segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Carta aos meus filhos #88



O último mês tem sido surrealista. Daqui a dois dias, faz um mês (31 dias) que a mamã está a trabalhar sem descanso. Vamos totalizar estes dias em horas de trabalho: 248 horas, e isto supondo que só trabalhei 8 horas por dia, coisa que deve ter sido mais excepção do que regra. Significa que, no último mês, a mamã trabalhou pelo menos 250 horas… Há 29 dias que não sei o que é ir almoçar onde me apetece, ou andar de pijama o dia todo por casa, ou deitar-me duas horas mais tarde para poder ver um filme, ou para terminar um livro de enfiada. O balanço negativo é que falhei, pela primeira vez, o aniversário da Vanessa, uma amizade com pelo menos doze anos de aniversários sempre celebrados juntas… E também que houve momentos em que julguei que desfalecia de terror ou de exaustão. A RATALMA (empresa de táxis de Almada) deve ter dado bónus a todos os seus taxistas por causa desta cliente, que praticamente todos os fins-de-semana lhes ligava por volta das 07:00 para pedir um taxi para Cacilhas...
O balanço positivo é impossível de enumerar:
- Descobri capacidades que desconhecia;
- Conheci pessoas espectaculares com a mesma capacidade de trabalho que eu e outras com capacidades superiores;
- Descobri que posso conduzir o meu cérebro como quiser, o leme está afinado, a direcção idem, e consigo ir onde quiser desde que me convença pelo prisma correcto;
- Ganhei muito dinheiro e investi-o na casa de banho, o que espero que mais tarde se traduza numa casa mais confortável para vocês, filhotes;
- Como a casa de banho estava em obras, tomei banho nos horários mais esquisitos na casa da avó N., o que significa que não há um momento ideal para nos pormos a mexer em direcção a melhorias em casa ou na nossa vida em geral, nada da preguiça do "agora vêm as chuvas", ou "estou demasiado ocupado para mover as tralhas e escavacar as paredes";
- No meio do frenesim, adquiri conhecimentos preciosos sobre o meu país e fui a inúmeros sítios, alguns foram mesmo pisados várias vezes;
- Fui a Santiago de Compostela, conheci outra alma que anda neste caminho há tanto tempo quanto eu, e fiquei a arder por percorrer as estradas do Caminho de Santiago;
- Aperfeiçoei imenso o meu italiano;
- Conheci italianos de Veneza, italianos de Piemonte, italianos da Puglia, polacos, espanhóis, galegos, alemães de Munich, de Colónia, de Frankfurt, franceses de Lyon, etc., etc...
- Por muito que te esforces, haverá sempre quem ache que deverias ter-te esforçado mais: mas nada de nos irmos abaixo, o nosso limite só nós conhecemos;
- Li um livro inteiro, por muito que seja um romance light - tinha 420 páginas, por isso repensem bem se não lêem por falta de tempo;
- Comecei o Mestrado em História Contemporânea, com as dores de cabeça e dúvidas que daí hão de advir;
- Consegui sorrir, no meio disto tudo;
- Não chorei;
- VOTEI!, por isso, se voei da Batalha para Almada para votar, e se às 17:30 ainda estava em Alcoentre à beira da estrada, de braços cruzados, enquanto se decidia quem ficava em terra por falta de bilhete e quem embarcava no Expresso (sendo que a mamã viajou no lugar do guia!!!), não há motivo para nos estarmos a marimbar para o futuro do nosso país e dos nosso FILHOS.
A mamã tem a força de mil homens! :)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Carta aos meus filhos #87

A mamã está a trabalhar como louca. Não tem dois minutos parada. Trabalha a tempo inteiro e adora o que faz. Depois vai para casa escrever. Ou pesquisar. Ou ler. Ou corrigir livros doutrem. Nunca estou quieta, passo, inclusive, alguns dos meus fins-de-semana com turistas em Lisboa, a calcorrear a calçada portuguesa. No mês que vem vou fazer o meu primeiro tour de sempre… Estou nervosa, sobretudo porque é italiano. Mas consigo. Se não conseguir, tentei. Daqui a dois meses, além disso ainda tenho um Mestrado a decorrer e aulas de inglês a preparar...

