quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Carta aos meus filhos #59
A mamã hoje improvisou um jantar completo. O gás está por fim a funcionar e a mamã fez um creme de coentros leve, uma lasanha improvisada de espinafres, carne e béchamel (inesperadamente) de soja e, para sobremesa, tarte de lima. Estou a tentar por vocês, está bem? E pelo vosso pai. A mamã quer fazer o vosso pai muito feliz, como só faz quem nos alimenta o corpo e a alma.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Brasil---ziu ziu
Entendendo o Brasil em números,
falamos de 200 milhões de habitantes, cerca de dezoito vezes a população
portuguesa. Enquanto Lisboa alberga 500 mil habitantes, a cidade mais populosa
do Brasil, São Paulo, é casa de onze milhões. Neste momento, é possível que
tenha mais habitantes do que a população residente de Portugal.
Conheci Salvador e Brasília. Sem
dúvida que preferi Salvador a Brasília. Senti-me em casa em Salvador. O motivo é simples; Salvador tem
história, tem cultura, enquanto Brasília foi criada de raiz em 1956 com o
propósito de se tornar sede do governo.
A minha perspectiva sobre o Brasil é
um pouco semelhante à que tenho do meu país, embora, uma vez mais, um país
sirva para aprender a dar valor ao meu. As minhas ideias pré-concebidas,
contudo, vieram todas por água abaixo.
A ideia de os brasileiros serem
demasiado ingénuos, por vezes até burros, só funciona para marinheiro de
primeira viagem. O choque de mundos (primeiro e terceiro), é de tal modo
contrastante que eu própria fiz figura de idiota por todos os sítios por onde
passei. Pareceu ser tudo novo, do taxímetro aos buffets a peso. Metia-me sempre na fila errada do controlo de
passaportes, fazia as perguntas mais tolas por insegurança e estava na dúvida
em quem confiar.
A ideia de os brasileiros serem
meio malandrecos também não é totalmente verdade. Passei por uma obra, de
saia e saltos, e sim… os senhores pararam de trabalhar por um instante, mas
retomaram sem nenhum “Ó jóia…!”. Fiquei até de auto-estima em baixo. Em
Portugal haveria show de assobios, só porque sim.
A ideia de o Brasil estar povoado
de bandidos é mentira. Só me cruzei com taxistas honestos, recepcionistas
calorosos, pessoas atenciosas, profissionais, detentores de uma seriedade que
falta mesmo aos portugueses, em grande parte do tempo.
A ideia de o brasileiro ser um
desactualizado que só quer saber de chope e forró é outro pé na poça. Toda
a gente com quem falei sabia o nome dos candidatos à presidência, os partidos,
o background de cada um, quem já esteve no poder, quem se enrolou com quem,
quem foi condenado pelo quê. Apesar de serem obrigados a votar, viu-se um
interesse generalizado no panorama político e socioeconómico do país. Por cá
desconfio que se muita gente fosse obrigada a votar iria à urna só para plantar
uma cruz ao acaso no boletim.
A ideia de o brasileiro só ouvir
Michel Teló e Gabriel Valim é absurda. Quantas vezes perguntei aos meus
taxistas (todos eles maravilhosos e pessoas enriquecedoras) que música era
aquela que ia a tocar no rádio. Jazz com letras em brasileiro, blues, bossa
nova, clássicos dos anos 80. Um mimo para os ouvidos. Nem sombra do Show das
Poderosas.
Fiquei com o peito apertado ao ver o
contraste de riqueza e pobreza que cobre Salvador. Uma percentagem enorme da
população vive no limiar da pobreza, com casas sem reboco nem revestimento, de
tijolo à vista e roupa estendida numa janela sem portadas. Depois há prédios
futuristas tanto em Salvador como em Brasília que não existem nem em Lisboa,
todos com vista favela. E a favela
tem vista centro histórico e prédio ultramoderno.
O sistema de saúde é uma piada. As
pessoas morrem na sala de espera (café da
manhã e notícia na Globo; idoso morre em sala de espera de hospital em
Pernambuco). Quem recorre ao privado paga cerca de 300 reais por mês (quase
100€) e espera semanas por uma consulta. Estamos a falar de um mercado de 200
milhões de pessoas. Não de uma aldeia como Portugal.
