segunda-feira, 12 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #33

Filhos,

Criar-vos é bem mais difícil do que parece. Bem dizem que só quem os tem dá valor ao difícil que é. A mãe ainda não tem filhos, mas criar as irmãs tem sido bem mais amargo do que recompensador. Apesar dos inúmeros momentos bonitos, e daquilo que a mãe vai fazendo com q.b. de sacrifício e q.b. de gosto, há sempre algo que falha. Um quê de ingratidão vs será que fiz mesmo as coisas mal feitas?
Hoje a tia Cláudia disse, no calor do momento, uma coisa muito, muuuuito feia à bisavó. Como tanto eu como a bisavó estávamos a discutir com ela, fiquei com a impressão de que o dissera para mim. Voltei para trás e perguntei-lhe, com a voz fria de incredibilidade, se era para mim a sugestão. Ela disse que não, que era para a avó, o que de repente tornou tudo pior aos meus olhos, mas melhor para a Cláudia. Porque se fosse para mim, eu teria de me defender e ela não ia gostar. Sendo para a avó, fiquei furiosa mas deixei que a avó exigisse respeito por si. Em simultâneo, ela entendeu logo que dissera algo muito grave e recuou, pediu desculpas à avó sem que ninguém lho pedisse. Contudo, cinco minutos depois estavam as duas contra mim. A tia Cláudia e a tia Ana, esclareço.
A Cláudia lembrou-se de dizer que eu lhe batia quando ela era pequena, diz que lhe dava bofetadas. Só me recordo de uma bofetada, mas recordo-me que ela a mereceu. Disse à Cláudia que quando ela nasceu eu era pequena e ainda assim assumi muitas vezes o papel de sua educadora, por demissão voluntária dos pais nesse cargo. Mas ela diz que eu teria catorze ou quinze anos, idade que de facto teria, e lhe batia.
A Ana achou que era boa hora para dizer que também se lembra de eu lhe bater. Lembro-me bem de todas as vezes que dei palmadas nas palmas da mão da tia Ana e das vezes que lhe pedi que se virasse para lhe aplicar a colher de pau nas nádegas. Nunca fui bruta, nunca tive o objectivo de a magoar. Talvez quisesse vexá-la um bocadinho, para que o espírito se lhe vergasse e fugisse do que estava errado. Uma vez não queria comer. Outra vez bateu na avó com a colher de pau. Outra vez atirou comida ao chão. Outra vez fechou os punhos e bateu-me nos joelhos, julgando tratar-se da Cláudia. Mas era eu, e não poderia deixar passar em branco.
Nunca tirei qualquer prazer desses episódios educativos, nunca as vi magoadas por causa de mim. Vi-as sim a comer o peixe até ao fim e a ter respeito (ou medo, como queiram) a alguém que só tinha de abrir-lhes os olhos.

Quando a tia Ana nasceu, eu fui a primeira pessoa que lhe deu biberão. Discuti com a enfermeira para que lhe trouxesse mais um quando ela sorveu o primeiro com sofreguidão. Mudei-lhe fraldas. Noite dentro, quando ela chorava e a mãe não ouvia, era eu que ia ajeitá-la no berço, repor-lhe a chucha. Sujámo-nos as duas quando lhe dei a primeira papa. Na fotografia que partilhei delas ontem, reconheço que a roupa que trazem vestida foi por mim escolhida e paga. 
E de repente estão as duas de lágrimas nos olhos e voz quebrada a acusar-me de as espancar.
Eu bem dizia que era a única pessoa que se interpunha entre elas, que se julgavam princesas, que eram tratadas como princesas, e o grande mundo que espera por abocanhá-las. Quis que soubessem que há limites, que há barreiras, que nem todas as portas estarão abertas, que nem tudo é aceitável. Mas tenho feito tanto pelas tias, e temos tido momentos tão bonitos… e faço-lhes a vida tão mais fácil do que a que eu própria tive, também com sovas mas indiscriminadas e que me souberam a injustas, que não entendo.
Não entendo nem sei lidar com ingratidão. A mãe pode perdoar muita coisa, mas custa-lhe a engolir que não se reconheça quem nos faz bem.
As duas deram-me as costas e foram-se embora. A mãe ficou aqui sozinha a perguntar-se se realmente foi má, se de facto foi cruel. Mas para isso teria de ter tirado algum prazer perverso das lágrimas delas, e nunca tirei, pois não?
Ainda assim, a tia Cláudia disse uma coisa feia hoje. E a mãe pensa que, se não fossem metade das “crueldades” a que a submeti, ela nunca teria voltado atrás de livre vontade para pedir perdão à avó. Por isso… Ainda que me custe ter sido sempre a má da fita, alguma coisa certa devo ter feito.

