaço estava lá, a mãe não sabia e ele foi lá meter-se. E isto não importa para coisa alguma, porque daqui a cinco dias, quando nos separarmos, a mãe sabe que não voltará a dedicar-lhe um pensamento.

Mas é bom saber que não morri, embora aceder a essas portas me cause uma náusea imediata, um mal-estar semelhante ao que um animal deve sentir quando os grilhões de uma armadilha se lhe espetam na carne. É bom descobrir que, passado o cataclismo, o meu coração começou a regenerar e se eleva, por fim, das cinzas.

sábado, 12 de outubro de 2013

Carta aos meus filhos #16

Um dia...


Um dia, vocês vão pedir-me se podem ter um cãozinho ou um gatinho. Perdoem-me, queridos, mas a mãe é capaz de vos vir a negar isso. Na altura vocês não vão entender. A mãe dirá que já perdeu alguns animais e que se sofre muito, e vocês dirão que as alegrias que esse animal trouxer vão atenuar as dores causadas pela perda dos anteriores.

Ainda assim; não.
Espero muito estar enganada, mas ontem, quando a mãe foi à porta chamar o Napoleão e ele não veio, caiu qualquer coisa cá dentro. A mãe é uma mulher de sextos sentidos. Por vezes erra, mas alguma coisa me impediu de dormir esta noite em paz. Hoje o Napoleão desapareceu (sem que o soubesse, porque estive o dia todo fora ontem, já não era visto desde a manhã anterior).

Chamei-o e ele não veio. Os "amigos" dele, aqui da zona, procuram-no. Chegaram ao ponto de me entrar em casa, de se aproximarem da minha cama. De me assustar. Não, ele não está por casa. Se estivesse pela área, quando abri a porta do quintal há pouco e o chamei, não haveria um gato sentado no nosso pombal.

Um gato preto, de costas para mim. Vejo-lhe as orelhas recortadas na noite. Pelo sim pelo não, chamo-o. Não se volta. É tão tarde, e a mãe sofreu tanto hoje, que volta a chamar; és tu, Napoleão? O outro gato está imóvel, de costas para mim. Faço toda a espécie de ruídos e nada. Então começo a pensar que estou a imaginar coisas, empurro a porta e saio para as escadas. Finalmente se digna a olhar-me: não é o Plião.

Reparo nas estrelas, tão luminosas, e distingo a forma de um papagaio. A mãe sente os olhos encherem-se-lhe de lágrimas e diz-lhes que só quem tem animais sabe o sufoco que é, a maldade que há por aí para com os gatos, sobretudo. Pede-lhes que mo tragam de volta, um pedacinho do meu coração escaqueado tem-lhe amor. É-me vital experienciar um bocadinho de amor. E então, enquanto admiro as estrelas de coração nas mãos, uma ave enorme - só podia ser uma coruja ou uma espécie de falcão, abre as asas e sobrevoa o espaço entre o prédio em frente e o meu telhado. É tão grande - e prenuncia algo de tão mau -, que sei que o universo está a mandar-me mensagens de consolo.

O que aconteceu? Onde está o meu gatinho?
A mãe tem muitas dúvidas nesta vida que gostaria de ver respondidas. Mas a verdade é que, se apenas pudesse colocar uma questão ao universo, perguntaria precisamente:
Onde está o meu Napoleão?

Corri todas as ruas da zona, a pé, de carro. Perguntei a todos os vizinhos com que me cruzei, ouvi histórias horríveis sobre cães e gatos que assassinam gatos, sobre pessoas más e sobre animais que regressaram a casa ao final de meses, outros que caíram em recantos e nunca regressam. Calcorreei o seminário e esgotei a voz com o nome dele. Não o encontrei, não consegui dormir. Era eu encolhida num canto e a tia Cláudia encolhida noutro.

A mamã só consegue dizer à vida que já entendeu, a existência é sofrimento, bláblá, tem de estar preparado, sofre-se muito, perde-se quem se ama, nada é garantido. Sim, a mãe sabe que o mundo é um sítio perigoso. Pare de me dar lições, eu já sei - já senti - isso tudo. Agora poderia, por favor, mostrar-me o lado que não conheço? Felicidade? Paz? Conforto? Amor, talvez? Ou então deixe estar isso tudo e traga-me só o meu gato, para que eu possa chorar as infelicidades todas no lombinho dele.

Por isso, à vossa pergunta se podem ter um animal, a mãe responde, a partir deste outono em que está a sofrer horrores pelo desaparecimento do Napoleão:
- Não, poupem-se. Poupem-me.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Lettera ai miei figli #15

Bambini,

Dove è il babbo?
Mamma ha questa voglia di fare l'amore con lui... Non ho mai fatto l'amore con nessuno fino ai 23 anni.
Oggi mi ho messo ad imaginarlo; me ed il vostro babbo saltiamo fra le onde, e c'è questa luna piena, bianca. Mi spoglio del vestito e lui mi guarda. E lo guardo anch'io, ed i miei seni sono anche bianchi sulla luna, ed lui sorride, ed io sorrido. Il mio sguardo cerca le sue mani, mi metto sulle sue mani. E l'amo. Voglio dirlì che l'amo, che l'ho amato sempre, da tantíssimo tempo...
Saltiamo fra le onde, le mani interlacciate, i corpi nudi, le anime ancora piccole, belle, giovanne. Gli chiedo di dirmelo solo una volta, voglio sentirlo almeno una volta.
Ti voglio bene, com'io gli ho sempre voluto bene.
E poi urlo, come dal film che ho guardato ieri:
- Voglio qualcuno che me sorprenda.
Ed il vosto babbino me sorprende e dice:
- Facciamo l'amore sulla sabbia?
E forse facciamo l'amore con la schiena sulla sabbia e la luna negli occhi.
Fa freddo, fa veramente freddo. Ma lui m'abbracia, ed io l'abbracio. Ed, all'interno dei suoi bracci, l'estate è qualcosa d'eterno.