Há um certo proteccionismo na
economia que faz disparar o valor dos produtos importados; de roupas a
tecnologia, os valores são demasiado altos para acompanhar o nível de vida da
maioria dos cidadãos. Foi-me dito e repetido que compensa mais apanhar o
primeiro avião para Miami e pagar o peso extra, e regressar com tablets, telemóveis, ténis de marca,
casacos de griffe.
Os brasileiros são muito
consumistas, não apenas na Europa. E o sistema facilita a compra de tudo em
prestações. Bati os olhos num iPhone 4S a 499 reais, que é tipo 170€. Qual o
meu espanto quando verifico que essa é apenas uma das prestações. Os valores surgem “Barbie – $39,99 x 6 vezes”.
Se pagar a pronto tem desconto de 20 reais. Na realidade são os juros, assim
mascarados para não desmotivar o consumidor. Em contrapartida, a comida e os serviços são super baratos. (E que comida a deles, Jesus!!! Merecia destaque internacional, é melhor que a italiana, no meu modesto parecer).
A média de assassinatos semanais em
Brasília é de 18. Significa que esta semana podem morrer 2 pessoas e para a
próxima morrem 34. Um jovem estudante foi esfaqueado e morreu num dos bairros
da cidade. A mãe chorava na televisão, ninguém parecia especialmente comovido,
porque é o pão nosso de cada dia.
Os cães deambulavam pelas ruas de
Salvador, esfaimados, sem que ninguém possa
prestar-lhes atenção, porque a cidade é uma espécie de selva onde todos lutam
pela sobrevivência. Deitada na paragem junto ao paredão, uma jovem foi
levantada pelos cotovelos por um homem. Estava drogada e mal abriu os olhos
quando desapareceu por uma ruela aos tropeções.
Prostitutas e travecas inundavam o
paredão à noite, fumando e deitando olhares expectantes aos carros que
passavam. O negócio vai mal, mas há que aguentar de pé sobre os saltos, até a
manhã raiar.
Havia ruas no centro histórico de
Salvador onde parecia que um cataclismo causara o estado de cenário
pós-apocalíptico. Edifícios históricos só com a fachada de pé e as gaivotas a
voar por entre as janelas outrora apaineladas. A calçada em tudo semelhante à
nossa levantada, inchada, vergada, irregular, desfeita em cacos e a tombar
sobre a estrada, revelando a terra húmida do seu interior.
Um calor que se nos agarra à pele e
que nos faz sentir peganhentos, suados mesmo que não estejamos a suar. Uma
doçura que favorece a impaciência dos mosquitos envolve-nos como mel e quando
damos por nós estamos num restaurante de referência e uma barata atravessa a
parede para se acercar do ar condicionado. “Parece uma sapateira!”, grita
alguém, e a empregada corre a ir buscar o certificado de desbaratização do
local, bem recomendado no TripAdvisor.
Quanto a Brasília, o mais monumental
dos projectos arquitectónicos do século XX, trata-se de uma cidade
relativamente segura, desde que não cruzemos os seus limites e nos aventuremos
nos subúrbios, ou satélites, como lhes chamam lá. Os transportes funcionam, o
projecto de construir uma capital foi pensado ao pormenor e não prevê
cruzamentos, as vias são circulares e permitem o escoamento do tráfego sem
aborrecimentos de maior.
Óscar Neimeyer é o principal
responsável pela cidade monumental, dividida em quadras (bairros com funções
específicas), que é Brasília. Há a zona dos ministérios, o Eixo Monumental que
atravessa a cidade de fio a pavio e ao largo do qual todos os edifícios de
interesse se agregam, a torre da televisão com subida gratuita, de onde podemos
observar a cidade, que me pareceu um bocado com a ideia que tenho do México,
uma espécie de faroeste tão apocalíptico quanto imponente, a quadra comercial,
a quadra empresarial, a quadra hoteleira, etc., etc., etc. Muitos empresários e
poucos turistas circulam pela cidade. O calor é seco e infernal, daí que um
lago artificial de enorme extensão procure humidificar um pouco as vistas. Comi
melhor do que na Bahia em Brasília, e fiquei deslumbrada com mais esse
contraste nesse país que, na realidade, tem a dimensão de um continente. No
meio da rua, uma senhora de talvez cinquenta anos abordou-me e pediu-me que lhe
desapertasse o soutien. Só assim. Não
sou da mesma nação nem do mesmo continente, nem da mesma faixa etária, mas
alguma coisa partilhamos. Fiz-lhe o jeito com gosto, desejando ser também um
pouco mais aberta e pedir às almadenses da estação de MST que me desapertassem
o meu em dias de encalorado sufoco.