E terei de viver apenas disso, até que talvez um dia elas entendam.

domingo, 11 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #32

Meus príncipes,

A mãe não anda muito bem ultimamente. Já está a fazer os possíveis para ficar bem, mas há sinais de que melhora com lentidão.
Ando meio fragilizada a nível físico, não há doença – daquelas que moem mas não matam – que não me encontre. Hoje estou com dores de garganta, ouvidos, espirros, tosse, expectoração, moleza. Mas daí que estou mole todos os fins-de-semana. Chego a perder a noção do tempo por passá-lo a dormir. Penso em ler, mas ao final da terceira página já estou desinteressada e sonolenta. Depois tento jogar o meu jogo habitual – não me apetece. Tento escrever – não consigo. Tento reescrever, coisa que não me exige muito da cabeça, mas também para isso falta motivação. A televisão nem tento ligar.
Que faço então? Deixo-me ficar estendida, de pijama, janela aberta até refrescar, depois fechada até aquecer, depois de novo aberta. Que faço, pois? Observo as cortinas a ondular ao vento. Espreito a tonalidade do dia, os azuis, os liláses e os alaranjados do final de tarde. Oiço música. Como, quando não como penso em comer. De vez em quando tapo-me com uma manta e permito-me voltar a adormecer. Mas só porque sim, porque cansada não estou e ter sono é impossível.
Hoje pareceu-me, enquanto fitava o nada, que estou à espera. A mãe não lhe sente uma grande falta, mas também não tem outra fonte de alegrias a não ser as tias Ana e Cláudia e a gata. A mãe deixa-se ficar, sempre à espera
Quando é que o vosso pai vai chegar e salvar-me? Quando é que ele virá resgatar-me de mim mesma? Animar-me os domingos? Levar-me a sair? Beijar-me na praça central de uma qualquer capital europeia? Criticar os meus cozinhados? Insistir em sintonizar o rádio para as músicas dele? Queixar-se dos lenços que deixo por toda a parte? Quando é que vou ouvir-lhe as gargalhadas a ecoar na casa? Quando é que ele virá para julgar que manda, só para eu ir por trás fazer tudo à minha maneira?
Por uma vez, a mãe sente que precisa de ser devolvida à alegria de viver. Ele que chegue depressa, por favor. A mãe nunca precisou tanto dele como agora.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #31