Sono stata io chi l’ha disegnato quella bocca. Quella bocca scelta, con assoluta libertà, fra tutte le bocche.  Ed adesso parliamo di Julio Cortázar; Cortázar diceva che, quando Horacio bacciava Maga, la sentiva tremare contra lui, come una luna sull’acqua. Anch’io voglio tremare contra il vostro babbo, di freddo, d'amore, d'antecipo, di stanchezza, di adorazione, proprio come la luna sul mare.

sábado, 5 de outubro de 2013

Carta aos meus filhos #14

Hoje a mãe tentou ir trabalhar n’Os Pássaros para a biblioteca municipal. Acontece que não havia internet e, como resultado, não pode fazer nada do planeado. O ficheiro estava suspenso entre o meu e-mail e a dropbox. E fiquei assim, com um computador sem internet à minha frente. A certeza da nulidade de quase tudo sem acesso a ela…
Então peguei em dois livros a respeito das revoltas liberais do séc. XIX e pus-me a pesquisar para o meu novo livro. O mesmo que comecei no Alentejo e que tive de largar entretanto porque me voltou a incapacidade de escrevê-lo.
Em seguida fui sentar-me sozinha no MacDonald’s. Adorable light. Bláblá...A seguir vim para casa, e foi então que sucedeu o “acontecimento do dia”. Já a subir a Avenida do Cristo Rei, tive de me espremer entre um carro e uma velhinha de canadiana. Passei pela senhora de olhos postos no saco dela. Volumoso, mas o conteúdo parecia verde. Podia ser uma couve ou assim. Ainda assim tive de olhar para trás e, como ela me olhou, perguntei-lhe se precisava de ajudar com o saco. Não é nada que a minha avó não faça a toda a hora aqui pela vizinhança, por isso não me fica mal fazê-lo também.
A senhora confiou-me o saco, bastante pesado, porque vinha cheio de maçãs ou pêras, e pôs-se a falar comigo durante os metros que caminhamos ao ritmo da sua perna doente.
Tem oitenta e seis anos, uma reforma miserável. Vive com um filho que “só quer é passear, não me ajuda em nada”. Um filho que poderia aspirar a casa por ela e poupar-lhe esse incómodo. A senhora tem uns olhos castanhos enormes e bondosos, o cabelo liso, completamente branco, pelos ombros, e diz que vive ainda uma vida de trabalho. Pior, é obrigada a aceitar esmolas. Diz que lhe têm oferecido comida. Não tem dinheiro para suportar a ditadura dos trinta dias. Hoje deram-lhe fruta. Às tantas o meu coração aperta, e ela conta que já preparou a roupa para quando morrer. “Já me vesti para a morte”, diz, e a expressão é-me tão inédita que me volto para trás para lhe estudar as feições quando o diz; naturalidade, resignação. “Sim, sim. Já disse ao meu filho; quando morrer está aqui pendurada a roupa e os sapatos que quero levar”. E chegamos ao cruzamento que dita a separação.
Antes de me dizer adeus, ainda insiste para que eu traga alguma fruta comigo. Penso que, de todos os meus males, falta de alimento não é um deles. Quis dizer-lhe que só tinha cinco euros na carteira mas podia ficar com eles – ou acabaria o filho dela a beber bicas com eles?, quis dizer-lhe que, se precisasse, podia bater à minha porta num dia de maior precisão que não iria dormir sem comer qualquer coisa. Quis dar-lhe o meu número e pedir que me ligasse se estivesse aflita. Mas a garganta fechou-se e não disse coisa alguma. Não lhe ofereci ajuda, limitei-me a estender-lhe o saco e a recusar a fruta que me oferecia, antes que me pusesse a verter lágrimas perante a pobre mulher.
Saber que há pessoas que eu, também pobre, poderia ajudar com pequenos gestos. Saber que o Estado está incapacitado de ajudar estas pessoas – sabe-se lá em que circunstâncias caíram nesta mesma miséria. Saber que os filhos – como o dessa senhora – estão desempregados e a mãe de oitenta e seis anos é que vai batendo às portas para pedir comida para os dois. E disse-me “tinha mais precisão de dinheiro do que da fruta”, e eu penso que as suas contas estejam por pagar. Leva-me a ponderar sobre o quão privilegiada sou.
Estou muito de longe de ser rica e, todos os meses, o meu dinheiro chega à conta para as aventuras em que embarco. Desde que comecei a trabalhar, em 2007, dificilmente recebi 1,00€ que fosse da minha família para o que quer que seja – e acho muito bem que assim seja, porque um jovem com braços para se sustentar tem mais é que pô-los a mexer. Mas ainda assim tenho alguns luxos, se calhar até acima do meu nível de vida. Como comprar diariamente uma torrada no café (22,00€ ao final do mês), ou depilação a laser (40,00€ por mês), ou livros (150,00€ no mês da feira do livro), ou uma “actualização da roupa do armário para a estação” (150,00€ antes de ir para Hamburgo), ou tónicos faciais, champôs que prometem milagres no cabelo, incontáveis vernizes que secam no frasco antes que os use, uma televisão (que na realidade nem vejo), um terceiro computador (que ligo uma vez por semana antes de dormir durante dez minutos), um telemóvel longe da febre dos iphones, mas que havia com as mesmas funcionalidades a metade do preço, um quarto ou quinto par de botas, um terceiro ou quarto par de ténis, um décimo casaco, etc. E há as viagens – pelo menos uma boa viagem anual. Na realidade, tenho de considerar que sou mais do que privilegiada. Sou uma sortuda por ter trabalho e por conseguir manter um estilo de vida – que no entanto não me permite fugir desta casa, ou não me permitiu ainda, por má gestão – onde posso incluir viagens. As viagens são aquilo onde o meu dinheiro é melhor aplicado.