E é assim, o brasileiro. Sorri, diz
bom dia. Pede que olhe pelo filho pequeno que mergulha na piscina enquanto vai
ao quarto buscar o protector. Diz-me que pague a corrida de táxi abastecendo o
carro. Sorri-me e diz que os meus olhos são bonitos. Pergunta-me que língua é
essa que estou a falar. Aconselha-me a não andar sozinha nas suas ruas, mas
acrescenta, com um encolher de ombros, que pessoalmente nunca foi assaltado,
mas conhece um caso. E em tudo isto
reside o seu encanto e o seu poder sedutor. No sobrolho de quem trabalha, na
mão calejada, no sorriso que serve o suco de uma fruta cujo nome sou incapaz de
pronunciar. Na mão que puxa o meu braço e promete proteger-me da impunidade do
seu próprio povo.
É preciso que o brasileiro pense
melhor do Brasil. É preciso que pense melhor do seu compatriota brasileiro. Que exija
mais dos seus comandantes. O Brasil é um país de gente boa, trabalhadora,
honesta (não falo dos políticos) que tem tido os capitães errados. Outra terra
próspera entregue aos loucos.
Envolvidos pela tranquilidade do mar,
iluminados pelas constelações no hemisfério sul e incomodados pela inquietação
dos mosquitos… os brasileiros são, sem dúvida, um povo nosso irmão.
O mais
nosso irmão de todos os povos.
domingo, 14 de setembro de 2014
Carta aos meus filhos #58
A mamã está melhor, muito melhor. Está até apaixonada, muito apaixonada. Pela vida.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Carta aos meus filhos #57
A mãe está melhor.
Voltou a sentir amor.
A sensação de vertigem associada ao amor.
Mas não está desesperada. Acredita que tudo tem o seu tempo. Que o que não está destinado não tem lugar. Que os caminhos apenas se fecham para empurrar-nos da direcção que é suposto seguirmos.
Logo vou falar com as cartas.
Vou perguntar-lhes pelo homem por quem estou apaixonada.
Vou perguntar-lhes se ele se lembra de me cantar ópera pelo sistema de mãos livres do carro até eu chorar de tanto rir. Vou perguntar-lhes se ele se lembra do número de vezes que disse que gostava de mim. Do número de vezes que me chamou de princesa.
Do número de vezes que me reconfortou.
E do resto... que era tão nosso, porque éramos duas almas em sintonia e só a distância soube quebrar-nos.
A mãe... gostaria muito de voltar a ser a miúda dele.
Vou estar atenta às oportunidades.
Voltou a sentir amor.
A sensação de vertigem associada ao amor.
Mas não está desesperada. Acredita que tudo tem o seu tempo. Que o que não está destinado não tem lugar. Que os caminhos apenas se fecham para empurrar-nos da direcção que é suposto seguirmos.
Logo vou falar com as cartas.
Vou perguntar-lhes pelo homem por quem estou apaixonada.
Vou perguntar-lhes se ele se lembra de me cantar ópera pelo sistema de mãos livres do carro até eu chorar de tanto rir. Vou perguntar-lhes se ele se lembra do número de vezes que disse que gostava de mim. Do número de vezes que me chamou de princesa.
Do número de vezes que me reconfortou.
E do resto... que era tão nosso, porque éramos duas almas em sintonia e só a distância soube quebrar-nos.
A mãe... gostaria muito de voltar a ser a miúda dele.
Vou estar atenta às oportunidades.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Carta aos meus filhos #56
A mãe costumava rir-se por tudo e por nada.
Costumava encontrar beleza nas coisas pequenas; uma borboleta que insistiu em pousar em mim rua abaixo, um gato que se escapa de rabo-tipo-escovilhão de um mata velhos, as brincadeiras da bisavó Norvinda.
De repente, a mãe deixou de ver beleza em tudo. Deixou de ver formas nas nuvens. E isto segue há vários meses.
Hoje a mãe ligou à avó Vanda. Seriam cinco e meia da tarde. A avó Vanda tinha uma coisa muito importante para tratar. Mas é a avó Vanda, o que se pode esperar?
- Mãe, onde estás? - Perguntei, quando ela atendeu o telemóvel.
- Olha filha, a mãe está a pescar.
E foi isto.
