segunda-feira, 5 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #30

A mãe está feliz. A mãe gosta de ter um plano, de ir a lojas de ferragens, a lojas de alguidares, a lojas de tinta. A mãe gosta de trazer catálogos de cores para casa e de percorrer lojas de tecidos e de sentir a textura de cada um deles nas pontas dos dedos. Amanhã a mãe vai comprar um bloco de desenho e lápis de cor, para fazer experiências de cores, ver os contrastes, decidir o que quer para si. A mãe não consegue passar um dia sem comprar uma vassoura (uma varinha mágica), um armário de casa de banho.
A mãe soube hoje que mais duas pessoas vão morar juntas, vão sair de casa. Somos novos, diria eu. Mas está na hora.
A mãe percorreu as ruas de Almada. Querem saber como era a Capitão Leitão em dois mil e catorze? Há uma loja de bombons, frutos secos avulso, rebuçados e outros produtos enfrascados, com um cheiro muito característico, com um balcão onde está uma senhora amorosa. Uma senhora tão doce que só poderia estar a vender bombons. Há uma loja de sapatos que faliu e cuja montra está coberta de poeira. Há uma loja de self-service que, noite afora, vende garrafas de água, chocolates e preservativos. Há uma antiga drogaria poeirenta com vernizes na montra, soda cáustica e tintas para cabelo. Há uma loja daquelas que tresandam a velas de alfazema, com iemanjás e budas na montra, leitura de auras e tarot anunciados na porta. Há uma papelaria outrora muito frequentada, agora outro recanto caído desta rua envelhecida. Há a velha loja de livros em segunda mão onde ia comprar os livros da Harlequin que partilhava com a minha avó, no tempo em que ela ainda lia; o senhor morreu e a loja está vazia e de grades enferrujadas. Há o cão amarelo de um senhor que está sempre a cuidar da horta, um nível acima da estrada, debruçado para a rua e de cauda a sacudir. Há a antiga oculista, onde fui uma vez comprar um parafuso para uns óculos, e tive desconto porque reconheci, no pescoço envelhecido da lojista, o aroma do Coco Mademoiselle que também eu uso. Há uma loja de móveis em segunda mão que ajuda toxicodependentes, e onde a mãe entrou à procura de alguma antiguidade que valesse a pena mas, tendo sido recebida por um sorriso de boca desdentada, voltou a sair de imediato. Há uma loja de electrodomésticos em segunda mão. Uma loja de electrónica em segunda mão. Uma churrascaria e uma igreja recentemente renovada.
A mãe percorreu a rua inteira, de sorriso no rosto, satisfeita por viver na cidade onde vive. Há uma pequena preocupação, um pequenino sussurro que tenta insinuar-se sem grande resultado... Será que sou merecedora de uma coisa maior? De uma coisa bonita? De alguém que apanhe aviões por mim? Para ver-me? Para registar uma das minhas observações menos inspiradas? De alguém que me ligue e nunca se esqueça de me perguntar se estou bem? De alguém que me entenda nos altos e nos baixos e goste de mim em todas essas circunstâncias? De alguém que repare na minha dupla barriga, que se ria disso e me faça rir também sem me pôr a chorar? Sem me diminuir? Sem me desprezar? Serei merecedora de um homem que venha e que fique... Pela vida toda? Serei um bom investimento?
A mãe não tem um nome para atribuir ao que sente, mas a mãe sente-se apaixonada. Dançam-me borboletas no estômago, sorrisos involuntários nos lábios, uma certa paz interior de quem está onde deveria estar. A mãe está apaixonada e só pode ser pela vida…

domingo, 4 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #29

A mãe está feliz. Confessa que a felicidade não é natural a cem por cento, mas, uma vez mais, fez o necessário para obtê-la.
A santíssima trindade portadora de alegria está reunida: a mamã já tem o gato, o gira-discos e os livros. Faltavam as paredes. Graças a uma série de ajudas, a mãe está a um passo de ter os chãos e os tectos. 
Sinto-me muito grande e muito forte. Tenho alguma dificuldade em entender a fluência da vida; os fossos intercalados com os cumes. Ainda há tão pouco tempo chorava um gato perdido, uma vida sem grandes perspectivas, uma solidão imposta, e agora saboreio o outro lado da moeda. Um outro animal para amar, a vida no lugar onde é suposto estar, a solidão orgulhosa e opcional de quem se rende às circunstâncias e não ao desespero.
A mãe tem um gira-discos. Talvez vocês conheçam a nossa parceria domingueira, enquanto engomo roupa. Talvez vos tenha gritado algumas vezes que tenham cuidado com a agulha, e mais ainda com os vinis. Nat King Cole, Scorpions, Queen e o “Red Red Wine” dos UB40. A mãe sabe que o projecto que abraçou vai limitar o número de viagens que poderá fazer, bem como reduzir um bocadinho a sua qualidade de vida de solteirona sem contas para pagar. Acabaram-se os shopping sprees nos saldos, acabaram-se os snacks caros para a gata, acabaram-se as loucuras de feira do livro. Agora terei de aprender a fazer cálculos.