Desde o verão de 2012, andei pela Costa Vicentina e refugiei-me numa cabaninha amorosa no Cercal, subi por campos de girassóis no Baixo Alentejo, dividi o protagonismo das fotos com vacas alentejanas e esgotei as pernas no castelo de Beja. Depois percorri o litoral Algarvio e subi até casa via Guadiana, naquele que deve ser o troço de percurso que mais amo em Portugal; as bungavílias em Alcoutim, Espanha logo ali, Mértola encantada e a inacessibilidade do Pulo do Lobo. Fomos ainda a tempo de jantar numa pizzaria na velha e boa Beja. Fui à Irlanda – subimos a castelos, sentámo-nos em muros a admirar as cruzes celtas, furámos um pneu, visitámos inúmeras igrejas anglicanas, vimos até uma parada zombie em Galway e feri os olhos no verde intenso desse país. De volta a casa passeei pelo Minho, Gerês e Trás-os-Montes, almocei na Galiza, subi ao Bom Jesus de Braga e caminhei nas ruas antigas da cidade dos bispos. Fui ao Museu Grão Vasco em Viseu, fotografei o Outono em Ferreirós do Dão, fui a Coimbra e admirei a Sé Velha e os bairros estudantis debruçados sobre o Mondego. Sofri um quase primeiro acidente na estrada e fui pagar as promessas de velas a Fátima dez minutos depois – e sentámo-nos nas escadas do santuário a fumar um merecido cigarro perante um recinto quase vazio numa noite de Dezembro. Arranquei com os meus irmãos para três dias no Porto – aí sim, pude inspeccionar bem a Invicta onde nasceu a minha avó materna. Voei até à Madeira, maravilhei-me com as cores do mercado do Funchal e regressei ao continente para voltar a pisar o Covão d’Ametade e quase partir um osso na neve/gelo da Serra da Estrela. Comi cupcakes na Guarda e sentei-me num telhado de chapa a admirar o pôr-do-sol em Belmonte. Rumei à região Oeste sob uma promessa de chocolate e finalmente admirei as Capelas Imperfeitas da Batalha, voltei a emocionar-me com os túmulos góticos de D. Pedro e D. Inês de Castro em Alcobaça e perfiz a muralha de Óbidos a pé. Fui espreitar Monserrate, embrenhado em Sintra, e nesse mesmo ano voei para a Bell’Itália. Foram dias de sonho, esses passados entre spaghetti allo scoglio, os melhores gelados do mundo, as obras de Rafael e a Última Ceia do Da Vinci, a graça bucólica da Toscana e Maria Callas a sussurrar-me ao ouvido sobre a Ponte Vecchio. E então parti de novo para a minha adorada Beja, para um fim-de-semana com as manas. Depois fui para o Centro – as praias fluviais, o xisto, os rostos. Janeiro de Baixo, Fundão (pela segunda vez neste ano), Fraga da Pena, Piódão. Quase tive o segundo acidente do ano e voltei a Almada. Embarquei numa aventura improvável que me levou à cidade mais verde da Europa, e de Hamburgo não resisti a espreitar Bremen e Berlin. Volto a casa uma vez mais, apenas para descobrir que fui suficientemente abençoada para, ainda este mês, ir pisar uma bonita região italiana chamada Puglia (desta feita em trabalho, tal como a Madeira!). Por isso, quando me virem mal disposta, basta atirarem um destes locais para a conversa e arranjarei forma de recuperar a minha humildade e a minha gratidão à vida.
Com isto em mente, lembro-me da dona Florinda, de quem muito gostei, e que faleceu de cancro dos ossos. Ela dizia-me sempre:
- Célia, quando a tua desgraça te parecer grande, lembra-te que há maiores.

E hoje confrontei-me com uma dessas maiores e silenciosas, que toma não só essa minha vizinha da rua de trás, como muitos outros idosos que por aí circulam em silêncio. Por isso filhos, saibam que a mãe não tem muita razão de queixa. Mesmo que vos diga “ai eu sofri muito quando era nova, e vocês agora são uns despreocupados?”, “ai eu lutei muito quando era nova, e vocês agora só querem ficar sentados no sofá?”. Não me levem demasiado a sério. Houve sempre alguém pior.


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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Carta aos meus filhos #13

Queridos,


A vida complica-se diariamente. A mãe acha-se sempre muito crescida e muito sabida das coisas, mas a verdade é que, a cada dia que passa, se descobre mais ignorante. Uma coisa é certa; quando as pessoas estão dispostas a entender-se, há pouca coisa que as separe. Quando estão apostadas em não se dar, qualquer coisa é motivo de desentendimento. E a mãe tem-se esforçado por pertencer ao primeiro grupo.