A mamã olhou para dentro de si durante dois segundos, só para acariciar esse amor tão tenro que tenho cá dentro. Quem me dera abraçá-lo… Quem me dera beijar-lhe as pálpebras molhadas, encostar o peito ao dele, gelado, e buscar calor na curva do seu ombro. Quem me dera que anoitecesse e eu tivesse a mão dele à distância de um passo e o cantar dos grilos nos embalasse…


Vou trabalhar.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Carta aos meus filhos #86

A mãe morre de amores pelo vosso pai. Pela barba do vosso pai. Pelas mãos permanentemente suadas. Pela voz meio áspera, pelo modo como fecha os olhos quando canta e lhe nasce uma veia na garganta. A mãe adora a cor do cabelo do vosso pai, e uma vez jura que lhe viu um rasgo de mel nas íris castanhas. E o desenho da boca do vosso pai? Juro que nem eu teria sido capaz de desenhar uma harmonia mais perfeita. É tão grande, o vosso pai. Não cabe no peito da mamã nem no universo ao nosso redor. A mamã pôs-se a ouvir uma música que a recordou dele e dos pelos negros da sua barba. O coração incha, como que mergulhado num melaço impossível de remover. As gavetas abrem-se e eu amo-o. O mundo acaba e eu amo-o. Porque é que a vida nos condenou a menos? Porque é que o vosso pai não pode ser vosso pai? Era este homem que queria que vos carregasse às cavalitas e vos desse castigos, e vos ensinasse boas maneiras, e vos inscrevesse nas actividades extra-curriculares, e vos protegesse da minha fúria com um sorriso e um piscar de olhos nas minhas costas. A mamã ama o vosso pai mais do que à própria vida (não importa que tenha pouco amor à própria vida, eu amo o vosso pai até ao fim da galáxia e de volta). 

terça-feira, 28 de julho de 2015

Carta aos meus filhos #85


A mamã está magoada, hoje. Alguns dias doem mais do que outros. Porque é que o amor tem de ser uma substância composta? Porque é que existem diferentes tipos de amor? Porque é que duas pessoas que se amam não podem, simplesmente, fazer-se bem a todas as horas, do modo que lhes aprouver?

Porque é que colocaram a mamã no coro? Porque é que me deram voz mas me deixaram aqui, tão longe das cabeças que vivem lá em baixo? Porque é que a vida não me permite que pare de cantar estas ladainhas sobre lutar-se pelo que se quer? Será que algum dia a mamã se vai deixar de tretas e vai tomar um rumo? Seguir o seu próprio conselho? 

Porque é que as pessoas que se amam, quanto mais se amam (na proporção em que se amam) mais condenadas estão a que se interponham mares e tempestades entre elas?

Quando ele me disse, deitados lado a lado, "não te aproximes tanto, porque assim não te consigo ver", e as pontas dos nossos narizes se separaram para os olhos se encontrarem, porque é que não parou tudo? Porque é que que não ficámos só ali? Não tinha de ser um amor daqueles que começam ou acabam guerras. Já vivi um assim e perdi. Não tem de ser um amor que nos vire do avesso e nos exponha as entranhas. Era só aquele doce encontro das nossas vozes, numa língua que não é a de nenhum de nós, enquanto ele me pedia que lhe lesse um trecho de um meu romance e eu lho lia, sabendo que não entendia. Porque não ficámos lá? Ele embalado no enigma das minhas palavras, eu no modo reverente como me ia afastando o cabelo para trás da orelha para me ver enquanto me ouvia. O silêncio ao nosso redor, a paz, um instante que não acabava mais, que pareceu eterno, enquanto eu lia estendida de barriga e ele afastava as mangas do pijama para me poder mexer no cabelo.

Porque não ficámos perante aquela montra de doces de massapão, indecisos, enquanto insistias para que eu pedisse tudo o que quisesse, e eu o pedia por mim e por ti, porque sabia que fingias um controlo que a tua gula contrariava?

Porque não ficámos naquele beijo sobre as pipas, em que não cessávamos de nos procurar outra vez, em que o teu telefone não tocou e eu não tive de cruzar os braços e esconder os olhos húmidos atrás do cabelo?