 Meus queridos,

Hoje a mãe foi confrontada com não uma, não duas, mas três histórias de amor. Chamá-lo-emos assim, para todas as faixas etárias e graus de profundidade de afectos envolvido. A mãe não é sequer testemunha (se não auditiva) de todos estes romances e, em cada um deles, é apenas conselheira de um dos lados. Desconhece o outro lado da moeda.
Digamos que apurou o mesmo problema em todas as vozes femininas envolvidas, de vinte e quatro anos a setenta. Algumas destas quatro mulheres têm/tiveram vidas afectivas activas, pontuadas de vários companheiros e algumas separações. Algumas têm pouca experiência com o bicho-Homem, outras estão traumatizadas com histórias passadas. É importante referir que a de setenta anos proclama uma vida sexual satisfatória com o seu improvável par, vinte anos mais jovem. Eu oiço e pergunto-me como acabo por ser a confidente de todas estar mulheres e como, a dado momento das suas vidas, acabam sempre por me procurar para ouvir o meu conselho. Que sei eu de homens? Da vida? De sexo? De confiar?
Todas estas mulheres têm um problema em confiar. Todas recearam/receiam, desde o primeiro momento, pelas suas jovens relações, todas elas que brotaram de circunstâncias diferentes, com obstáculos diferentes. Mais ou menos condenadas pela idade, a distância, o meio fechado, as línguas alheias. E todas elas tentaram, arriscaram, puseram-se a caminho, voltaram atrás, regressaram ao caminho. Pelo menos uma delas tem a certeza de não ter qualquer tipo de interesse emocional no homem com quem está envolvida – de que natureza for, e mesmo a intimidade é insípida -, mas também não quer largar, deixar ir.
Do que precisam as mulheres? Todas concordam; que as façam sentir como princesas. Alguns homens não têm esse talento. Alguns usam e abusam desse talento. Alguns são peritos em fingir esse estado de meiguice. Mas a mulher cai, porque nem a mulher mais rígida, nem a mais vivida, resiste a um “bom dia, princesa”. E porque será tão importante para a mulher sentir-se uma princesa?
Falando por mim, não no “bom dia, princesa”, mas no mais belo ainda “boa noite, princesa”, significa que esse homem é capaz de ver ainda algum valor em mim. Para lá de tudo o que as mulheres sofrem pela condição da natureza, para além das moças que as circunstâncias imprimem em nós – o stress, o trabalho, o envelhecimento, as quebras emocionais, o cabelo espigado, as unhas lascadas, as pernas mal depiladas, as mechas cinzentas, as nódoas negras nas canelas, a palidez de uma pele que não vê sol,  os lábios a precisarem de ser hidratados, o nariz a escamar de uma crise severa de alergia, a voz irritante e as cobranças sem nexo – há um homem que nos compara à ideia de uma princesa. Alguém que, basicamente, se dispõe a ignorar os defeitos e a abraçar apenas aquilo que em nós em bom. Alguém que diz “não te preocupes que os defeitos são discretos”, mesmo que sejam gritantes.