Tantas vezes na vida o caminho desemboca numa bifurcação - two roads diverging on a yellow wood -, e eu, sendo apenas uma viajante, sou obrigada a escolher. Há uma tendência geral para as minhas escolhas - o fraco em prol do forte, o necessitado em prol do abonado, o injustiçado em prol de quem causa a injustiça. E tudo isto é simples quando é absoluto. Mas a mãe diz-vos que, aos vinte e três, já entendeu que pouca coisa na vida é absoluta. Tudo sofre influências da lei da relatividade. A mãe é injusta. A mãe magoa. A mãe esquece quem mais precisa que ela dele se recorde. A mãe põe para debaixo do tapete, porque também a mãe, que se acha tão íntegra, é incapaz de lidar com as coisas incómodas. Uma coisa são as coisas difíceis, outra são as coisinhas pequeninas, e a mãe odeia-as acima de todas as coisas. Cada dia é uma lição. Uma lição de perseverança e de resistência. Talvez uma hora difícil anteceda sempre uma hora mais fácil. E a mãe não rodopia no centro do furacão, mas sente-se tão fraca, tão vulnerável, tão em baixo por uma vez. A mãe sabe que, no seu âmago, não precisa realmente de ninguém que olhe por ela. Sempre fez um óptimo trabalho nesse campo. Contudo, por ora, queria que a levassem no colo e lhe contassem histórias. Que a entretivessem sem que ela tivesse de o pedir, que lhe mostrassem coisas bonitas a partir do conforto de um assento de carro. A mãe não tem forças para descer nesta paragem, ou em nenhuma outra. As cartas voltaram a chamar-me. A mãe obrigou-se a acreditar. A mãe tem receio do que as cartas querem dizer. Não consultá-las será sinónimo de força e fé ou de receio de enfrentar as suas suspeitas? Não, a mãe acredita. Porque ser-se positivo torna o dia mais luminoso.

A mãe não consegue dormir. Está rodeada de pessoas com problemas a sério, pessoas sem tempo, pessoas a precisar realmente de tempo, pessoas afastadas de casa, pessoas cujos entes queridos partem, pessoas que planeiam a sua vida, pessoas que casam e essas mesmas vidas mudam, pessoas com filhos, crianças que, sem compreender, são levadas pela mão para longe daqueles que amam. Mas a mãe é que não consegue dormir. Crianças que são levadas pela mão pela rua, ao cair da noite, e que olham para trás, os olhinhos tristes sob a aba do boné, e acenam uma vez mais adeus àqueles que o abandonam. Abraçada a si própria, à porta de casa, a mãe fica até que a esquina nos separe. A mãe já não chora. Em tempos choraria, agora convenceu-se de que nada muda. Tudo piora. O que não piorar, melhor; acomoda-se dentro de nós e ergue paredes de granito. Abraçada a si própria à porta, no primeiro dia deste Outono, a mãe pensa; tenho de escrever a história da minha vida. É-me essencial não esquecer. A vida da mãe - penso "a vida da mãe", e não "a minha vida" - foi sempre mais ou menos isto. Uma criança pela mão a ser arrastada para longe daqueles que mais ama. Uma criança que olha para trás e acena, esperançosa. Talvez da próxima fique. Talvez da próxima possa ficar. Talvez da próxima me deixem ficar. Uma criança triste a acenar um adeus àqueles que a abandonam. Por vezes a mãe foi a criança triste. Outras vezes, foi a mulher que se abraça à porta e que sorri à criança triste. A vida da mãe resume-se a isso; uma vida é quanto mais vida quanto mais se insere nas tempestades e nos dias solarengos de uma família. E a família da mãe é isso. Uma criança triste...

A mãe sonhou com um emigrante. Um emigrante desconhecido que vinha atirar-lhe pedras à janela durante a noite. Queria um lenço, um lenço vermelho. A mãe já o tinha escorraçado quando um transeunte se abeirava da janela e me dizia: minha senhora - será que ele me chamava senhora? Às vezes já me chamam senhora - aquele senhor é um emigrante. Aquele senhor tem saudades da sua terra. Na sua terra bebe-se qualquer coisa de tradicional sobre um lenço vermelho dobrado. Antes de você morar nessa janela, morava aí uma senhora que, fosse à hora que fosse que ele viesse pedir-lhe ajuda, lhe emprestava um lenço vermelho. E a mãe procurava discernir o vulto do emigrante na rua deserta. Ele fora-se. Fora-se - gordo, baixo, corado, quase careca, num pranto. Fora-se em prantos, pois. Tenho lenços doutras cores, quis gritar-lhe. E ele fora-se. E a mãe engole as lágrimas. Antes de ouvir o que o pobre homem tinha a dizer, disse-lhe que desaparecesse, que a ela só lhe interessava dormir em paz.

