Espero que cada um novo signifique que estou mais perto de vocês :)
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #70
Hoje contei cinco cabelos prateados no espaço de uma moeda no meu couro cabeludo.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #69
A mamã quer uma casa que cheire a si. A mamã quer uma casa que cheire a si com um jardim. Uma casa com um jardim onde o cão corra como louco. Uma casa que cheire a si com um jardim onde o cão corra como louco e vocês brinquem. Uma casa que cheire a si com um jardim onde o cão corra como louco, vocês brinquem e o vosso pai brinque convosco.
A mãe faz o que for preciso para chegar a esse jardim e a essa casa de chão de madeira envernizado.
Na cozinha, há cidreira e hortelã.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #68
A mamã viu-vos.
A mamã viu uma coisa preciosa.
Num país de língua germânica, num parque no centro da cidade, os pés do vosso pai de calcanhares assentes nas meias. A mamã odeia pés, mas ama os pés do vosso pai. Verga-se aos pés do vosso pai, cuida deles como se, a partir daí, lhe cuidasse do âmago da alma. Ele sorri, tem rugas, uma mecha de cabelo crespo sobre a testa alta, grisalha. A mamã goza com essa mecha dele. Com essa mecha e com os pêlos prateados que lhe brotam do bigode. E a mamã sorri, e ele ri-se. A mamã não consegue fingir que há algo nele de que não gosta, e ele sabe. Está sentado de calças de ganga, com os pés pálidos sobre as meias cinzentas, e sabe.
E vocês... um mar de cabelo negro, encaracolado, difícil de domar, de braços abertos e pés descalços em corrida sobre a erva húmida. Os vossos pezinhos... (o coração da mamã enternecido por causa dos vossos pezinhos). E um quadrado tão perfeito de afecto que a mamã, da sua aresta, limita-se a cruzar os braços e a observar, feliz.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Carta aos meus filhos #67
A mamã não sabe o que está a acontecer. Perdeu de novo o controlo sobre quem é, o que quer e o que faz.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Carta aos meus filhos #66
A mamã fez vinte e cinco anos.
Tem terror do tempo. Costumava ler livros sobre heroínas sempre mais velhas do que ela própria e agora dá-se conta de que se referem à minha faixa etária como a das solteironas. Não à luz do século XXI, mas à luz dos romances históricos que tanto estimo. A mamã viajou sozinha para Évora, agradecida por algum tempo a sós consigo mesma. Sabem o que a mamã fez? Dormiu. Escreveu três páginas de um romance e dormiu. Deu umas braçadas na piscina e dormiu. Viu a novela com um olho aberto e outro fechado. Depois dormiu.
A mamã começou a experienciar tristeza na dose em que as pessoas normais a sentem. Não desesperante, não angustiante, mas ainda assim tristeza.
A mamã agora dobra a toalha depois do banho. Faz a cama de manhã. Vai às compras e sabe o sítio do azeite nos supermercados.
A biologia, essa velhaca que não se adapta aos tempos modernos, grita-me que seja mãe. Sentada no restaurante "a Baiúca", em Évora, oiço-a gritar.
Mando-a calar-se. Ainda agora me emancipei, ainda nem sei quem é o homem da minha vida... nem quem amo, nem quem deixei de amar...
A mamã sente-se com o peso de mil anos nos ombros.
domingo, 16 de novembro de 2014
Carta aos meus filhos #65
A mamã está a aprender a viver um dia de cada vez, com toda a carga boa e má que isso implica. Na sexta-feira acordei às sete, comecei a trabalhar às oito. Às cinco saí para comprar um roupeiro velhíssimo, que cheirava a casa de velhota com dez gatos mijões. Combinei a entrega e fui dar aulas. A minha sala de aulas está a rebentar pelas costuras. A mamã está a adorar os jogos que jogamos. Chamam-me professorinha e trouxeram-me dois marcadores. Uma vez em casa, às sete e meia, peguei na lixa, na chave de fendas e na lata de tinta e deitei mãos à obra. Lixei o guarda-fato todo e dei-lhe uma camada de tinta por dentro e por fora. A bisavó Norvinda ajudou. Ajuda sempre mais do que lhe peço, tenho de insistir para que se sente e beba um chá, veja um pouco de tv, mas ela vive de ajudar os outros, por isso molha uma vez mais o pincel na tinta e continua a arrepiar caminho nas pinturas. Um dia pode ser que vocês herdem este guarda-fato. Vão achá-lo feio e demodé, mas foi pintado a quatro mãos. No final, até a Ana Filipa puxou lustro aos cantos para salientar o verde. É por isto que a mamá será sempre apegada a ele.
A mãe foi para a cama às tantas tanto na sexta quanto no sábado. Sem falar que, nesta semana, recebi dois alemães lá em casa e fiquei a lavar loiça até às duas da manhã. São coisas que a vida põe no nosso caminho. Os alemães no metro, perdidos, e a mamã a julgar que eram jovens de 20 anos numa espécie de interrail, e a explicar-lhes o que poderiam ver em Almada, e a deliciar-se com as exclamações deles perante as vistas de Lisboa. A mamã deve algo à Alemanha, sabe disso. Por isso convidei-os para jantar. Chamei as amigas e recebi-os. Dei-lhes toalhas e um secador para secarem os pés. Pareciam estupefactos, diziam que era algo impensável na Alemanha, jamais aconteceria. E a mãe gostava de ser daquelas pessoas que marcam pontos de viragem na vida dos outros; de agora em diante, talvez as pessoas confiem mais. Talvez os alemães se dêem mais. Não sei, são pequenas esperanças que me fazem feliz. Ofereceram-me bombons Merci, um anjinho a dizer que sou eu a iluminar-lhes o caminho e rimos muito. Fizémos-lhes bacalhau com natas, pusémos pimba português e descobrimos uma nova faceta dos alemães ao conhecermos o pimba deles também.
Exausta, não pude limpar a casa no sábado, que é o ritual habitual.
Continuei nas pinturas do roupeiro, com ajuda de um par de mãos extra. Limpei a casa toda no domingo, depois de acabar as pinturas do roupeiro. Pu-lo no sítio e fiquei maravilhada com o resultado. Depois foi arrumar a roupa. Tanta tralha insignificante que uma pessoa acumula em quase vinte e cinco anos de existência!
Tudo terminou com um concerto inesperado de James Blunt no domingo, a vida a fazer das suas...
A mamã ama. Ama sem ilusões, ama muito. Contudo atingiu a paz de alma que sempre almejou. A certeza de que não é possível e de que devemos tirar o melhor de cada situação.
A mamã é feliz. No sad goodbyes, no tears, no lies, just going in separate ways. And God knows it is hard to find the one.
A mamã...
Um dia conto-vos.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Carta aos meus filhos #64
Era tão mais fácil se o vosso pai me desse a mão e declarasse que, de agora em diante, somos só os dois...
Mas não, ele anda escondido.
A mãe ficou sem voz de tanto chamar por ele.
Lá vai...
Mais um erro.
Mas não, ele anda escondido.
A mãe ficou sem voz de tanto chamar por ele.
Lá vai...
Mais um erro.
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