O medo. Estas mulheres embarcaram nas suas histórias já com medo. Este maldito jogo da tecnologia de hoje em dia – é difícil roubar-se beijos pelo telemóvel ou discernir brilhos de divertimento nos olhos de alguém através dos pixéis de uma má ligação de skype. É difícil dançar com alguém que “partilha” uma música connosco à distância de um computador. Mas é fácil saber que a pessoa leu a nossa mensagem e não respondeu. Que está a jogar Candy crush mas não nos disse boa noite. Que pôs “gosto” na fotografia do cãozinho da vizinha mas não no nosso artigo sobre energia nuclear. Então aprofundam-se as dúvidas. “Mas o que é que ele quer de mim, afinal?”, “Mas porque é que me trata como uma princesa se depois me ignora dois dias seguidos?”, “Mas porque é que me perseguiu durante uma vida inteira para depois me deixar quando finalmente cedo ao final de duas semanas?” “Nada fazia prever que…”
A vida não é bem o que imaginamos, e o amor muito menos. É preciso saber lidar com a incompreensão, os invejosos e os ressabiados, os ex., os que nutrem paixões secretas pelo objecto do nosso amor, os pais que desaprovam, a distância que se interpõe, a idade que os divide em diferentes gerações, as maratonas semanais sem qualquer sms, qualquer telefonema (para o aparelho de casa, móvel, de trabalho, skype), qualquer e-mail (para o Gmail, o Hotmail, o maria@departamentoderecursoshumanos..., qualquer mensagem de whatsapp, skype, qualquer tweet, qualquer comentário ou gosto no facebook, qualquer palavrinha no mypace, no voicemail, qualquer chamadinha de voz ou vídeo no Facetime. Como diz a Drew Barrymore no “He is Just not That into you”, hoje em dia é exaustivo sermos rejeitadas em mil e uma plataformas diferentes. E quando um homem nos diz que teve tempo para x, x, x e x, mas que não viu a nossa sms a entupir-lhe a caixa de correio a tarde inteira, a mulher desconfia. Pode até ser verdade, mas a mulher desconfia. E cedo ou tarde vêm as amigas dizer que ele não parece muito interessado (se tivesse faria y), e a mulher, se está interessada, pergunta-se “Realmente, que quereria ele com alguém como eu?”. Passa a ver-se como objecto defeituoso, a indagar se terá feito algo errado. Terá sido demasiado tímida? Demasiado ousada? Julgá-la-á frígida? Promíscua? E vai na volta está a fingir orgasmos para tentar mantê-lo feliz, preso a algo que não tem pernas para andar.
Ou ele profere, como aconteceu num destes casos, a mítica frase “sim, estive contigo e com a outra. Que tem? F*** as duas”, e assim arruma a grande mulher no saco da ordinária que toma banho uma vez por semana.
Ou ele pede-lhe que confie, como acontece noutro dos casos, e procura estar com ela o máximo de tempo possível, e ela acha-o tão bom que duvida que exista, e parece mais credível pensar que é um aldrabão com alguma fisgada.
Ou ele abre a sua caixinha de recordações e partilha tudo com ela, diz que gosta de conversa de almofada, e sofre de uma impotência que já levou ao naufrágio doutras tantas relações. Deixa de lhe falar por dois segundos e ela não sabe se ele é homem, se está farto, se a quer para curar a sua disfunção, se gosta de facto dela, se quer que fique, se quer que vá, se está cansado, se ela o pressiona, se o deixa demasiado solto e parece desinteressada.
A mãe, como vos tem tido, está sozinha. Está feliz. Mas vê, ouve, aprende. E a mãe acha que milagres acontecem, e que a pessoa certa para ti verá além de todo o resto, como se fosses detentor de um brilho especial que só reage ao seu olhar. E assim, mesmo que todo o mundo te diga que és baço, deves confiar. Deves confiar na luz que o outro diz ver em ti, apenas se vires luz nele também.
O que é certo será, e o que não é…

