segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #60

Jantar #1
Receita #1
Lombo de Porco com Pimenta Vermelha, Pistachos e Puré de Maçã Verde e Lima


Lombo de porco q.b.
Pimenta vermelha q.b.
5 Maçãs verdes
2 Alhos para untar a carne
Sal q.b.

Acompanhamento: batatinhas a (OK, a mamã esqueceu-se do murro)
murro

- Temperar a carne com a pimenta vermelha, esfregando os alhos nela e a pimenta vermelha. Sal q.b.
- Fazer um refogado com alho, azeite, manteiga e água q.b. Pôr a carne quando os alhos estiverem cozinhados. Deixar apurar.
- Quando a carne estiver quase cozinhada, acrescentar cebolinho. Ver se está cozida por dentro antes de a pôr no forno; cortar em fatias.
- Levar a carne ao forno com o molho, coberta de pistachos.
- Cozer as maçãs, escoar a água e esmagá-las com a varinha mágica. Se forem demasiado doces, espreme-se o sumo de uma lima até o sabor ficar mais neutro.
- Deve servir-se a fatia de carne sobre o puré.

O vinho para acompanhar:

Foi perfeito. A mamã não sabe se vocês iriam gostar. Mas acha que o vosso papá sim, que ele será grande apreciador deste prato.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #59

A mamã hoje improvisou um jantar completo. O gás está por fim a funcionar e a mamã fez um creme de coentros leve, uma lasanha improvisada de espinafres, carne e béchamel (inesperadamente) de soja e, para sobremesa, tarte de lima. Estou a tentar por vocês, está bem? E pelo vosso pai. A mamã quer fazer o vosso pai muito feliz, como só faz quem nos alimenta o corpo e a alma.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Brasil---ziu ziu