A mãe não dorme, já vos disse? A mãe acorda muitas vezes durante a noite e tem sonhos ora muito bons, ora estranhamente perturbadores. Não maus, nunca maus. Não voltou a ter sonhos maus. Mas tem sonhos que a intrigam como contos sul-americanos. Hoje a tia Cláudia disse que eu ressono. Deve ser do cansaço, quero pensar. Nunca ressonei. Diz-me que faço um ruído estranho, como se "comesse" os meus dentes. Já mo tinham dito antes. O dentista não deu por nada no esmalte desses mesmos dentes massacrados durante a noite. A tia Cláudia ainda disse:
- Esta noite levantaste-te, foste à cozinha e comeste uma clara de ovo cru. Deixaste a gema.
A mãe recorda-se de ter acordado durante a noite e de ter ido beber água. Estas coisas que a tia diz são loucura. A mãe não é louca. Parecem histórias de bruxas. A mãe não comeu clara nenhuma. A mãe bebeu água e chamou o gato da janela - o gato não veio. A mãe voltou para a cama e adormeceu. Que estranha esta sensação de que a vida da mãe se está a tornar no enredo de um livro de surrealismo sul-americano...





A mãe não está triste nem magoada em local algum do seu ser. A mãe só está exausta, estranhamente incompleta. A meio gás. E não sabe porquê.


Quadro: Katherine Fraser

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Carta aos meus filhos #12

Hey,

A mãe não consegue parar de pensar em vocês. Desde pequena que sempre falei de filhos, de ser mãe. Ocasionalmente tenho vagas mais intensas desse instinto. Neste momento berro-lhe várias vezes ao dia para que se cale. «Cala-te, relógio biológico!», digo-lhe. Estás bêbedo, já viste a idade do corpo pelo qual andas a soar alarmes? Vinte e três. A mãe tem vinte e três anos e ontem acompanhou uma amiga grávida a duas lojas de bebés. E foi a perdição: só não me dobrei e saí arrastada e em lágrimas, como na feira do livro de Lisboa, porque estava entre colegas de trabalho e há que fingir ser-se uma pessoa normal. Peguei num fatinho de bebé, creme às riscas (porque de súbito não me importa o género da criança nem o nome), e imaginei um bebezinho lá dentro. Sabem, quando estão tão gordinhos e encolhidos que, quando se pega na criança, as pernas esticam e a barriguinha e a fralda parece que fazem o fatinho encolher? E os ruídos de sono? As mãozinhas fechadas? As unhas minúsculas? Os olhos, que na realidade ainda mal vêem? E o cheiro do cocuruto, a calda de açúcar? E os pezinhos? E os banhos felizes? E quando, por desígnios incompreensíveis, um bebé sorri e o nosso coração dá piruetas de tão enternecido? E depois, tudo o resto? A mãe sente a vossa falta.
A mãe sempre soube, a par que o seu grande sonho é ser mãe, que é maluca. Talvez o grande sonho da mãe só seja ser mãe porque sabe que seria incapaz de vos chamar a um mundo tão vasto e tão obscuro sem garantias. A mãe sabe que, se for mãe, significa  que encontrou alguém especial, que tem um lar seguro, que protege e que é protegida. E o amanhã, nessas condições, não seria algo incerto. A mãe sabe que, para ser mãe, a sua vida tem de ser uma bênção de pequenas alegrias e circunstâncias felizes. E talvez vocês sejam só a pedra-chave desse arranjo harmonioso. Túlipas amarelas num jardim em construção.
A mãe está descansada. Receia sempre que se trate de uma calmaria antes de nova tempestade, mas está feliz e em paz. As cartas nem sequer me chamam; não há nada que queira saber ou que me inquiete. Os meus desejos repousam na Fontana di Trevi, numa moeda de libra, numa estrela cadente na Fonte da Telha - antes de ir para a Alemanha, a mãe sentou-se num telhado, junto à chaminé da vizinha, com a tia Cláudia. Vimos muitas estrelas cadentes nessa noite (afinal, era a noite delas!), mas a mãe disse-lhes que o seu desejo é um só e o mesmo de sempre, tendo já dado decerto entrada nos seus arquivos há muito tempo -, e por último foi colocado junto a nossa excelência, o Burro de bronze em Bremen. Acariciei-lhe o nariz e segurei-lhe as pernas junto aos cascos, como vi os outros fazerem. A mãe também se sentou em igrejas irlandesas, portuguesas, italianas e germânicas a expôr o mesmo pedido. Ultimamente, descobriu até que é mais cristã do que se julgava. Acreditar é uma virtude, e a mãe saiu da obscuridade da descrença para a aurora da compreensão e da fé.
Entretanto espero-vos aqui, numa Almada onde, em dias como hoje, o sol do entardecer incide sobre as pedras da calçada e causa uma cegueira e um banho de ouro dignos de um desvio de rota para serem admirados.


Hoje tive outro sonho estranho. A mãe e uma “amiga” desconhecida viviam numa casinha junto à praia. A mãe não gostava da “amiga” nem do pai dela, e sentia-se meio prisioneira deles. O que estranho é que era apaixonada pelo marido da amiga. Este rosto era conhecido, mas o contexto é inesperado. Quando ele cedia aos avanços da mãe, éramos surpreendidos numa situação menos própria. Digamos que nenhum de nós tinha muita roupa vestida. A “amiga” - a mãe não faz ideia de quem seja esta figura na sua vida - ia fazer queixa ao pai da minha traição. O marido sussurrava-me que deviamos fugir dali o quanto antes. Eu fazia a mala à pressa, ansiosa por fugir com ele e deixar tudo para trás. O pai dela vinha ter comigo e perguntava-me se era verdade que traíra a filha e a confiança dele sob aquele mesmo tecto. Eu dizia-lhe, sem hesitar, que eram coisas da cabeça da filha. Precisava era de ganhar tempo até fugir.