A avó Vanda a gritar, do outro lado do telefone, embora não estivesse sequer a 1 km geográfico de mim, que estava a pescar.
E a mãe, depois de devolver o telemóvel à mala, pôs-se a pensar.
"Pescar. Fishing. Fishing. My mother is fishing. She is fishing. Fishing. The world is a mess but my mother is fishing".
E ri-me como há muito não me ria.
Sozinha.
sábado, 16 de agosto de 2014
Carta aos meus filhos #55
Uma vez a mãe apaixonou-se por um homem que leu As Aventuras do Robinson Crusoé, as Viagens de Gulliver e A Ilha do Tesouro. A mãe amou-o mais um bocadinho quando ele lhe falou do modo como esses livros lhe influenciaram a visão das coisas; o sabor adocicado da aventura em páginas tão estimadas de literatura.
A mãe quis muito que esse homem de olhar bondoso, esse homem que entrava em chocolatarias comigo e me perguntava "o que queres?" fosse o vosso pai.
Depois dei-me conta de que, vinte e cinco anos desperdiçados com um homem e cinco filhos depois é que a minha mãe, a avó Vanda, é finalmente feliz. Finalmente encontrou, passados cinquenta anos de vida, um homem com quem comunicar lhe é fácil, dar as mãos é fácil, ser uma equipa é fácil. E este homem esperou por ela a vida inteira. Viu-a ter um, três, cinco filhos com outro. Acabar e recomeçar com o outro. Chorar e prejudicar-se pelo outro. E continuou a acarinhar a esperança de a ter. Entre filhos, entre desgostos, lá estava ele, paciente.
E agora a avó Vanda é feliz. Só fala dele, e já estão juntos há um ano. Parecem dois pombinhos ciumentos e muito apaixonados.
Quanto tempo terei de esperar para reencontrar um homem que espere que eu adormeça para soprar, contra o meu ombro, "ti voglio bene"?
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Carta aos Meus Filhos #54
Se a mãe pudesse escolher que personagem
ser na vida, escolheria o papel de uma qualquer actriz num filme francês. Ou melhor, a
ideia que tenho do papel de uma francesa num qualquer filme. Uma mulher que não se preocupe
demasiado com o perfume sem ser no momento exacto. Ou talvez esta seja a minha
ideia de uma mulher francesa; alguém de cabelo meio solto, rosto limpo de
maquilhagem, beleza discreta, só visível aos olhos de quem sente, não demasiado
alta. Sem madeixas, sem creme hidratante nas mãos. Uma mulher simples, jovem,
num mundo onde os homens fumam demais e metem demasiado perfume.
A mãe está melhor. Cinco infusões por dia,
mas a mãe ignora o doutor e toma só duas. Não pode dar-se ao luxo de engolir
cinco goladas de cura por dia, ou dormiria de manhã à noite.
Se sair desta bruma, saibam que foi a arte
que me salvou. O livro que me tem consumido os instantes livres e um quadro sem
qualquer espécie de talento promissor que ando a pintar há dois dias. Foi a
escrita (que só tem existido na minha cabeça, mas que mesmo aí se desenvolve
diariamente com desenvoltura).
A mãe sentiu um laivo de amor, hoje. Na
realidade, sentiu dois. É estranho que não me sinta muito normal, que tenha
tonturas quando me ponho de pé e que durma sestas de duas horas em sofás. É
estranho que tenha destruído o meu dedo médio e ganho uma bolha do tamanho de
uma moeda de dois cêntimos no polegar por tanto apertar parafusos em estantes e
roupeiros. É estranho que um jarro da bisavó Norvinda, tipo bibelôt daquele
azul e branco tão português, seja a minha peça favorita da estante. Fora os
livros.
Como dizia, é estranho que a mãe tenha sido
bafejada por algo parecido com amor hoje. Caminhava na rua, com as calças
demasiado apertadas em torno das ancas, porque agora peso sete quilos a mais do
que há três meses, e senti-o. O amor; um sopro na minha testa. Um líquido morno
a escorrer-me pelo peito e a comover-me por um instante. Fiquei tão
surpreendida que estremeci. Ao sacudir os ombros, perdi essa sensação. Mas,
durante alguns instantes, ela esteve lá. Senti-o. Amei. Depois desamei. Mas,
por meio milésimo de segundo, amei.
A mãe hoje, apesar de por momentos, voltou
a amar.
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