Parece um sonho… um sonho bom. Um espaço. A minha música. As minhas cores. A minha existência expandida, impressa, duplicada, solidificada em algo de meu.
Estou um passo mais perto de vos receber. Estou onde deveria estar. Muito tranquila à espera do vosso pai. Ele será tão, tão especial… A mãe promete que só deixará o melhor pai do mundo entrar neste nosso ninho de paz.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Carta aos meus filhos #28

Meus queridos,

A mãe passou por várias dificuldades e teve vergonha de muitas situações ao longo da sua juventude. Mas a coisa que a envergonhava mais era não ter possibilidade de viajar. Por isso, a cada vez que a mãe larga amarras e vai conhecer um novo cantinho do mundo (da Europa, para ser precisa), é como se me saísse a lotaria. Nunca voltei igual de uma viagem, nem das mais pequenas, nem das repetidas. Já vos disse que um dos momentos em que me senti mais capaz e mais orgulhosa de mim mesma foi quando me vi sozinha na Alemanha a apanhar um comboio de Hamburgo para Bremen, não já? E em Hamburgo conheci emigrantes sicilianos e ficámos amigos. E em Bremen ia sendo atropelada por um ciclista brasileiro e ficámos amigos. E ainda em Bremen comi uma berliner ao lado de um cidadão da Algéria que me explicou os princípios do seu islamismo de modo que compreendi o seu lado humano e admirei o seu profundo respeito à sua religião (ou, digamos, filosofia de vida). As pessoas encontram-se a si mesmas nessas viagens. As almas, ansiosas por se conectar, por partilhar, por se elevar, por aprender e ensinar, entrelaçam-se por momentos. Estudam-se mutuamente, e dão-se ligações preciosas quando saímos de casa. Ligações fortalecidas pelo desconforto de não se ir dormir a casa nessa noite. É uma escolha; confiar. E, quando se confia, coisas maravilhosas sucedem. (Mais tarde alguém vos dirá que desconfiem, mas o meu papel é o de vos dizer que, sendo espertos mas crentes, a vida tende a sorrir-nos).
A mãe regressou a Dublin, a Roma e agora prepara-se para regressar a Paris. Contudo, nunca poderá regressar à Tenência.
Faz este ano dez anos – uma década -, quem sabe se não hoje mesmo, a catorze de Abril, que me sentei sob a alfarrobeira junto à eira a ouvir o Feels Like Home da Norah Jones. O CD tinha acabado de sair e a mãe punha-o a girar no seu discman da Sony. Estava-se em Abril, eu tinha recebido um casaco de lã grossa azul no Natal e usava-o para todo o lado. Tinha uma máquina analógica e tirei-me fotos – já haviam selfies naquela altura, pois sim – com campos de papoilas ao fundo. Tinha catorze anos e começava a perguntar-me tanta coisa…
Vocês não saberão o que é estar-se cingido às doze músicas de um CD. Não saberão o que é ter de se conhecer todas as faixas e o ter-se orgulho de saber o número da faixa tal. Com o tempo, o “Thinking about you” é do Feels Like Home deixará de fazer sentido. Agora um artista lança uma música que fica no ouvido, conhecemos essa e nenhuma outra. Não importa a carreira nem o talento, porque tudo é efémero e se resume a um sopro momentâneo de sorte.
A mãe dedicou este CD ao morcego caído aos meus pés, às seis da manhã, à saca de amêndoas que a amiga da tia me deu à porta de casa, por entre lajes vermelhas, cortinas de retalhos e vasos de barro. A mãe dedicou este CD aos exércitos de formigas que me subiam pelas pernas, como se eu fosse parte do tronco da árvore que habitavam. Dediquei este CD ao meu amor inocente, nunca concretizado, que combinava tão bem com aquela paisagem. Nunca fui tão feliz como fui ali, com tão pouco.

Bastava-me o sol da manhã, seguido das infusões de vinagre que me esfregavam nas costas à tarde, porque os dias solarengos me punham mole e eu dormia de manhã à noite. Bastava-me apanhar amêndoas metidas em casulos de resina. Bastava-me sentar-me sob as figueiras, estender as mãos e comer os figos maduros, em Setembro, sabendo que odiava figos e que jamais comeria outros que não aqueles, enquanto estava ainda molhada da ribeira. Bastava-me despir-me de tudo – despir-me, sim – e nadar, só eu, humana, e só a ribeira, estendida sobre a nascente fria que os meus pés afloravam. Bastava-me esconder-me sempre que ouvia um carro a descer a colina, mergulhar mais a fundo. Bastava-me estar por ali, desafiar-me a chegar à embarcação, devolver a achegã pescada ao rio, polvilhar um tomate com sal e acompanhá-lo de chouriças em pão alentejano, como se manjar algum igualasse aqueles lanches fluviais. Bastava-me estender-me no chão, tantas vezes o fiz, sentir-me parte da folhagem ressequida do final do verão, e depois acordar a meio da noite com formigas a dançar-me junto ao tímpano. Ou acordar, mal o sol despertara, pegar num caderno velho e percorrer alguns metros por entre as casinhas caiadas da aldeia até ao pontão de onde observava o nada. Um muro de suaves colinas e céu azul, dourado e azul, pois, como se para lá desse quadro nada mais houvesse. Nem maldade, nem guerras, nem poluição, nem telejornais histéricos, nem política, nem a Lady Gaga, nem a Nicki Minaj, nem pessoas que encarceram as filhas e as tornam suas amantes, nem pais que atiram as filhas de seis anos pela janela, nem mulheres que retalham os maridos e se livram do corpo deles em três trolleys.