E é isto, acordei. O que me incomoda? A traição não me incomodava. Não tinha vergonha nem lamentava ter causado sofrimento. Muito bem, é um sonho, mas a mãe estava tão cega que se abandonava a uma coisa errada e nem pensava duas vezes. Ainda mentia na cara do pobre velhote que, como a filha era paranóica e a mãe muito mais confiável, acreditava, posicionando-se do meu lado. A mãe tem que ir descobrir que raio significa isto.



sábado, 14 de setembro de 2013

Carta aos meus filhos #11

Hoje foi um dia estranho (e triste),

A mãe tinha posto o despertador para as 06:00 da manhã, mas o mostrador vermelho que foi sempre consultando durante o sono – já de si agitado – fez-me saltar dos lençóis às 05:58. Enquanto tomava banho dei-me conta de que o alarme do telemóvel não tocou e já eram 06:20. Isso porque estava pré-programado para só tocar durante a semana e hoje era sábado. Ou seja, deu-se o primeiro acaso do dia: se não tivesse tanto medo de dormir sozinha nesta casa, e se dormisse um sono profundo e descansado, não teria visto as horas, o despertador não teria tocado e eu teria perdido o autocarro das 08:30 para Berlim.
Que fui eu fazer a Berlim? Ora bem, estando a 280 km da capital, a três horas de autocarro ou duas de comboio, considerei um desperdício não visitar o outrora coração do Reich III. A viagem foi longa, não podia cruzar as pernas que a circulação parava de imediato nem dormir confortavelmente. A somar a isso, assim que meti um pé no metro em Richtweg, entendi que me tinha esquecido dos phones em casa. E, nessa mesma manhã, sem vontade nenhuma de sair da cama para ir visitar Berlim, convenci-me que não podia morrer sem ouvir a Wind of Change junto a um pedaço do muro. Assim sendo, palpitou-me que o dia ia correr mal.
Não depus nenhuma expectativa em Berlim, guiava-me apenas uma certa suspeita de que não gostaria da cidade. Por isso, a capital estava livre para me impressionar pela positiva. Aconteceu o exacto oposto, e vi-a sob um sol de torreira que me queimou a cara e me fez arrotar 2,00€ por uma garrafinha de 0,5L de água e quase o mesmo valor por um muffin.
O autocarro deixou-me em Kaisercamm. Gravei o nome dessa estação de metro no braço e no inverso do bilhete de metro (2,60€, válido por duas horas). Desci em Potsdamer Platz e era suposto mudar de linha, mas aparentemente o dito cujo Brandenburg’s gate era logo ali. Caminhei ao longo de uma vasta avenida (tudo é grande, em Berlim), e passei por uma qualquer comemoração de uma comunidade italiana. Os italianos foram os meus amigos aqui da Alemanha, sem dúvida. Quando eu perguntava “fala inglês” e eles, tristes, respondiam “no, italiano”, eu deitava os braços ao céu e dizia “grazie a Dio”. Quando vislumbrei a tal porta da cidade – o símbolo de Berlim – fiquei decepcionada com o seu tamanho reduzido. Imaginava algo em grande, mas à luz das dimensões monumentais de Roma, pareceu-me tacanho. O facto de estar a haver um evento político – com direito a discursos em alemão e uma grande multidão apinhada – não ajudou a bloquear a minha mente para os acontecimentos da II Guerra Mundial. Imaginava o terceiro Reich a propor-se a conquistar a Europa a partir daquela pequena praça. Também a águia alemã – um símbolo retro muito à século XX, me perseguiu nalgumas esquinas.
Comprei um cachorro quente – sem batata palha, estes tipos nem sabem fazem cachorro quente! – e uma cerveja, para não repetir a inexperiência quanto à Guinness, que nunca cheguei a provar enquanto estivemos na Irlanda. O cachorro foi cinquenta cêntimos mais barato que a cerveja, e o destino desta última foi, após o primeiro golo, uma queda livre para a vala mais próxima sob o testemunho do Brandenburg’s gate. Pedi a um estranho que me tirasse lá uma foto – para vos mostrar, um dia, que a mãe era muito emancipada aos vinte e três anos – e prossegui viagem. A Catedral de Berlim não aparecia em canto algum e comecei a olhar ansiosa para as horas, isto porque tinha cinco horas para fazer o  city break mais stressante de sempre. Quando a Catedral finalmente apareceu, junto à ilha dos museus, pensei: ora finalmente cheguei à parte mais bonita da cidade, talvez ainda vá a tempo de redimir-se. Qual quê. Procurei ângulos para uma fotografia decente dos museus – nada, são enormes, mas de bonito pouco têm. Mega estruturas de inspiração neo-clássica que me parece até tosca quando comparadas com as italianas. Nem entrei na catedral, subi as escadas ao som do bramidos de uma cigana romena contra o filho (que estava de birra, como também me apetecia estar) e voltei a descê-las após espreitar para o interior.
Next stop, Alexanderplatz. Supostamente um dos hot spots da cidade. Estive nela sem poder acreditar que aquilo fosse a famada Alexander Platz. Cheirava a subúrbio, falta de sentido estético e sobrevalorização aguda. Uma coisa tão banal (mas grande, e eles classificam os monumentos como “a maior praça da Alemanha”), que já tinha prosseguido o meu caminho quando me obriguei a voltar atrás. Ninguém acreditaria em mim quando dissesse que a Alexanderplatz é um embuste. O que resta a Berlim se tudo me pareceu medíocre? Voltei atrás para tirar algumas fotografias que justificassem o meu exaspero. Nem tive de me esforçar por encontrar um mau ângulo – ângulos bons, não os há. A Canon gemia de frustração. Três horas de viagem prometiam qualquer coisa de grande.
