O coração da mamã está pesado.
A mãe precisa de um sinal para ir.
Ou de um para ficar.
Mas pairar nas entrelinhas...
A mamã sente-se mal a todas as horas.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #72
A mamã hoje quer
falar-vos dum livro especial.
Chama-se,
por enquanto, “O Escultor” e é de uma autora portuguesa. A mamã está a dar uma
vista de olhos pelo livro e a comunicar as suas opiniões à autora. Nós,
criativos, precisamos dessas coisas para ter uma ideia do que andamos a fazer…
Mas
não é isto que importa. Se o livro estiver na minha estante, e espero que
esteja, abram-no. Podem folheá-lo, por favor? Tu também, meu rapaz. Pode
parecer história de amor mas é importante para a mãe. E tu, minha menina, faz
favor de lê-lo, sim?
Embora
o livro ainda seja apenas um esboço, o casal principal está a fazer a mãe
sentir coisas boas. Houve uma fase da minha vida em que não gostei de ninguém,
e a mera possibilidade de que as pessoas pudessem ser felizes juntas parecia-me
estranha e tentadora. Senti mais ou menos isso ao ler uma cena na esquadra
entre os dois protagonistas. Que duas pessoas possam galgar o abismo entre as
suas almas e encontrar-se no meio… Ó, que ideia vertiginosa, não acham?
Por
esta altura, a mãe já poderia ter começado a escrever um livro chamado “Os
Homens da Minha Vida”. Não falo de casos levianos, mas daquilo que têm sido as
minhas relações com o sexo oposto. O meu pai, o meu avô, o meu irmão, os meus “amantes”.
Dizê-lo assim põem-me de cigarro na mão num retrato a sépia. Os homens que amei…
os homens que amo.
Este
livro e a canção que a autora escolheu para estas duas pessoas opostas, “Thinking
Out Loud” de um Ed Sheeran que está a fazer furor agora, neste minuto, são
ternos. Tão ternos que a mamã pensa que dispensava todas as complicações. Todas
as declarações de amor verbais. Todas as cartas de amor. Todas as lágrimas e
todas as cenas de ciúmes.
A
mamã quer amar o vosso pai assim, e só assim:
Numa
dança lenta, no lusco-fusco, com ternura, respeito e olhos nos olhos. Só isso.
Dispenso todo o resto se ele estiver nesse momento com a intensidade com que lá
estarei.
Sei
que não faz sentido. Mas é o que sinto neste instante.
Agora
vão, vão ler. Vão ouvir a música. Vão puxar o rabo ao cão e testar a paciência
dos gatos…
Amo-vos,
suas pestes J
domingo, 25 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #71
A mamã está bem, mas está confusa.
Aos vinte e cinco anos,
sente-se simultaneamente velha e rejuvenescida. Decidiu que talvez seja a hora
de fazer um trabalho de jovem, uma vida de estrada. Por vocês – posto que o meu
estado natural é na minha cidade, nos braços dos meus amigos, com a minha comida
no estômago e o gato no regaço.
Consegui dedicar-me a
um bom livro, O Deus das Moscas, que
no entanto me recorda da absoluta insignificância que é a bondade no mundo.
Também estou por dentro dos meandros das minhas personagens de Uma Mulher Respeitável, pelo que, em
termos criativos, não tenho como queixar-me.
Regressei agora de uma
viagem de três dias a Londres, satisfatória a tantos níveis…! Não foi apenas
partilhar uma sala com doze pessoas; escoceses, britânicos, noruegueses, catalões,
franceses, lituânios, polacos, alemães e italianos. Foi o assombro de me ver à
vontade, de representar Portugal e de me orgulhar da minha prestação. E de
sentir laivos de carinho e compreensão pelas pessoas que me rodeavam. E de
sentir que deveria fazer parte de algo maior… deveria ser cidadã do Mundo.
Estive, pela primeira
vez, fora do país com a minha querida amiga V. As pessoas conhecem-se melhor
sob pressão, ao final de um dia de longa caminhada, de horas de jejum, do amasso
de um voo. E superar essas provas e ainda assim sorrir, abraçar, cuidar, é algo
de extraordinário. Foi uma nova experiência.