Soa-vos aborrecido, não é? Que fariam vocês numa aldeia sem internet, sem rede telefónica, sem um café que funcionasse em horários habituais, pelo menos? Se a mãe pudesse pedir um desejo para vocês… sabem o que seria? Para além de saúde, desejo-vos senso de pertença. Ó, por favor. Sintam que pertencem ao mundo, que são parte dele, que quando o vento vos fustiga o rosto vos magoa, e que quando vocês cortam uma árvore a terra sangra. Por favor, sintam que são feitos de pó e que um dia ajudarão a adubar um jardim. Não se achem acima de coisa alguma, porque isso só vos trata insatisfação a vida inteira.

A mãe gostaria tanto de voltar a esses tempos… mas tudo o que encontraria seriam casas fechadas, telhados desabados, as fachadas outrora primorosamente caiadas estarão pejadas de lascas e os idosos foram recambiados para lares ou já estão no chamado jardim das tabuletas. Em breve a Tenência será um cemitério. Parece algo tão pequeno, uma ruína, um castro, uma povoação romana, uma Chernobyl privada de animação, de vida, de juventude… Alguém algum dia sonhará que lhe dediquei o Feels like Home? Because it really felt like home.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Carta aos meus filhos #27

A mãe mudou muito nos últimos dois meses.
Em primeiro lugar, tem uma gatinha nova. Chama-se Joséphine, faz hoje uma semana e um dia que está connosco e já começou a dar retorno. Trouxe felicidade, preocupação colectiva, risos, piadas, pescoços esticados para a ver, costas curvadas para que possamos espreitá-la por debaixo da mesa. Um gato traz sorte e é algo de místico. A vossa bisavó Norvinda pega nela ao colo, acaricia-a, dá-lhe biscoitos para gato e lamuria-se com um riso num canto dos lábios. Diz que até o gato tem dinheiro a guloseimas e ela não. Então, a mãe comprou-lhe um chocolate de leite da Nestlé; primeiro porque a placa da avó não lhe permite comer chocolates com frutos secos, segundo porque o bisavô Américo trabalhou na fábrica da Nestlé durante muitos anos e levou muitos destes para casa.
Tudo isto por causa da Joséphine. A mãe pensava que a sua relação com a bisavó estava desgastada, a verdade é que a bisavó me julgava de ferro e achou-me incapaz de vergar. Mas a mãe vergou de tal modo que chegou a valer-se dos cotovelos para manter a cara longe do chão. Assim sendo, a bisavó cuidou de mim, abraçou-me, protegeu-me, desejou-me o melhor. E é sincero, e por isso aceitou a Joséphine e deixa-a dormir-lhe no colo enquanto assiste televisão na cama. Por isso, desta vez, não houve discussões e o dia 24 de Março, quando a Josie chegou, foi um dia feliz. Se temos medo de amar? Oh, temos todos, sim. Estamos todos feridos pelo desaparecimento do Napoleão. Mas, enquanto nos prostássemos a um canto, uma belezinha como a Jo ficaria sem família, sem tecto numa noite de temporal como ontem. E assim descança as orelhinhas numa almofada de veludo e dorme numa mantinha de bebé dentro da alcofa que lhe comprei. Praticar um luto eterno para quê? A mãe tem mais medo de amar do que de ser odiada. Dói tanto ver-se o objecto do nosso amor estilhaçado pelas circunstâncias...
O avô Jorge, de quem a mãe tem tão poucas boas coisas a dizer, merece aqui uma menção pela positiva. Fez uma caminha para a Joséphine, recortando-lhe um rectângulo num cesto muito antigo que a mãe trouxe da Tenência. Filhos, em 2002 a mãe sentou-se nas ruas de uma pequena aldeia algarvia, rodeada de senhores que não sabiam ler e que teciam poemas de memória, e admirou a agilidade das suas mãos que entrelaçavam cestos. Esse cesto foi agora tornado num pequeno palácio para a minha princesa. Chama-lhe "porta-chaves", o que é a coisa mais carinhosa que o ouvi chamar a um animal. Às vezes finge que tem alguma coisa para fazer no meu quarto só para vir vê-la, incapaz de resistir ao impulso de estender a mão e acariciá-la.