Desisti do centro de Berlim e pensei que ainda me faltava ir à parte que realmente me interessava, o último ponto da viagem, a East Side Gallery. Quando desci da estação dei por mim num ermo facilmente comparável a um Fogueteiro, só que com uma mega estação no meio. Ao menos é feio mas é em grande. Já me tinham avisado que não se trata da zona mais bonita da cidade, mas depois de ter desgostado de tudo o resto, julguei que poria o pé fora do comboio, espreitaria para o exterior e apanharia o primeiro U-bahn back to Kaisercamm.
Como a sinaléctica é inexistente, quase me perdia durante mais um bocado até lá chegar. Não há quaisquer indicações em inglês, não há qualquer direcionamento para o turista. A língua não é propriamente fácil e não há assim tantos cidadãos a dominarem o inglês. A cada vez que uma palavra em germânico pautava as suas indicações, a receita para mais deambulações sem rumo estava encaminhada.
O muro tem um significado que teria gostado de percepcionar a ouvir a tal música dos Scorpions que mencionei. Contudo resumiu-se a uma longa caminhada junto a uma parede colorida com bonitas mensagens e ilustrações, lado a lado com uma cidade que mal podia esperar para deixar para trás e para fazer “check” na lista dos locais a conhecer. A Alexanderplatz surgia lá ao fundo (aquela torre que nem tive tempo de investigar a que se deve, posto que decidi numa tarde ir a Berlin e planear o que ver/fazer). Caminhei até ela. Penso que o percurso tenha durado de tinta a quarenta e cinco minutos. Isto porque não se conhece realmente uma cidade sem lhe termos impresso parte da sola de uns sapatos. Quando finalmente passei por um Photoautomaten, uma daquelas cabines de fotografia de rua que te devolve vários rostos e ângulos de ti próprio a preto e branco (o prometido), julguei que a cidade queria redirmir-se. Ia entrar e desembolsar 2,00€ de boa vontade quando reparei que… bem, como é que posso coloca-lo sem utilizar a asneira que me vem à mente? Já sei, utilizando a asneira. Merda. Merda humana a repousar comodamente no assento, rodeada dos insectos que a adoram e a afastar-me de vez de Berlim a sete pés.
Voltei para casa noutro inferno de três horas em que nem podia cruzar as pernas a perguntar-me se terá valido a pena. O dinheiro certamente valeu, porque paguei pouco mais de trinta euros por uma ida a Berlim, mas e o resto? O calor, os preços inflaccionados, a fealdade geral? 
Cheguei a Richtweg às 22:00. Sabia que me esperava outra noite de receios. A mãe nunca foi medricas mas, ultimamente, tem medo do escuro. Medo do escuro e doutras coisas que não sabe nomear. Aquela casa fazia barulho. Todas as casas fazem mas, num bloco vertical com quatro pisos e lanços de escadas em madeira, nem o alcatifado garantia silêncio absoluto. Primeiro houve a situação das tais vozes, tipo televisão ligada, que escolhi assumir que foi mesmo a televisão do vizinho a causar tal susto. Em seguida, à noite, mantinha-me estranhamente alerta, e eu até tenho facilidade em me abstrair. Há duas noites, quando estava mesmo, mesmo a cair no sono, mesmo com os dois pés a escorregar para o outro lado, ouvi um ruído na madeira das escadas. Suficiente alto para me acordar, relampejou-me na ideia a impressão de que um corpo transferia o peso dum último degrau de madeira para a alcatifa cá de cima. Por muito que precisasse de dormir, porque ia acordar cedíssimo, quem me convenceria a adormecer sob tais condições? Mantive a minha vigília enquanto pude. Não me lembro de adormecer. Além disto parece que a casa… respirava. Isto é, às vezes parece que estranhas massas de ar reequilibravam as energias no seu interior. Punha-me a olhar para um sítio fixo sem que daí adviesse nada, mas a minha percepção e a minha visão pareciam desencontradas. Ontem à noite a torneira da cozinha lembrou-se de pingar. Desci as escadas com à vontade, a fim de fechá-la melhor. A parede das escadas dá directamente para uma sala cheia de carpetes e mantas onde nunca cheguei a sentar-me. Tive de parar abruptamente porque me pareceu que algo se estava a mexer na sala ao lado. Algo respirava e ouvia-lhe, com o mexer dos lábios, o revoltear da saliva. Não estou louca, pensei. Todos os meus sentidos gritavam que estava ali alguém. Tinha de estar ali alguém. Sabem quando sentem alguém se aproximar das vossas costas? Olham sobre o ombro e é um amigo. Os meus sentidos diziam-me que estava lá alguém. Mas nada. Subi e encolhi-me num canto, já esquecida da torneira. Pouco depois reuni coragem suficiente para ir lá abaixo, com uma pequena faca em punho, inspeccionar. Atrás do cortinado parecia que havia um volume. Eu não me lembrava de como tinha deixado os enormes cortinados opacos que vão do tecto à alcatifa quando, nessa mesma tarde, me tinha ajoelhado nela para fazer as malas. Tive de suster a respiração e afastar os cortinados. Como dormiria eu se não verificasse? Nada. Mas aquele canto tinha ficado como que preso ao chão, então voltei a puxar os cortinados. Nada. Continuava a haver um volume estranho na forma como os mesmos se rearranjavam, e puxei uma terceira vez. Nada. Por último, sem puxar, olhei simplesmente lá para trás. Nada. E o receio eclipsou-se por um momento. Mas não por demasiado. A cada vez que a madeira das escadas estalava ficava em pânico. Desliguei o computador à pressa a fim de me fechar no quarto e tentar dormir um pouco. Duas das vizinhas ainda tinham as luzes acesas e isso passava-me algum conforto.