Nunca foi para ser. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #30

A mãe está feliz. A mãe gosta de ter um plano, de ir a lojas de ferragens, a lojas de alguidares, a lojas de tinta. A mãe gosta de trazer catálogos de cores para casa e de percorrer lojas de tecidos e de sentir a textura de cada um deles nas pontas dos dedos. Amanhã a mãe vai comprar um bloco de desenho e lápis de cor, para fazer experiências de cores, ver os contrastes, decidir o que quer para si. A mãe não consegue passar um dia sem comprar uma vassoura (uma varinha mágica), um armário de casa de banho.
A mãe soube hoje que mais duas pessoas vão morar juntas, vão sair de casa. Somos novos, diria eu. Mas está na hora.
A mãe percorreu as ruas de Almada. Querem saber como era a Capitão Leitão em dois mil e catorze? Há uma loja de bombons, frutos secos avulso, rebuçados e outros produtos enfrascados, com um cheiro muito característico, com um balcão onde está uma senhora amorosa. Uma senhora tão doce que só poderia estar a vender bombons. Há uma loja de sapatos que faliu e cuja montra está coberta de poeira. Há uma loja de self-service que, noite afora, vende garrafas de água, chocolates e preservativos. Há uma antiga drogaria poeirenta com vernizes na montra, soda cáustica e tintas para cabelo. Há uma loja daquelas que tresandam a velas de alfazema, com iemanjás e budas na montra, leitura de auras e tarot anunciados na porta. Há uma papelaria outrora muito frequentada, agora outro recanto caído desta rua envelhecida. Há a velha loja de livros em segunda mão onde ia comprar os livros da Harlequin que partilhava com a minha avó, no tempo em que ela ainda lia; o senhor morreu e a loja está vazia e de grades enferrujadas. Há o cão amarelo de um senhor que está sempre a cuidar da horta, um nível acima da estrada, debruçado para a rua e de cauda a sacudir. Há a antiga oculista, onde fui uma vez comprar um parafuso para uns óculos, e tive desconto porque reconheci, no pescoço envelhecido da lojista, o aroma do Coco Mademoiselle que também eu uso. Há uma loja de móveis em segunda mão que ajuda toxicodependentes, e onde a mãe entrou à procura de alguma antiguidade que valesse a pena mas, tendo sido recebida por um sorriso de boca desdentada, voltou a sair de imediato. Há uma loja de electrodomésticos em segunda mão. Uma loja de electrónica em segunda mão. Uma churrascaria e uma igreja recentemente renovada.
A mãe percorreu a rua inteira, de sorriso no rosto, satisfeita por viver na cidade onde vive. Há uma pequena preocupação, um pequenino sussurro que tenta insinuar-se sem grande resultado... Será que sou merecedora de uma coisa maior? De uma coisa bonita? De alguém que apanhe aviões por mim? Para ver-me? Para registar uma das minhas observações menos inspiradas? De alguém que me ligue e nunca se esqueça de me perguntar se estou bem? De alguém que me entenda nos altos e nos baixos e goste de mim em todas essas circunstâncias? De alguém que repare na minha dupla barriga, que se ria disso e me faça rir também sem me pôr a chorar? Sem me diminuir? Sem me desprezar? Serei merecedora de um homem que venha e que fique... Pela vida toda? Serei um bom investimento?
A mãe não tem um nome para atribuir ao que sente, mas a mãe sente-se apaixonada. Dançam-me borboletas no estômago, sorrisos involuntários nos lábios, uma certa paz interior de quem está onde deveria estar. A mãe está apaixonada e só pode ser pela vida…

domingo, 4 de maio de 2014

Carta aos meus filhos #29

A mãe está feliz. Confessa que a felicidade não é natural a cem por cento, mas, uma vez mais, fez o necessário para obtê-la.
A santíssima trindade portadora de alegria está reunida: a mamã já tem o gato, o gira-discos e os livros. Faltavam as paredes. Graças a uma série de ajudas, a mãe está a um passo de ter os chãos e os tectos. 
Sinto-me muito grande e muito forte. Tenho alguma dificuldade em entender a fluência da vida; os fossos intercalados com os cumes. Ainda há tão pouco tempo chorava um gato perdido, uma vida sem grandes perspectivas, uma solidão imposta, e agora saboreio o outro lado da moeda. Um outro animal para amar, a vida no lugar onde é suposto estar, a solidão orgulhosa e opcional de quem se rende às circunstâncias e não ao desespero.
A mãe tem um gira-discos. Talvez vocês conheçam a nossa parceria domingueira, enquanto engomo roupa. Talvez vos tenha gritado algumas vezes que tenham cuidado com a agulha, e mais ainda com os vinis. Nat King Cole, Scorpions, Queen e o “Red Red Wine” dos UB40. A mãe sabe que o projecto que abraçou vai limitar o número de viagens que poderá fazer, bem como reduzir um bocadinho a sua qualidade de vida de solteirona sem contas para pagar. Acabaram-se os shopping sprees nos saldos, acabaram-se os snacks caros para a gata, acabaram-se as loucuras de feira do livro. Agora terei de aprender a fazer cálculos.
Parece um sonho… um sonho bom. Um espaço. A minha música. As minhas cores. A minha existência expandida, impressa, duplicada, solidificada em algo de meu.
Estou um passo mais perto de vos receber. Estou onde deveria estar. Muito tranquila à espera do vosso pai. Ele será tão, tão especial… A mãe promete que só deixará o melhor pai do mundo entrar neste nosso ninho de paz.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Carta aos meus filhos #28