A mãe passou por uma fase muito má e viu com quem pode contar. De repente, nem tudo era negro. Há muita gente que se preocupa comigo e devo retribuí-lo sendo o mais feliz possível.
A mãe voltou a acreditar que vocês venham um dia cair nos meus braços, e … surpreendam-se! A mãe sempre se achou uma durona, mas perante os olhos dilatados do Napoleão e a barriguinha em alvoroço da Josie, a mamã mal consegue dormir de preocupação. Pega neles e telefona para os veterinários de Almada, corre para lá. Torna-se a crazy cat lady que, no fundo, é só uma mulher protectora a lutar pelo bem-estar dos seus protegidos. Mal consigo ignorar-lhes os gemidos por atenção, por colo, por carinho. E se a mãe se tiver tornado assim com vocês também? Se for a galinha superprotectora que sempre esperei não ser?
A Joséphine escala para o meu colo e estende-se de costas sobre o meu braço enquanto almoço, expondo a barriguinha colorida. Tem-na gordinha e saudável e a mãe sente-se satisfeita por saber que lhe comprou a comida e os biscoitos que a fazem tão roliça e feliz. A mãe está tranquila por saber que ao primeiro sinal de alarme tem meios de a proteger de tanta coisa… Embora nunca de tudo. Ao vê-la estendida, exposta às minhas mãos, sendo que apenas uma, se mal intencionada, poderia causar-lhe tanto mal... significa o mundo para mim (it means the world to me faz mais sentido). A mãe quer animar outras existências, saber-se capaz de salvar alguém.
Sinto que posso, finalmente, voltar a escrever. Voltar a concentrar-me no meu trabalho, nos meus amigos e naquilo que me dá prazer. 
A chuva já não me traz melancolias, empurra-me adiante. A mãe, por fim, está em paz e aprendeu a esperar.
A mãe tem um lindo plano de futuro e até já comprou uma varinha mágica.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Carta aos meus filhos #26


A mãe viveu hoje aquele que, decerto, estará entre os dias mais complexos da sua vida. Não bastando ter acordado às quatro da manhã para um voo às sete e vinte, apanhou o metro e depois o barco para Lisboa. O metro comeu-lhe um euro e não emitiu o bilhete. Nesse momento permiti-me sorrir, “quero lá saber”, pensei. Um euro na altura não era muito – era menos do que o bilhete do metro, era o equivalente a uma barrinha de chocolate individual. Mal sabia que era o primeiro duma série de azares.
Chegada a Cacilhas, observo a corrente do Tejo. Sim, tendo trabalhado onze meses em Lisboa e tirado uma Licenciatura de três anos no Estoril que implicou várias travessias de cacilheiro no rio, a mãe nunca tinha visto o rio com corrente. Não era uma breve agitação, era um apressar-se para a foz. O Tejo, o enorme Tejo a correr.
Levantei dinheiro suficiente no terminal para me safar, contidamente, nos dois dias que vou permanecer na capital da República da Irlanda, onde estive pela primeira vez em Setembro de 2012. Pedacinho de sorte número um – e crucial.
Em Lisboa apanhou um táxi no Cais até ao aeroporto, sempre preocupada com o horário do voo, isto porque às cinco da manhã estava a receber e-mails da Lufthansa a respeito de alterações no dito cujo. A mãe tinha vindo na noite anterior de Madrid (mas sobre isso falarei noutra altura, porque foi a antítese perfeita desta experiência inolvidável), por esse motivo não sabia que havia uma tempestade por estas bandas a fazer das suas. Ventos fortes, chuvadas e objectos a voar. Não chegou a ter tempo de ficar preocupada com o voo, mesmo porque sempre gozou de grande sorte, custava-lhe a crer que esta pudesse acabar assim de repente. E, olhando em retrospectiva para o decorrer deste doze do dois de dois mil e catorze, tive muita sorte em vários troços do percurso.
Com o voo atrasado trinta minutos, observo a chuva pela janela do avião e pergunto-me que mais me aguardaria nesta quarta-feira. Mal eu sabia.
A travessia até Frankfurt decorreu sem qualquer sobressalto, dormi o caminho todo e, tirando a omelete embebida em natas e óleo que me serviram, nada me embrulhou o estômago durante a viagem. À parte de uma criancinha que não chorava – uivava -, nada causou qualquer incómodo nas cerca de três horas que durou a viagem.
Quando Frankfurt surgiu sob as nuvens, revelou-se um centro industrial à beira de um pequeno rio e bastante próximo do aeroporto onde aterrámos. Havia algumas nuvens, mas estava sol. Pensei que, se a Alemanha estava abonada de tão bom tempo, então até Dublin haveria de correr tudo bem.
