quarta-feira, 6 de maio de 2015

Carta aos meus filhos #78

Aos vinte e cinco anos, a mamã é o tipo de pessoa que janta na secretária do computador enquanto assiste, pela milésima vez no youtube, aos episódios mais emocionantes da sua novela mexicana favorita. Meto-a em Espanhol e repito com eles:
- Paola, por qué no haces el amor conmigo?
- Porque no puedo, Carlos Daniel.
- Peró por qué no puedes? Yo soy tu marido!
- Yo no soy tu mujer, Carlos Daniel. Yo soy... una usurpadora!
Depois dou-me conta que me esqueci de trazer um guardanapo e a sopa de lentilhas está prestes a escorrer-me pelo queixo. Então corro para o wc e enrolo papel higiénico em torno do pulso. A casa de banho está mais perto do que a cozinha.
La Usurpadora, 1998

terça-feira, 21 de abril de 2015

Carta aos Meus Filhos #77

Algumas lições são mais difíceis de aprender do que outras. A mãe julga ter entendido que o nosso propósito na vida é o de aprendermos a caminhar sozinhos, sem necessitarmos uns dos outros. Uma viagem a sós é uma viagem melhor aproveitada, uma que culmina em aprendizagem e conhecimento superiores acerca de si próprio. Mas é uma viagem em que as gargalhadas ecoam no vazio.
Mesmo sabendo que (julgo que) a vida é uma estrada em que devemos aprender a dar passado a passo sozinhos, munidos da nossa própria precaução, soltando as mãos de quem nos ensinou a andar e de quem se riu connosco lá atrás, a mamã não quer dedicar-se a isso. Não quer fechar-se ainda mais sobre ela própria e virar as costas aos outros bichinhos de conta. Durante o ano passado, passei a maior parte do tempo enrolada sobre mim própria, a verter lágrimas de inconformação quanto à efemeridade de todas as coisas e à tragédia dos amores não correspondidos e dos outros, abandonados à sua sorte e nem por isso menos celebrados ou menos chorados.
A lição a) desprender-se dos outros, é uma que me custa especialmente a absorver. A mãe quer acreditar que a vida são dedos entrelaçados, não dos que nos carregam nos joelhos e pescam por nós, mas dos que estão por ali, cá de baixo mas ligados a nós, enquanto escalamos as nossas montanhas pessoais.  E há beleza em tanta coisa… e a beleza, tal como a felicidade, só são reais se forem partilhadas. Agora que a mamã voltou a discernir a beleza das coisas, o novo massacre será o de contemplá-la em paredes desnudas?
A mamã acredita que, na sua vida anterior, fez algo de muito errado. Algo que dedicou a juventude desta vida a expiar. Pergunto-me quando estarão quitadas as dívidas. Quando será o dia de ser feliz, apenas feliz… sem preocupações de que natureza forem. A mamã está bem, mas não deixa de ser a mamã. E a mamã pensa e (logo) quase dexiste.

Palpita-me que está na hora de seguirmos caminhos opostos. A mamã não sabe se consegue. Na verdade: sabe. Ao fundo do corredor, na caixinha à esquerda do amor enterrado, pulverizado pelos anti-depressivos, pulsa o amor não concretizado. Sobre ele um buraco negro se debruça, disposto a engoli-lo à primeira sacudidela, ao primeiro repique de dor. Depois: nada.

domingo, 29 de março de 2015

Carta aos Meus Filhos #76

A mamã está cansada da vileza das pessoas. Quando julgamos que já foram o pior que poderiam ser, reinventam-se e surpreendem-nos pelo pior uma vez mais.
A mamã tem envelhecido, ficado mais amarga, mais cínica, menos crente. Mas há uma coisa que não muda: a forma como sinto o amor.
E nada se pode comparar à pureza de se querer somente bem a alguém.
A mamã sente o amor por entre as suas arestas, como brisa marítima numa casa de tabuínhas. Força alguma no mundo pode levá-lo de mim. Mesmo sabendo que esse amor poderá não me levar a lado algum, a perspectiva de não o sentir é demasiado assustadora: deixaria de ser eu. Uma vez quase me esvaziei dele... e o que aconteceu? A mamã perdeu-se de si.
Um amor sólido é aquele que nos traz de volta a nós próprios...
A mãe não sofre.
Mas ama. E, quando se ama assim, todo o universo está em harmonia para que nenhum passo em falso magoe aquele que amamos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Carta aos meus filhos #75

A mamã está bem.
Tudo tem corrido relativamente bem; na escrita, nos tempos livres, etc.
Os problemas financeiros estão a regularizar-se e este mês paguei tudo e mais alguma coisa. É uma sensação de alívio enorme!
As gatas continuam malucas e destroem-me a casa toda. À noite enrolam-se na curva do meu braço.
A mamã cortou o cabelo, mas não por causa de um desgosto amoroso, como foi hábito.
Quero fazer amor com o vosso pai.
Tenho medo da possibilidade de nunca vir a fazer amor com o homem da minha vida...
Preciso de fazer exercício. A barriga não pára de crescer e tenho dificuldade em passar as calças nas ancas. Há muita gente que não tem escrúpulos na hora de me chamar gorda. A mamã finge que não se rala muito. Não é que me preocupe em parecer bonita, ou feia. Mas não quero parecer desleixada. A minha vida não é passada no sofá, como a minha forma pode levar a crer...