Meus queridos,

A mãe passou por várias dificuldades e teve vergonha de muitas situações ao longo da sua juventude. Mas a coisa que a envergonhava mais era não ter possibilidade de viajar. Por isso, a cada vez que a mãe larga amarras e vai conhecer um novo cantinho do mundo (da Europa, para ser precisa), é como se me saísse a lotaria. Nunca voltei igual de uma viagem, nem das mais pequenas, nem das repetidas. Já vos disse que um dos momentos em que me senti mais capaz e mais orgulhosa de mim mesma foi quando me vi sozinha na Alemanha a apanhar um comboio de Hamburgo para Bremen, não já? E em Hamburgo conheci emigrantes sicilianos e ficámos amigos. E em Bremen ia sendo atropelada por um ciclista brasileiro e ficámos amigos. E ainda em Bremen comi uma berliner ao lado de um cidadão da Algéria que me explicou os princípios do seu islamismo de modo que compreendi o seu lado humano e admirei o seu profundo respeito à sua religião (ou, digamos, filosofia de vida). As pessoas encontram-se a si mesmas nessas viagens. As almas, ansiosas por se conectar, por partilhar, por se elevar, por aprender e ensinar, entrelaçam-se por momentos. Estudam-se mutuamente, e dão-se ligações preciosas quando saímos de casa. Ligações fortalecidas pelo desconforto de não se ir dormir a casa nessa noite. É uma escolha; confiar. E, quando se confia, coisas maravilhosas sucedem. (Mais tarde alguém vos dirá que desconfiem, mas o meu papel é o de vos dizer que, sendo espertos mas crentes, a vida tende a sorrir-nos).
A mãe regressou a Dublin, a Roma e agora prepara-se para regressar a Paris. Contudo, nunca poderá regressar à Tenência.
Faz este ano dez anos – uma década -, quem sabe se não hoje mesmo, a catorze de Abril, que me sentei sob a alfarrobeira junto à eira a ouvir o Feels Like Home da Norah Jones. O CD tinha acabado de sair e a mãe punha-o a girar no seu discman da Sony. Estava-se em Abril, eu tinha recebido um casaco de lã grossa azul no Natal e usava-o para todo o lado. Tinha uma máquina analógica e tirei-me fotos – já haviam selfies naquela altura, pois sim – com campos de papoilas ao fundo. Tinha catorze anos e começava a perguntar-me tanta coisa…
Vocês não saberão o que é estar-se cingido às doze músicas de um CD. Não saberão o que é ter de se conhecer todas as faixas e o ter-se orgulho de saber o número da faixa tal. Com o tempo, o “Thinking about you” é do Feels Like Home deixará de fazer sentido. Agora um artista lança uma música que fica no ouvido, conhecemos essa e nenhuma outra. Não importa a carreira nem o talento, porque tudo é efémero e se resume a um sopro momentâneo de sorte.
A mãe dedicou este CD ao morcego caído aos meus pés, às seis da manhã, à saca de amêndoas que a amiga da tia me deu à porta de casa, por entre lajes vermelhas, cortinas de retalhos e vasos de barro. A mãe dedicou este CD aos exércitos de formigas que me subiam pelas pernas, como se eu fosse parte do tronco da árvore que habitavam. Dediquei este CD ao meu amor inocente, nunca concretizado, que combinava tão bem com aquela paisagem. Nunca fui tão feliz como fui ali, com tão pouco.