Aterrámos com uma hora de atraso e os passageiros que iam embarcar para Washington e Moscovo foram rapidamente escoltados aos seus voos. Eu tive de atravessar o aeroporto inteiro acompanhada de uma russa que só falava português e que era, nada mais nada menos, do que a mãe da criancinha que dera o espectáculo lírico durante o voo. Vi o aeroporto inteiro, das salsichas a fritar aos pretzels e à falta de wi-fi gratuito, e por uma vez decidi ligar os dados móveis fora de Portugal. Burrice número um. Tal apenas serviu para descobrir um saldo (negativamente) suspeito na minha conta, associado a umas certas transferências/levantamentos para um tal de Deutsche Bank. Estando eu na Deutschland, nem me ocorreu que ainda no dia anterior recorrera a essa caixa em Madrid. Alertei umas quantas pessoas (burrice número dois) e fiquei eu própria em pânico conforme julgava que me tinham clonado o cartão ou acedido à área de clientes online. Como é que me iria safar por dois dias em Dublin se cancelasse o cartão?! Num impulso algo tosco, apaguei a aplicação do banco do telemóvel. Burrice número três, embora inofensiva. Fiz contas mentais ao dinheiro que levantara e congratulei-me por assim haver feito. Eu nunca ando com grandes somas de dinheiro, mas nessa manhã deu-me para isso.
Após resolver o mistério (já sem dados móveis para poder acalmar as pessoas que havia preocupado – burrice número quatro foi ter deixado mil e uma páginas da internet ligadas sem precisão, o que esgotou o tráfego todo que tinha disponível), deixei-me absorver pela culpa. Sim, és tu que gastas o dinheiro mal gasto. E, posto isto, vêm-me todas as amarguras de que me queixo e, sentada por entre japoneses, irlandeses, ingleses e sul americanos de língua espanhola, ponho-me com pensamentos lúgubres e penso que fazia melhor em desaparecer (burrice número cinco). Mergulho nisso por um bocado, com o livro que andava a ler nas mãos. Dando-me conta de que tenho os olhos marejados, penso que posso incriminar o livro pela minha emotividade.
Quando finalmente chego ao meu portão de embarque para Dublin, sou obrigada a passar pelo controlo de passaportes. Viro-me para um gigante loiro e digo que não tenho passaporte, que já estive la Irlanda e que como cidadã europeia sei bem que não preciso de passaporte para lá entrar. Ele olha para mim do alto dos seus (pelo menos) dois metros e ri-se. Garante-me que é preciso passaporte. Garanto-lhe que não é. Garante-me que sim, porque a Irlanda não faz parte do espaço Schengen. Garanto-lhe que já lá estive e que não tinha passaporte. Garante-me que estou errada porque é irlandês, é de Dublin e vai lá cinco vezes por ano e sempre mostra a identificação. Quase me viro e levanto o cabelo “Veja, veja o trevo que tatuei no pescoço porque fui a Dublin mesmo sem passaporte!” Não tenho ao menos um cartão de identidade? Burrice número seis – envolver-me numa discussão perante todo o aeroporto com um irlandês que no final se põe a rir e me pergunta como cheguei ali sem cartão de identidade. E digo-lhe que lhe perguntei se tinha de mostrar o passaporte, e que era isso que estávamos a discutir. O bureau não diz ID control, diz Passport control, e era isso que falávamos. Ele volta a rir-se, bem disposto, porque se calhar não dormiu só quatro horas como eu, e diz-me que dê vinte euros ao controlador que ele deixa-me passar. Nesse momento percebo que estava a brincar, rio-me mas é tarde de mais. Já toda a gente tem os olhos postos em mim, e deixo-me corar perante todos. Já sou a cabra arrogante e irritadiça, e se os hindus, iranianos e japoneses perceberam do que falei, devem ter-me achado mais cabra irritadiça ainda. Eu tinha razão e ninguém sabia!
Na sala de espera começo a debitar no portátil pequenos textos sobre o que cada uma das pessoas que conheço pensaria se recebesse a notícia da minha morte. Faço-o intercalado com a leitura do tal livro que adiante voltarei a mencionar. Fecho o computador e embarco noutro avião da Lufthansa, rodeada de pessoas que apenas falam alemão e de um piloto que, finalmente, se faz entender quando passa informações em inglês.
Já estamos no ar, e eu cada vez mais entusiasmada com o livro, e eles a debitar as regras de segurança, e eu a querer saber se o Nick matou mesmo a Amy, se a Amy está mesmo a tramar o Nick, quando oiço dizer que o voo tem a duração de duas horas. Não sei porque tinha metido na cabeça que era só uma hora. Nunca mais chego ao destino (pensei, precedendo o pensamento com uma asneirola daquelas). Afinal o porco do Nick tem uma amante? E a Amy que era a esposa ideal! Então, já no ar, oiço o piloto dizer que o tempo está mau em Dublin e é provável que o voo seja “atribulado”.
Podia bem ter dito antes de embarcar.