Londres apresentou-se
solarenga, mostrou-se menos tímida, mais bonita desta vez. Picadilly refulgiu
de vida, Green’s Park apresentou esquilos a brincar com pedaços de tronco de
árvore, cisnes tão belos quanto agressivos, a bufar, um lago gélido e paisagem com resquícios de outono. Três amigas num banco a
dividir um lanche perante a superfície gelada do lago e o ondular rítmico dos patos. O
português a dançar-nos na língua e um mundo tão maior do que o da nossa aldeia,
tanto por ver…
Os portugueses emigrados, logo na ida, na fila para o controlo de passaportes à entrada do UK. Queridos, a mamã não é racista. Não contra os negros, não contra os ciganos ou qualquer outra minoria. A mamã tem mãe negra, primos muçulmanos (se bem que o islão não é nenhuma minoria) e amigos ciganos. Mas a mamã odeia quando o estereótipo e a realidade se encontram e, à chegada ao aeroporto de Londres, foi isso que testemunhou. Uma negra horrorosa, magra, olheiras fundas, cabelo lambido por gel, rodeada de crianças barulhentas e mal-educadas, uma provável filha de gorro no alto da moleirinha e cabelo entrançado até à cintura, a encostar o rosto a uma branca inofensiva. Digo uma branca inofensiva, porque há brancas que não o são. Distorceu grotescamente o rosto na direcção da moça, que duvido que falasse português, e deve ter-me nascido um esgar de repulsa na boca. Que nojo. Que vergonha dos meus portugueses que são aquilo!
E o amor? O amor deixa
a mãe a cada dia. É um sopro cada vez mais ténue, que ora regressa em ondas de
calor, de sacrifícios prometidos, ora me abandona de todo e me diz que a vida é
assim; um caminho a percorrer-se sozinho. Por vezes, nas encruzilhadas, alguém
surge e caminha a nosso lado por um bocado. Dá-nos a mão, estendemos-lhe a mão.
Por vezes traz-nos torrões de açúcar, outras o amargo das lágrimas. E
prosseguimos, sós. A mamã perdeu-a: perdeu a capacidade de amar incondicionalmente.
Não foi intencional, mas quando deu por ela já se punha a si em primeiro lugar.
Já nada existe entre mim e o meu amor próprio. Nenhum homem, nenhum expectro.
Nenhum medo.
A mamã nada teme. Tem
um plano c) sólido.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #70
Hoje contei cinco cabelos prateados no espaço de uma moeda no meu couro cabeludo.
Espero que cada um novo signifique que estou mais perto de vocês :)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #69
A mamã quer uma casa que cheire a si. A mamã quer uma casa que cheire a si com um jardim. Uma casa com um jardim onde o cão corra como louco. Uma casa que cheire a si com um jardim onde o cão corra como louco e vocês brinquem. Uma casa que cheire a si com um jardim onde o cão corra como louco, vocês brinquem e o vosso pai brinque convosco.
A mãe faz o que for preciso para chegar a esse jardim e a essa casa de chão de madeira envernizado.
Na cozinha, há cidreira e hortelã.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Carta aos meus filhos #68
A mamã viu-vos.
A mamã viu uma coisa preciosa.
Num país de língua germânica, num parque no centro da cidade, os pés do vosso pai de calcanhares assentes nas meias. A mamã odeia pés, mas ama os pés do vosso pai. Verga-se aos pés do vosso pai, cuida deles como se, a partir daí, lhe cuidasse do âmago da alma. Ele sorri, tem rugas, uma mecha de cabelo crespo sobre a testa alta, grisalha. A mamã goza com essa mecha dele. Com essa mecha e com os pêlos prateados que lhe brotam do bigode. E a mamã sorri, e ele ri-se. A mamã não consegue fingir que há algo nele de que não gosta, e ele sabe. Está sentado de calças de ganga, com os pés pálidos sobre as meias cinzentas, e sabe.
E vocês... um mar de cabelo negro, encaracolado, difícil de domar, de braços abertos e pés descalços em corrida sobre a erva húmida. Os vossos pezinhos... (o coração da mamã enternecido por causa dos vossos pezinhos). E um quadrado tão perfeito de afecto que a mamã, da sua aresta, limita-se a cruzar os braços e a observar, feliz.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Carta aos meus filhos #67
A mamã não sabe o que está a acontecer. Perdeu de novo o controlo sobre quem é, o que quer e o que faz.
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