Bastava-me o sol da manhã, seguido das infusões de vinagre que me esfregavam nas costas à tarde, porque os dias solarengos me punham mole e eu dormia de manhã à noite. Bastava-me apanhar amêndoas metidas em casulos de resina. Bastava-me sentar-me sob as figueiras, estender as mãos e comer os figos maduros, em Setembro, sabendo que odiava figos e que jamais comeria outros que não aqueles, enquanto estava ainda molhada da ribeira. Bastava-me despir-me de tudo – despir-me, sim – e nadar, só eu, humana, e só a ribeira, estendida sobre a nascente fria que os meus pés afloravam. Bastava-me esconder-me sempre que ouvia um carro a descer a colina, mergulhar mais a fundo. Bastava-me estar por ali, desafiar-me a chegar à embarcação, devolver a achegã pescada ao rio, polvilhar um tomate com sal e acompanhá-lo de chouriças em pão alentejano, como se manjar algum igualasse aqueles lanches fluviais. Bastava-me estender-me no chão, tantas vezes o fiz, sentir-me parte da folhagem ressequida do final do verão, e depois acordar a meio da noite com formigas a dançar-me junto ao tímpano. Ou acordar, mal o sol despertara, pegar num caderno velho e percorrer alguns metros por entre as casinhas caiadas da aldeia até ao pontão de onde observava o nada. Um muro de suaves colinas e céu azul, dourado e azul, pois, como se para lá desse quadro nada mais houvesse. Nem maldade, nem guerras, nem poluição, nem telejornais histéricos, nem política, nem a Lady Gaga, nem a Nicki Minaj, nem pessoas que encarceram as filhas e as tornam suas amantes, nem pais que atiram as filhas de seis anos pela janela, nem mulheres que retalham os maridos e se livram do corpo deles em três trolleys.

Soa-vos aborrecido, não é? Que fariam vocês numa aldeia sem internet, sem rede telefónica, sem um café que funcionasse em horários habituais, pelo menos? Se a mãe pudesse pedir um desejo para vocês… sabem o que seria? Para além de saúde, desejo-vos senso de pertença. Ó, por favor. Sintam que pertencem ao mundo, que são parte dele, que quando o vento vos fustiga o rosto vos magoa, e que quando vocês cortam uma árvore a terra sangra. Por favor, sintam que são feitos de pó e que um dia ajudarão a adubar um jardim. Não se achem acima de coisa alguma, porque isso só vos trata insatisfação a vida inteira.

A mãe gostaria tanto de voltar a esses tempos… mas tudo o que encontraria seriam casas fechadas, telhados desabados, as fachadas outrora primorosamente caiadas estarão pejadas de lascas e os idosos foram recambiados para lares ou já estão no chamado jardim das tabuletas. Em breve a Tenência será um cemitério. Parece algo tão pequeno, uma ruína, um castro, uma povoação romana, uma Chernobyl privada de animação, de vida, de juventude… Alguém algum dia sonhará que lhe dediquei o Feels like Home? Because it really felt like home.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Carta aos meus filhos #27