O voo correu sem sobressaltos de maior, li mais cento e cinquenta páginas do livro. Passamos Amesterdão, diz o piloto, tudo OK. Passamos Inglaterra, informa o piloto, tudo OK. Estamos no mar da Irlanda, diz o piloto, e há sol, poucas nuvens e está tudo OK. Estamos a chegar à Irlanda, diz o piloto. E, de repente começa aparecer o mar lá em baixo, muuuuuuuito lá em baixo e muuuuuuito sarapintado de ondulação. O piloto anuncia que a aterragem (a ser bem sucedida) vai ser complicada. Preparem-se para a turbulência. OK, não me assusto com pouco e ainda há poucas horas, descolando de uma Frankfurt iluminada pelo sol, pensei que não tenho medo de alturas.
Volto a olhar o mar lá em baixo; muito escuro mesmo de dia, e de repente estou a absorver este trecho no livro que estou a ler:
“Podia acontecer – era possível, pouco provável, mas havia precedentes – o rio levar o meu corpo até ao oceano. Até senti pena de mim própria, ao imaginar o meu corpo elegante, nu e pálido, a flutuar por baixo da corrente, com uma colónia de caracóis agarrada a uma perna nua, as mechas de cabelo atrás de mim como algas, até ao fundo, a carne saturada de água a saltar em tiras macias, e eu a desaparecer na corrente como uma aguarela até só restarem os ossos”.
Erro número sete: não ter fechado o livro de imediato. Continuei a ler para me abstrair do vento que fustigava as asas do avião. Ao meu lado, um alemão entroncado também continuava a ler um jornal na sua língua, de cabeça enterrada nas letras porque as mesmas fugiam a cada sacudidela do avião, que parecia ser chicoteado aqui e ali por mãos invisíveis. Mas eu já tinha aterrado na Irlanda, sabia que a qualquer momento surgiria a costa. Se lá em cima o avião estava mais ou menos estável, que mal poderia advir do solo? E o piloto diz que há massas de vento a redemoinhar junto à terra, e eu penso "OK, animador". Então vejo terra, finalmente. Já há muito que passámos o mar revoltoso e nos embrenhamos num nevoeiro de nuvens cerradas. Os assobios do vento e das asas do aparelho a cortá-lo não é muito agradável, mas não é suficiente para causar pânico.
Mas então, ao ver como o avião é sacudido ao descer dessas nuvens, o piloto anuncia que vai tentar uma aterragem arriscada, porque tem receio da querosene que temos a bordo. Anuncia-o primeiro em alemão, e eu só lhe entendo a hesitação na voz. Depois di-lo em inglês, e ouvir “querosene” da boca de um piloto que detém a nossa vida nas mãos não é lá muito agradável. Diz que, se se vir impossibilitado, vamos dar uma volta. Vamos dar uma volta e logo vemos se as condições mudam, se o ângulo de aproximação à pista facilita a aterragem. Penso para mim “Cork, sigam para Cork. Querosene é combustível? Sei lá eu o que é combustível. Se temos muito combustível sigamos para Cork, que é no interior e que há-de estar calmo”. Mas querosene cheira-me a queimado e sou engolida por imagens de todos nós a arder. Penso nos meus pertences, e, de repente, penso no conteúdo dos meus pensamentos no computador. Como é que o meu avô reagiria à notícia da minha morte? E sinto que A chamei.
O piloto conduz-nos para a pista mas então, sem qualquer aviso, muda de ideias  e sobe a pique. Diz que não dá, que vamos ver. Enterra-nos de novo no nevoeiro espesso e esbranquiçado onde o aparelho não parece submetido a qualquer pressão. Devemos ter descrito uma curva, mas fê-lo durante tanto tempo, e de modo tão suave, que li mais umas dezenas de páginas, esquecida de que as minhas mãos suavam, as minhas axilas suavam, o meu lábio superior suava. E a chuva que humidificava as janelas, dado o calor da respiração colectivamente pesada no interior do avião, tinha o tom das tempestades tropicais. 
Estávamos todos encalorados, todos concentrados nos seus livros e nas suas revistas – e sei mesmo o conteúdo de todas as páginas que li, por entre reflexões acerca de morrer em paz. 
Não vai custar nada, pensei. Não pensaste nisso à tarde? Sim, ripostava a mim mesma, mas não é suposto levar ninguém comigo. Quanto mais um avião cheio de gente. Chamei-nos a Morte, pensei. E depois pensei que sou é insignificante perante a natureza. Eu e todos os outros humanos ali presentes. Somos todos impotentes. E de repente cheirou mal, como se alguém tivesse tanto medo que o tivesse despejado para as calças, e senti pena de nós. Mais por sermos só isto – frágeis, medrosos, mais animalescos que humanos perante uma ameaça – do que por podermos não chegar a terra com vida. Podíamos ter colapsado no mar (e penso que descrevemos um círculo sobre Dublin porque de repente lá estava ele, de novo a agitar-se sobre si próprio) ou podíamos ter chegado a terra aos solavancos e a querosene, que me cheira a inflamável, ter-nos carbonizado sob a chuva.