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Carta aos meus filhos #74

Não cheguei a falar-vos da antiga loja de têxteis para o lar que havia numa adjacente à D. Nuno Álvares Pereira. Não tivesse fechado e não teria nada a dizer: mas fechou. Quando era pequena, passava em frente dela e lia religiosamente os nomes de crianças impressas nas toalhas e nas mantinhas de lã. Atravessava a estrada, que me parecia tão grande, para poder ler esses nomes eternizados no tecido. Dizia que, se o nome dos meus filhos, escolhidos desde sempre, estivessem la, então é porque acabaria por ter-vos um dia. Agora a loja fechou, a montra está empoeirada e no interior nem cartões, nem contas acumuladas. Nada. Algures, num armazém, o espólio de toalhas e lençóis bordados que não serão para ninguém. 
Vim a um bar diferente, junto à Avenida da Liberdade. Uma vez, no Terreiro do Paço, beijei o meu amor. Ele era tímido e não gostava de demonstrações públicas de afecto. Mas eu expliquei-lhe como a praça é importante para a história do meu país e, consequentemente, como era importante para mim beijá-lo aí. 
Mas falava-vos da Avenida da Liberdade, com o seu desfile de marcas internacionais. Desde que nasci nunca a vi tão bonita como agora, nem tão inalcançável. Já fiz amor na Avenida da Liberdade. Mas agora, estou apenas num bar abrigado das estrelas, sendo que as mesmas rodopiam, no tecto lilás, enquanto tocam os ditos clássicos desta geração.
A mamã ficou de coração partido quando viu a loja fechada, e toca a karma police, durante tanto tempo a minha música. A vida segue e a mãe tem de correr, ou fica para trás. O vosso pai não me quer. A mãe não o quer. Ainda não. Mas esse não nos querermos corrói a mamã por dentro. Em breve a mãe desfaz-se em cinzas. As pessoas entram e saem das nossas vidas, raras vezes deixam algo de bom. É mais uma sensação agridoce quando desaparecem e, através da imobilidade lhes adivinhamos as vivências vazias, vazias como as nossas. For a minute there I lost myself. A mamã sabe que o seu coração, em vez de ter expandido, só tem encolhido por conta dos desaires de amor e desamor. Amor e ódios tão íntimos que se distorcem no espaço exímio dos ventriculos. A mamã não tem mais forças. Nem para amar, nem para odiar, nem para se tentar entender, e muito menos para se explicar. 
Hoje vim sair para um bar onde nunca tinhamos vindo e, quando se amou alguém que se teve, a pessoa é como um fantasma, um expectro que caminha a nosso lado, que vem connosco aos sítios onde fomos felizes, que se despede de nós nas estações onde um dia nos separámos, onde um dia contámos as moedas e pelejámos por quem pagava a viagem. Uma vez vi-me reflectida na janela de um comboio, e ele ia sentado à minha frente. E eu olhava o nosso reflexo na janela, a noite caía lá fora, e ele olhava para mim. E eu, que tola, pensei que quando alguém nos olha assim, nunca mais deixa de querer olhar-nos de um modo qualquer. Por isso vos digo agora que a loja onde um dia vi os vossos nomes bordados em turcos coloridos fechou. E um dia abracei e beijei o meu amor no Terreiro de Paço. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carta aos meus filhos #73

O coração da mamã está pesado.
A mãe precisa de um sinal para ir.
Ou de um para ficar.
Mas pairar nas entrelinhas...
A mamã sente-se mal a todas as horas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Carta aos meus filhos #72

A mamã hoje quer falar-vos dum livro especial.
Chama-se, por enquanto, “O Escultor” e é de uma autora portuguesa. A mamã está a dar uma vista de olhos pelo livro e a comunicar as suas opiniões à autora. Nós, criativos, precisamos dessas coisas para ter uma ideia do que andamos a fazer…
Mas não é isto que importa. Se o livro estiver na minha estante, e espero que esteja,  abram-no. Podem folheá-lo, por favor? Tu também, meu rapaz. Pode parecer história de amor mas é importante para a mãe. E tu, minha menina, faz favor de lê-lo, sim?
Embora o livro ainda seja apenas um esboço, o casal principal está a fazer a mãe sentir coisas boas. Houve uma fase da minha vida em que não gostei de ninguém, e a mera possibilidade de que as pessoas pudessem ser felizes juntas parecia-me estranha e tentadora. Senti mais ou menos isso ao ler uma cena na esquadra entre os dois protagonistas. Que duas pessoas possam galgar o abismo entre as suas almas e encontrar-se no meio… Ó, que ideia vertiginosa, não acham?
Por esta altura, a mãe já poderia ter começado a escrever um livro chamado “Os Homens da Minha Vida”. Não falo de casos levianos, mas daquilo que têm sido as minhas relações com o sexo oposto. O meu pai, o meu avô, o meu irmão, os meus “amantes”. Dizê-lo assim põem-me de cigarro na mão num retrato a sépia. Os homens que amei… os homens que amo.
Este livro e a canção que a autora escolheu para estas duas pessoas opostas, “Thinking Out Loud” de um Ed Sheeran que está a fazer furor agora, neste minuto, são ternos. Tão ternos que a mamã pensa que dispensava todas as complicações. Todas as declarações de amor verbais. Todas as cartas de amor. Todas as lágrimas e todas as cenas de ciúmes.
A mamã quer amar o vosso pai assim, e só assim:
Numa dança lenta, no lusco-fusco, com ternura, respeito e olhos nos olhos. Só isso. Dispenso todo o resto se ele estiver nesse momento com a intensidade com que lá estarei.
Sei que não faz sentido. Mas é o que sinto neste instante.
Agora vão, vão ler. Vão ouvir a música. Vão puxar o rabo ao cão e testar a paciência dos gatos…

Amo-vos, suas pestes J