Entendendo o Brasil em números, falamos de 200 milhões de habitantes, cerca de dezoito vezes a população portuguesa. Enquanto Lisboa alberga 500 mil habitantes, a cidade mais populosa do Brasil, São Paulo, é casa de onze milhões. Neste momento, é possível que tenha mais habitantes do que a população residente de Portugal.
Conheci Salvador e Brasília. Sem dúvida que preferi Salvador a Brasília. Senti-me em casa em Salvador. O motivo é simples; Salvador tem história, tem cultura, enquanto Brasília foi criada de raiz em 1956 com o propósito de se tornar sede do governo.
A minha perspectiva sobre o Brasil é um pouco semelhante à que tenho do meu país, embora, uma vez mais, um país sirva para aprender a dar valor ao meu. As minhas ideias pré-concebidas, contudo, vieram todas por água abaixo.
A ideia de os brasileiros serem demasiado ingénuos, por vezes até burros, só funciona para marinheiro de primeira viagem. O choque de mundos (primeiro e terceiro), é de tal modo contrastante que eu própria fiz figura de idiota por todos os sítios por onde passei. Pareceu ser tudo novo, do taxímetro aos buffets a peso. Metia-me sempre na fila errada do controlo de passaportes, fazia as perguntas mais tolas por insegurança e estava na dúvida em quem confiar.
A ideia de os brasileiros serem meio malandrecos também não é totalmente verdade. Passei por uma obra, de saia e saltos, e sim… os senhores pararam de trabalhar por um instante, mas retomaram sem nenhum “Ó jóia…!”. Fiquei até de auto-estima em baixo. Em Portugal haveria show de assobios, só porque sim.
A ideia de o Brasil estar povoado de bandidos é mentira. Só me cruzei com taxistas honestos, recepcionistas calorosos, pessoas atenciosas, profissionais, detentores de uma seriedade que falta mesmo aos portugueses, em grande parte do tempo.
A ideia de o brasileiro ser um desactualizado que só quer saber de chope e forró é outro pé na poça. Toda a gente com quem falei sabia o nome dos candidatos à presidência, os partidos, o background de cada um, quem já esteve no poder, quem se enrolou com quem, quem foi condenado pelo quê. Apesar de serem obrigados a votar, viu-se um interesse generalizado no panorama político e socioeconómico do país. Por cá desconfio que se muita gente fosse obrigada a votar iria à urna só para plantar uma cruz ao acaso no boletim.
A ideia de o brasileiro só ouvir Michel Teló e Gabriel Valim é absurda. Quantas vezes perguntei aos meus taxistas (todos eles maravilhosos e pessoas enriquecedoras) que música era aquela que ia a tocar no rádio. Jazz com letras em brasileiro, blues, bossa nova, clássicos dos anos 80. Um mimo para os ouvidos. Nem sombra do Show das Poderosas.
Fiquei com o peito apertado ao ver o contraste de riqueza e pobreza que cobre Salvador. Uma percentagem enorme da população vive no limiar da pobreza, com casas sem reboco nem revestimento, de tijolo à vista e roupa estendida numa janela sem portadas. Depois há prédios futuristas tanto em Salvador como em Brasília que não existem nem em Lisboa, todos com vista favela. E a favela tem vista centro histórico e prédio ultramoderno.
O sistema de saúde é uma piada. As pessoas morrem na sala de espera (café da manhã e notícia na Globo; idoso morre em sala de espera de hospital em Pernambuco). Quem recorre ao privado paga cerca de 300 reais por mês (quase 100€) e espera semanas por uma consulta. Estamos a falar de um mercado de 200 milhões de pessoas. Não de uma aldeia como Portugal.
Há um certo proteccionismo na economia que faz disparar o valor dos produtos importados; de roupas a tecnologia, os valores são demasiado altos para acompanhar o nível de vida da maioria dos cidadãos. Foi-me dito e repetido que compensa mais apanhar o primeiro avião para Miami e pagar o peso extra, e regressar com tablets, telemóveis, ténis de marca, casacos de griffe.
Os brasileiros são muito consumistas, não apenas na Europa. E o sistema facilita a compra de tudo em prestações. Bati os olhos num iPhone 4S a 499 reais, que é tipo 170€. Qual o meu espanto quando verifico que essa é apenas uma das prestações. Os valores surgem “Barbie – $39,99 x 6 vezes”. Se pagar a pronto tem desconto de 20 reais. Na realidade são os juros, assim mascarados para não desmotivar o consumidor. Em contrapartida, a comida e os serviços são super baratos. (E que comida a deles, Jesus!!! Merecia destaque internacional, é melhor que a italiana, no meu modesto parecer).
A média de assassinatos semanais em Brasília é de 18. Significa que esta semana podem morrer 2 pessoas e para a próxima morrem 34. Um jovem estudante foi esfaqueado e morreu num dos bairros da cidade. A mãe chorava na televisão, ninguém parecia especialmente comovido, porque é o pão nosso de cada dia.
Os cães deambulavam pelas ruas de Salvador, esfaimados, sem que ninguém possa prestar-lhes atenção, porque a cidade é uma espécie de selva onde todos lutam pela sobrevivência. Deitada na paragem junto ao paredão, uma jovem foi levantada pelos cotovelos por um homem. Estava drogada e mal abriu os olhos quando desapareceu por uma ruela aos tropeções.
Prostitutas e travecas inundavam o paredão à noite, fumando e deitando olhares expectantes aos carros que passavam. O negócio vai mal, mas há que aguentar de pé sobre os saltos, até a manhã raiar.
Havia ruas no centro histórico de Salvador onde parecia que um cataclismo causara o estado de cenário pós-apocalíptico. Edifícios históricos só com a fachada de pé e as gaivotas a voar por entre as janelas outrora apaineladas. A calçada em tudo semelhante à nossa levantada, inchada, vergada, irregular, desfeita em cacos e a tombar sobre a estrada, revelando a terra húmida do seu interior.
Um calor que se nos agarra à pele e que nos faz sentir peganhentos, suados mesmo que não estejamos a suar. Uma doçura que favorece a impaciência dos mosquitos envolve-nos como mel e quando damos por nós estamos num restaurante de referência e uma barata atravessa a parede para se acercar do ar condicionado. “Parece uma sapateira!”, grita alguém, e a empregada corre a ir buscar o certificado de desbaratização do local, bem recomendado no TripAdvisor.
Quanto a Brasília, o mais monumental dos projectos arquitectónicos do século XX, trata-se de uma cidade relativamente segura, desde que não cruzemos os seus limites e nos aventuremos nos subúrbios, ou satélites, como lhes chamam lá. Os transportes funcionam, o projecto de construir uma capital foi pensado ao pormenor e não prevê cruzamentos, as vias são circulares e permitem o escoamento do tráfego sem aborrecimentos de maior.
Óscar Neimeyer é o principal responsável pela cidade monumental, dividida em quadras (bairros com funções específicas), que é Brasília. Há a zona dos ministérios, o Eixo Monumental que atravessa a cidade de fio a pavio e ao largo do qual todos os edifícios de interesse se agregam, a torre da televisão com subida gratuita, de onde podemos observar a cidade, que me pareceu um bocado com a ideia que tenho do México, uma espécie de faroeste tão apocalíptico quanto imponente, a quadra comercial, a quadra empresarial, a quadra hoteleira, etc., etc., etc. Muitos empresários e poucos turistas circulam pela cidade. O calor é seco e infernal, daí que um lago artificial de enorme extensão procure humidificar um pouco as vistas. Comi melhor do que na Bahia em Brasília, e fiquei deslumbrada com mais esse contraste nesse país que, na realidade, tem a dimensão de um continente. No meio da rua, uma senhora de talvez cinquenta anos abordou-me e pediu-me que lhe desapertasse o soutien. Só assim. Não sou da mesma nação nem do mesmo continente, nem da mesma faixa etária, mas alguma coisa partilhamos. Fiz-lhe o jeito com gosto, desejando ser também um pouco mais aberta e pedir às almadenses da estação de MST que me desapertassem o meu em dias de encalorado sufoco.
E é assim, o brasileiro. Sorri, diz bom dia. Pede que olhe pelo filho pequeno que mergulha na piscina enquanto vai ao quarto buscar o protector. Diz-me que pague a corrida de táxi abastecendo o carro. Sorri-me e diz que os meus olhos são bonitos. Pergunta-me que língua é essa que estou a falar. Aconselha-me a não andar sozinha nas suas ruas, mas acrescenta, com um encolher de ombros, que pessoalmente nunca foi assaltado, mas conhece um caso. E em tudo isto reside o seu encanto e o seu poder sedutor. No sobrolho de quem trabalha, na mão calejada, no sorriso que serve o suco de uma fruta cujo nome sou incapaz de pronunciar. Na mão que puxa o meu braço e promete proteger-me da impunidade do seu próprio povo.
É preciso que o brasileiro pense melhor do Brasil. É preciso que pense melhor do seu compatriota brasileiro. Que exija mais dos seus comandantes. O Brasil é um país de gente boa, trabalhadora, honesta (não falo dos políticos) que tem tido os capitães errados. Outra terra próspera entregue aos loucos.
 Envolvidos pela tranquilidade do mar, iluminados pelas constelações no hemisfério sul e incomodados pela inquietação dos mosquitos… os brasileiros são, sem dúvida, um povo nosso irmão. 
O mais nosso irmão de todos os povos.