O piloto disse que ia tentar uma nova aterragem. Se não conseguisse fazê-lo com segurança, seguiríamos para Belfast. Pediu-nos perdão mas vários outros aviões já haviam sido desviados para Belfast. Belfast – a capital doutro estado. Então era grave. Então era melhor pensar na minha vida.
E da minha vida poucos flashes houveram, confesso. Há muitas pessoas que nem me afloraram à mente, e outras que lamentei não haver recordado do quanto as amo. Outras que amo e a quem nunca havia dito que amo. E as minhas irmãs, as minhas brilhantes irmãs. O buraco que eu poderia trazer para as suas vidas. 
E escrevi. E estudei. E fui, à minha maneira, feliz. Então pensei nele, e entendi que só havia uma coisa por fazer da qual me arrependia. Só uma coisa para a qual não havia despendido tempo. De resto, dos meus nervosismos e achaques, resultaram todos os tipos de declarações honestas – de amor ou inimizade, e descrevi-me bem enquanto vivi. Há muita gente que me conhece, que me entende. Pouco ficaria por dizer. Só isso me apertou o peito e me ardeu na garganta e prometi-me, solenemente, que o faria quando aterrasse. 
Iria morrer sem ter entendido o verdadeiro significado da minha vida? Perguntei-me que sentido teria (eu) feito assim, com um final em aberto, um dilema por resolver, nenhum futuro vislumbrado ainda. Terminar assim, porquê? Que enredo seria este que não entendi? Iria morrer enquanto lia um livro chamado Gone Girl? Iria morrer tendo mantido um blogue onde escrevia cartas a filhos que a tragédia me impediria de ter? No mesmo dia em que me vi tão sem esperança que concluí de facto que é pouco provável que a vida mos dê e que é mais improvável ainda que eu soubesse o que fazer com eles? Seria a ironia o género desta obra de ficção?
Conforme o avião enfrentava a pressão dos ventos e as asas pareciam papel ao seu sabor, pensei para mim que o melhor era irmos para Belfast. Vamos para Belfast, vamos para Belfast. E pensava também, uma vez mais, que não me assusto com pouco, mas que por fim o silêncio tomara o avião e todos tinham os seus países e os seus entes queridos em mente.
Aterrámos em Dublin, sim. Num aeroporto deserto tanto por fora quanto por dentro. Só quando o avião se imobilizou de todo é que o piloto, já depois de pedir perdão por termos aterrado com uma hora de atraso, admitiu em inglês que nunca se sentiu mais satisfeito com uma aterragem. Pedacinho de sorte número dois.
O meu lugar era a meio do avião, mas tive de encaixar a mala num compartimento lá atrás devido ao mesmo estar lotado, pelo que me pus de pé a fitar o fundo do corredor, e assisti a uma marcha de pessoas pálidas e em suspiros e de olhos inchados que quase partilharam um triste fado comigo. Sorrimos uns aos outros – sorri aos japoneses e eles sorriram-me, sorri aos irlandeses, ao indiano, aos alemães, à rapariga irlandesa de cabelo tingido de preto que me se oferecera para me ajudar a erguer a mala para o compartimento. Estava, também ela, apática. Juro que vi vermelhidões nos olhos de um homem asiático. Nos olhos de cada um uma história de sobrevivência, uma nova vida. Os dedos dedilhavam furiosamente no telemóvel, e se calhar perguntavam-se, tal como eu, se a torre de vigia do aeroporto consideraria que houvera de facto perigo de nos perdermos. Se sairíamos nas notícias, se o nosso piloto era um herói, se as nossas vidas haviam sido salvas.
E de repente estava enjoada e queria vomitar. As mãos tremiam e a força falhava-me.
Renasci.
Das nuvens, das cinzas… renasci.
E cumpri a minha promessa.
Seja o que o universo quiser quanto a isso.

Mas o dia ainda não acabara, e como tal, o autocarro para o centro que passa de quinze em quinze minutos acabara de passar. Azar número 1028. Então perguntei a um táxi quanto seria até ao centro, visto que tenho os trocos contados, e ele deu-me um valor bastante razoável. Choveu e esteve trânsito durante todo o caminho até ao hotel. O senhor deixou-me num cruzamento à chuva e ao vento e disse-me que fosse para a esquerda, a rua era de sentido único e ele não poderia aventurar-se nela. Assim fiz, com o rosto fustigado por um vento tão forte que as lágrimas me caiam pelos olhos sem que eu pudesse controlá-lo. Acontece que o hotel era na direcção oposta dessa rua. Azar número 1029.
Lá dei com a entrada, fiz check-in e recebi a password do wireless, que funciona mais ou menos. Para sentir que voltei à minha vida de pequenas sortes, o barman é português, a sopa é a melhor que já comi e congratulei-me com um cheesecake de Baileys. Num dia como hoje, que mais poderia voltar a fazer-me sentir inteira?
Ah... está um frio de rachar e o hotel não tem secador de cabelo.
Ah... mas tem uma chaleira e já tinha saudades de chá com leite.
Ah... parti uma unha, a que uso para coçar o nariz.