A mãe mudou muito nos últimos dois meses.
Em primeiro lugar, tem uma gatinha nova. Chama-se Joséphine, faz hoje uma semana e um dia que está connosco e já começou a dar retorno. Trouxe felicidade, preocupação colectiva, risos, piadas, pescoços esticados para a ver, costas curvadas para que possamos espreitá-la por debaixo da mesa. Um gato traz sorte e é algo de místico. A vossa bisavó Norvinda pega nela ao colo, acaricia-a, dá-lhe biscoitos para gato e lamuria-se com um riso num canto dos lábios. Diz que até o gato tem dinheiro a guloseimas e ela não. Então, a mãe comprou-lhe um chocolate de leite da Nestlé; primeiro porque a placa da avó não lhe permite comer chocolates com frutos secos, segundo porque o bisavô Américo trabalhou na fábrica da Nestlé durante muitos anos e levou muitos destes para casa.
Tudo isto por causa da Joséphine. A mãe pensava que a sua relação com a bisavó estava desgastada, a verdade é que a bisavó me julgava de ferro e achou-me incapaz de vergar. Mas a mãe vergou de tal modo que chegou a valer-se dos cotovelos para manter a cara longe do chão. Assim sendo, a bisavó cuidou de mim, abraçou-me, protegeu-me, desejou-me o melhor. E é sincero, e por isso aceitou a Joséphine e deixa-a dormir-lhe no colo enquanto assiste televisão na cama. Por isso, desta vez, não houve discussões e o dia 24 de Março, quando a Josie chegou, foi um dia feliz. Se temos medo de amar? Oh, temos todos, sim. Estamos todos feridos pelo desaparecimento do Napoleão. Mas, enquanto nos prostássemos a um canto, uma belezinha como a Jo ficaria sem família, sem tecto numa noite de temporal como ontem. E assim descança as orelhinhas numa almofada de veludo e dorme numa mantinha de bebé dentro da alcofa que lhe comprei. Praticar um luto eterno para quê? A mãe tem mais medo de amar do que de ser odiada. Dói tanto ver-se o objecto do nosso amor estilhaçado pelas circunstâncias...
O avô Jorge, de quem a mãe tem tão poucas boas coisas a dizer, merece aqui uma menção pela positiva. Fez uma caminha para a Joséphine, recortando-lhe um rectângulo num cesto muito antigo que a mãe trouxe da Tenência. Filhos, em 2002 a mãe sentou-se nas ruas de uma pequena aldeia algarvia, rodeada de senhores que não sabiam ler e que teciam poemas de memória, e admirou a agilidade das suas mãos que entrelaçavam cestos. Esse cesto foi agora tornado num pequeno palácio para a minha princesa. Chama-lhe "porta-chaves", o que é a coisa mais carinhosa que o ouvi chamar a um animal. Às vezes finge que tem alguma coisa para fazer no meu quarto só para vir vê-la, incapaz de resistir ao impulso de estender a mão e acariciá-la.
A mãe passou por uma fase muito má e viu com quem pode contar. De repente, nem tudo era negro. Há muita gente que se preocupa comigo e devo retribuí-lo sendo o mais feliz possível.
A mãe voltou a acreditar que vocês venham um dia cair nos meus braços, e … surpreendam-se! A mãe sempre se achou uma durona, mas perante os olhos dilatados do Napoleão e a barriguinha em alvoroço da Josie, a mamã mal consegue dormir de preocupação. Pega neles e telefona para os veterinários de Almada, corre para lá. Torna-se a crazy cat lady que, no fundo, é só uma mulher protectora a lutar pelo bem-estar dos seus protegidos. Mal consigo ignorar-lhes os gemidos por atenção, por colo, por carinho. E se a mãe se tiver tornado assim com vocês também? Se for a galinha superprotectora que sempre esperei não ser?
A Joséphine escala para o meu colo e estende-se de costas sobre o meu braço enquanto almoço, expondo a barriguinha colorida. Tem-na gordinha e saudável e a mãe sente-se satisfeita por saber que lhe comprou a comida e os biscoitos que a fazem tão roliça e feliz. A mãe está tranquila por saber que ao primeiro sinal de alarme tem meios de a proteger de tanta coisa… Embora nunca de tudo. Ao vê-la estendida, exposta às minhas mãos, sendo que apenas uma, se mal intencionada, poderia causar-lhe tanto mal... significa o mundo para mim (it means the world to me faz mais sentido). A mãe quer animar outras existências, saber-se capaz de salvar alguém.
Sinto que posso, finalmente, voltar a escrever. Voltar a concentrar-me no meu trabalho, nos meus amigos e naquilo que me dá prazer. 
A chuva já não me traz melancolias, empurra-me adiante. A mãe, por fim, está em paz e aprendeu a esperar.
A mãe tem um lindo plano de futuro e até já comprou uma varinha mágica.