domingo, 14 de setembro de 2014

Carta aos meus filhos #58

A mamã está melhor, muito melhor. Está até apaixonada, muito apaixonada. Pela vida.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #57

A mãe está melhor.
Voltou a sentir amor.
A sensação de vertigem associada ao amor.
Mas não está desesperada. Acredita que tudo tem o seu tempo. Que o que não está destinado não tem lugar. Que os caminhos apenas se fecham para empurrar-nos da direcção que é suposto seguirmos.
Logo vou falar com as cartas.
Vou perguntar-lhes pelo homem por quem estou apaixonada.
Vou perguntar-lhes se ele se lembra de me cantar ópera pelo sistema de mãos livres do carro até eu chorar de tanto rir. Vou perguntar-lhes se ele se lembra do número de vezes que disse que gostava de mim. Do número de vezes que me chamou de princesa.
Do número de vezes que me reconfortou.
E do resto... que era tão nosso, porque éramos duas almas em sintonia e só a distância soube quebrar-nos.
A mãe... gostaria muito de voltar a ser a miúda dele.
Vou estar atenta às oportunidades.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #56

A mãe costumava rir-se por tudo e por nada.
Costumava encontrar beleza nas coisas pequenas; uma borboleta que insistiu em pousar em mim rua abaixo, um gato que se escapa de rabo-tipo-escovilhão de um mata velhos, as brincadeiras da bisavó Norvinda.
De repente, a mãe deixou de ver beleza em tudo. Deixou de ver formas nas nuvens. E isto segue há vários meses.

Hoje a mãe ligou à avó Vanda. Seriam cinco e meia da tarde. A avó Vanda tinha uma coisa muito importante para tratar. Mas é a avó Vanda, o que se pode esperar?
- Mãe, onde estás? - Perguntei, quando ela atendeu o telemóvel.
- Olha filha, a mãe está a pescar.
E foi isto.
A avó Vanda a gritar, do outro lado do telefone, embora não estivesse sequer a 1 km geográfico de mim, que estava a pescar.
E a mãe, depois de devolver o telemóvel à mala, pôs-se a pensar.
"Pescar. Fishing. Fishing. My mother is fishing. She is fishing. Fishing. The world is a mess but my mother is fishing".
E ri-me como há muito não me ria.
Sozinha.

sábado, 16 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #55

Uma vez a mãe apaixonou-se por um homem que leu As Aventuras do Robinson Crusoé, as Viagens de Gulliver e A Ilha do Tesouro. A mãe amou-o mais um bocadinho quando ele lhe falou do modo como esses livros lhe influenciaram a visão das coisas; o sabor adocicado da aventura em páginas tão estimadas de literatura.
A mãe quis muito que esse homem de olhar bondoso, esse homem que entrava em chocolatarias comigo e me perguntava "o que queres?" fosse o vosso pai.

Depois dei-me conta de que, vinte e cinco anos desperdiçados com um homem e cinco filhos depois é que a minha mãe, a avó Vanda, é finalmente feliz. Finalmente encontrou, passados cinquenta anos de vida, um homem com quem comunicar lhe é fácil, dar as mãos é fácil, ser uma equipa é fácil. E este homem esperou por ela a vida inteira. Viu-a ter um, três, cinco filhos com outro. Acabar e recomeçar com o outro. Chorar e prejudicar-se pelo outro. E continuou a acarinhar a esperança de a ter. Entre filhos, entre desgostos, lá estava ele, paciente.
E agora a avó Vanda é feliz. Só fala dele, e já estão juntos há um ano. Parecem dois pombinhos ciumentos e muito apaixonados.

Quanto tempo terei de esperar para reencontrar um homem que espere que eu adormeça para soprar, contra o meu ombro, "ti voglio bene"?