Ah... ouvi a voz dele.
Ah... esqueci-me de trazer cuecas.
Vou ter de lavar e secar as mesmas na tábua de engomar, good old irish way.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carta aos meus filhos #25



Cresci com acesso à terra. [Nas férias, ia mesmo para a terra. A terra. Ir para a terra. A terrinha da avó.] Cresci de joelhos na lama, cheguei a tombar sobre roseiras e a emergir dos seus ramos com as pernas crivadas de espinhos. Cresci debruçada sobre formigueiros. Cresci a suster a respiração para segurar urtigas entre o indicador e o polegar. Cresci a colher jarros-de-leite. Cresci a descobrir ninhadas de gatinhos abandonados, que depois acolhia e vingavam ou pereciam. Cresci a pular muros. Cresci a contemplar as rosas brancas bravas. Cresci a regar as couves do canteiro. Cresci a colher folhas de lúcia-lima para o chá da avó. Cresci a misturar detritos de tijolos com água e a chamar-lhes “colorau”. Cresci a acender fogueiras no quintal e a fazer sopa nelas; arruinava os tachos e os ingredientes surripiados da dispensa. Cresci a desarrumar o quintal todo e a fazer casas para as bonecas com as pilhas de cassetes que já ninguém via. Cresci a caminhar pé ante pé sobre os telhados das vizinhas. Cresci a mexer em carochas. Cresci a apanhar joaninhas e a depositá-las no meu vasinho de sardinheiras. Cresci com um cágado, pombos, peixes, coelhos, duas gerações de hamsters, galinhas anãs, uma tartaruga, gatos e, de vez em quando, até alguns cães se hospedavam no nosso quintal durante algum tempo. Cresci a admirar o movimento lânguido dos bichinhos da seda na caixinha dos sapatos. Cresci a jogar ao berlinde com bichinhos de conta. Por causa do Balu do Livro da Selva, cresci a passar a língua em degraus e sei até que as formigas são picantes. Cresci com a avó a seguir-me com a água oxigenada para evitar que voltasse a aleijar-me antes mesmo de cuidar do rasgão que acabava de abrir nos cotovelos. Cresci a marcar o corpo com cicatrizes; cada uma reconta um episódio de audácia mal calculada. Cresci a descer a minha rua de skate e a rasgar as mãos no alcatrão. Cresci a ouvir a expressão “Maria-rapaz” a cada meia hora. Cresci a dividir o escasso espaço da bicicleta com o meu irmão, e a implorar-lhe que não fizesse cavalinhos quando eu tinha o queixo sobre o guiador. Cresci a pendurar-me nos tubos suspensos do telhado de chapa do quintal, qual macaco a balançar num galho, e a ouvir os gritos da avó à distância.  [Na terra da avó corria a Rua Direita, pavimentada a granito, descalça, e poucas sensações se comparam à pedra morna, a meio da tarde, sob a planta do pé. A avó guinchava, da janela lateral da casa, que toda a gente ia pensar que não tínhamos dinheiro para sapatos. Volta aqui Célia, ó Célia estás surda??? Volta aqui! Nunca mais te trago.]. Cresci de pés no chão e quase sem fôlego, num recanto do mundo onde a natureza ainda se imiscuía com facilidade. É tudo o que desejo para vocês.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Carta aos meus filhos #24



Como vou encontrar o caminho de volta a mim mesma? Não sei quando saí, nem há quanto tempo tenho estado fora. Não sei ao certo onde estou nem que estrada me trouxe aqui. Não tenho qualquer ideia do que fazer para recuperar o trilho que tinha, tão firme, sob os meus pés.
Meus queridos, a mãe supõe que seja habitual sentirmo-nos perdidos. Contudo, foram raras as vezes que não soube quem era nem o que estava a fazer. Uma conjugação de factores soprou-me para a berma do carreiro e agora, por entre os musgos e as silvas, sinto que rastejo.
Só sei que sou uma casa vazia, e os pensamentos ecoam nas minhas paredes e reviram-se nos meus tectos. Como um ciclo que me adoça os lábios e me tinge as noites. Por muito vazio que o espaço esteja, há uma espécie de humidade que se prende às paredes; medo. A mãe tem medo. Primeiro tinha medo de perder o elo de fragilidade por quem era responsável. Depois esse pesadelo tornou-se real e o gato desapareceu, levando grande parte do misticismo e do conforto do meu quotidiano. Em seguida tinha medo da distância. E a distância interpôs-se. Quando comecei a viver, a distância duplicou, até atingir a dimensão de oceanos. Duas pessoas como dois lagos de água tépida, de pés no cimo de duas montanhas.
A mãe passa os dias de olhos postos no horizonte. Os mesmos ardem e o futuro não se deixa vislumbrar. A mãe encolhe-se um pouco mais no escuro. Foi desprovida de quase tudo. Tudo aquilo que parece oferenda, milagre, tem para a vida o mero propósito de poder voltar a despojar-me de algo que me aqueça.