Ou porque não ficámos naquele banho em que reparei que a tua pele tem manchinhas cinzentas e me tentaste explicar o efeito da idade sobre ela por caminhos sinuosos, porque não sabias dizer-me o nome da doença.

Se tivesse de escolher um momento e ficar lá para sempre, mesmo sem os foguetes de um amor tchan nem os dissabores de um amor plim, escolhia aquele em que abrimos os casacos em simultâneo, naquela noite madrilena em que os termómetros andavam pelos quatro graus, e nos rimos um do outro. Lembras-te? Tínhamos prometido vestir-nos às escondidas um do outro, eu na casa de banho e tu no quarto. Depois caminhámos até ao restaurante e sentámo-nos perante as bebidas. Só quando a nossa mesa ficou vaga é que finalmente revelámos como nos havíamos aprumado para o outro. Lembras-te de dizeres que éramos as pessoas mais bonitas do bar? Sabes que tinha o meu batom bordô, depois se dias em que nunca usei maquilhagem, porque urgia que me aceitasses como sou e que acordasses ao lado do rosto com que te havias deitado?

Lembras-te de como gozei com o teu papillon, mas de olhos rasos de lágrimas porque te achava tão estupidamente adorável nesse esforço para me impressionar?

Lembras-te de dizeres que tinhas saudades minhas, e eu respondia "eu também", e tu dizias "não tens de o dizer só porque to disse primeiro". E como ficava surpreendida por não veres a minha urgência em provar-te que era verdade...

Sabes, não estou certa do momento em que acabámos. Não foi quando me beijaste de madrugada e foste até à porta, de trolley em punho, e eu não consegui levantar-me da cama para te ver desaparecer no corredor. Não foi quando disseste que não tinhas tempo para falar comigo.

Acho que foi daquela vez que tentaste explicar-me que a tua vida era hiper ocupada e que um dia, quando o tempo te sobejasse, voltarias para me fazer feliz. Fiquei presa à tua despedida, às tuas últimas palavras ao deixar-me em silêncio:

- Goodnight princess.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Carta aos meus filhos #84

24/07/2015


A mamã odeia o McDonald’s, mas o que é verdade é que acaba sempre por lá ir. Talvez tenha perdido a capacidade de me reinventar, pois deixo sempre que o mesmo me surpreenda:
Os velhinhos que falam alto, porque estão ambos surdos, perante um tabuleiro com batatas fritas e um refrigerante, que dividem. O marido que se oferece para despejar o tabuleiro no final, este é do tempo dos cavalheiros, e a mulher que, a custo, o segue em passos incertos para garantir que não lhe cai nada.
A quantidade de crianças trazidas pelos pais e pelos avós, a engolir estas batatas rançosas e estes hambúrgueres cujo pão está ensopado em açúcar. E o meu resmungo, entredentes, devia ser proibido deixar entrar crianças aqui… Se fossem meus filhos! E as mães para o filho, lambuzado de ketchup, se não acabares o hambúrguer não há gelado! E eu, ácida, melhor para ele.
Levo à boca mais uma colher do gelado que derrete, enquanto recordo também o Pingo Doce, as filas intermináveis do Pingo Doce. À minha frente, um rapaz de oito ou nove anos sorve o conteúdo de uma lata enorme de “Monster” nas costas da mãe. Depois pula, trepa o separador metálico das duas filas e a mãe sibila, num português incorrecto um desce daí pá, estás incomodar pessoas, só para fingir que tem mão nele. E o miúdo crava em mim os olhões dilatados de um verde surreal, por entre as sardas e sob a pala do boné. De rosto corado, dedica-me um sorriso certeiro, como se me ouvisse os pensamentos: esta mãe deixa-o beber um energético enquanto reclama da sua inabilidade para ficar quieto.
E, na caixa ao lado, duas velhas a passar à frente de todos, de batom e permanente de sábado passado: obrigadinha, é só mesmo o pão. E eu, mal-humorada, com tanta padaria…
E a senhora da caixa para a velha: Não se vá embora, então não tenho que lhe dar cinco euros de troco? E a velha dá um golpe seco na própria testa (a franja não mexe) e tartamudeia um ah pois é! E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias. E a velha pega nos cinco euros e já vai junto ao segurança quando a mulher da caixa, exasperada, exausta, porque é isto todos os dias: Olhe! Não fuja, então não deixou aqui esta nota de dez euros? E a velha olha para trás: Eu? E bate na testa (a franja não mexe) – Ah! (revira o porta-moedas) É minha, é!
E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias.