A mãe, como disse, nunca teve medo de coisa alguma. Só da solidão e da incompreensão. E agora tem medo do escuro e doutras coisas mais. Na realidade, nas últimas semanas sentiu por mais de uma vez que passou ao lado de uma grande desgraça. Na auto-estrada quase sentiu um anjo negro de asas distendidas a passar ao lado do carro. Ficou desconfortável e, uma vez mais, estranhamente alerta. Depois sucedeu qualquer coisa de mal. Em seguida uma senhora com intenções duvidosas ofereceu-se para cuidar da mãe em Hamburgo. Estava tão farta de procurar casa que aceitei as suas ajudas e quase me meti na boca do lobo. Depois em Berlim, senti-me constantemente ameaçada e pensava que uma viagem só termina bem quando pomos o pé em casa. A prudência foi como um manto sobre os meus ombros, a tal ponto me achei sortuda por não me ver desgraçada que já pensava que, se me levassem só a Canon, era justo.
E assim concluí que sou uma mulher muito abençoada, e senti-me religiosa. Tenho sido muito protegida, ultimamente mais do que nunca, por uma estrela anónima. Ainda assim, sinto qualquer coisa de negro a rondar, como uma sombra que me tolda os movimentos e me mantém constantemente em vigília.
E antes de me deitar ainda recebi uma notícia má que me pôs a pensar na vida, nas partidas, no que está para lá disso e na sorte tremenda que tenho tido. O destino continua a lançar os seus dados – e eu continuo no sítio aonde tenho que estar – porque marquei a viagem para casa a tempo de ir reencontrar a minha vida e abraçar quem precisa.
Para concluir Berlim e me deixar de assuntos que só suscitam dúvidas retóricas:
A experiência não foi das melhores, em parte porque também viajar sozinho é desafiante, mas não tão gratificante quanto julguei que fosse. Considerei a capital da Alemanha a cidade mais feia que visitei até hoje, e olhem que estive em Milão (cinzenta, superficial, sem espírito artístico), Dublin (industrial e plain) e Hamburgo (pouco homogénea, a mistura do antigo com o moderno não funciona bem). Bremen, em contrapartida, tem o encanto de uma fábula – e a mesma se insinua a cada esquina. Foi este pequeno cantinho que salvou, perante os meus olhos de curiosa, a Alemanha.
O Italiano da Sicília dizia, enquanto me prepara um spaghetti ai funghi, que os países do Norte têm dinheiro – as senhoras passeiam-se com saquinhos da Dior e malinhas da Louis Vuitton – mas não fazem ideia do que é a beleza e a alegria. A beleza não pode ser planeada, ou sai gorada. A beleza não pode ser aleatoriamente plantada no centro de uma praça, porque não depende apenas de uma fonte destaca-la. A Fontana di Trevi bem no meio da Alexanderplatz morreria. A Piazza Navona por entre a solidez obtusa daqueles monumentos sufocaria. A beleza está no espaço, mas o espaço é algo de amplo. A beleza está na musicalidade de uma língua, na compleição dos rostos que a cantam, nos gestos das gentes e nos modos das crianças.
A Berlim falta o senso estético da beleza. Da beleza que jorra em cada esquina de Lisboa, algo de tão complexo que é mais do que mera obra humana; é um conjunto de circunstâncias felizes. Aquele senhor, por acaso, decidiu construir uma casa naquela esquina que, por acaso, dá para nascente, e à sua disposição só tinha aquela pedra, que, por acaso, capta essa mesma luz de modo especial. A mulher estendeu nessa manhã, por caso, os lençóis coloridos da cama do filho de ambos e o padrão dos mesmos sobressai no amarelo da fachada. Sendo por acaso primavera, as sardinheiras acabaram de florir na varanda. Por acaso ao lado da sua casa ergue-se uma pequena igreja, por acaso o sino está a tocar quando vamos a passar. Por acaso há outras casas por entre as ruas casualmente sinuosas desse pequeno bairro e, quando por lá circulamos, têm as janelas todas abertas e toca uma voz melodiosa que fala dessa palavra tão portuguesa – a saudade. Por acaso mais adiante prepara-se o fogareiro para assar a sardinha e, logo além, as crianças gritam e pulam e enxotam os gatos vadios. Por sorte lá em cima há um miradouro e, depois de uma refeição inesquecível (e barata), onde não faltou um bom vinho, afastamo-nos do eléctrico para aceder à balaustrada e debruçamo-nos. E de lá vemos as andorinhas esvoaçar sobre a superfície espelhada do Tejo, mesmo porque entretanto é quase verão, e ao longe o cacilheiro. Os jacarandás explodem em lilás por toda a parte e a cantiga da cidade despede-se sem deixar de nos desejar um boa viagem, volte sempre.

E é por isso que a mãe voltou para o sítio ao qual pertence.

No fundo, sempre soube que o vosso pai não seria alemão.