A mamã escreve isto enquanto come um gelado no McDonald’s, sabendo que envelhece a cada instante.

domingo, 5 de julho de 2015

Carta aos meus filhos #83

Acham que a mãe está a conseguir fingir bem que é feliz?
Deixem-me descrever-vos o que pode acontecer:
Vocês são jovens, têm os vossos vícios e manias. Dificilmente se apegam a alguém.
A mãe conseguiu ultrapassar esse obstáculo duas vezes. Da primeira vez, quase morri quando acabou. Nunca tinha sido tão feliz e nem podia acreditar que fosse possível ser-se.
Desta vez não houve ilusões: a mamã cometeu a estupidez de se apaixonar de novo. Sabe que ainda consegue desligar esses fusíveis no seu peito, mas não é isso que importa. Algumas pessoas gostam de ser infelizes. Gostam de viver a recordar o passado. A mamã já viveu de recordar (e escrever e reescrever o passado). O que importa é que, a cada vez que a mamã se engana, a cada vez que a mamã sofre, a cada vez que não me amam de volta, fico mais longe de vocês. Tenho menos coragem para ficar e ver no que isto dá.
A mamã pode ser muito egoísta quando diz que só quer ser feliz… Na realidade quero uma casa sem discussões, com um amor silencioso que viva da paz intrínseca a duas pessoas que não vão a lado nenhum.
A mãe sente uma agonia constante. Apetece-me chorar (o que é trágico). Apetece-me dormir (trágico ao quadrado). Apetece-me desaparecer (trágico ao cubo).
Acho que entendem a ideia.

O cão preto meteu-se a uivar e a mamã sabe que, desta vez, não vai a lugar nenhum. Sou dele.


sábado, 4 de julho de 2015

Carta aos meus filhos #82

Hoje a mamã olhou-se nos olhos e entendeu:
Eu não vou sobreviver a isto.
É tudo demasiado duro.
Desculpem...

terça-feira, 23 de junho de 2015

Carta aos meus filhos #81




Perdoem-me, meus amores, porque é contra a vossa vida que atento. Mas há dias em que a mamã acha que nada vale a pena - tudo passa. A felicidade, a dor, a morte. Tudo se encerra e a roda gigantesca do mundo prossegue. Sabe-se lá o que, de nosso, ficou para trás. O coração da mamã não quer sofrer mais, mas sabe que há-de sofrer sempre. Hei de apaixonar-me sempre, hei de abraçar mil e uma causas perdidas. E o miado do pobre gatinho fica-me nos ouvidos, e as entranhas ardem-me de arrependimento. A mamã é fraca. A mamã é forte. Tão forte que se mete sempre de pé, e depois volta a ser derrubada. A mamã ama, deseja, almeja, estende a mão, dá-a à palmatória, vira o rosto e deixa-se esbofetear de novo. A mamã não aprende. Nunca vai ser feliz porque é naturalmente insatisfeita. Está-me no ADN. Talvez quando vocês vierem eu consiga ser feliz nos vossos risos. Talvez aí tenha um propósito maior. Não quero ser redutora nem dizer que a minha vida é somente o terreno onde vos cultivo. A mamã é independente (qb) e aventureira (qb) e mesmo que vocês me exijam os braços, as minhas mãos serão sempre da escrita. Não planeio planar sobre vocês, mas ter-vos e soprar-vos vida é o que mais almejo. E depois encerro-me aqui, por entre os sulcos nos olhares de quem os filhos ignoram e a quem os filhos anteciparam na morte, e parece-me que os passeios pelos montes e os almoços à beira rio são uma vida vazia de sentido, um modo de queimar tempo até ao esgotar do dito. Hoje entrei meio de rompante na casa de uma senhora, surpreendi-a num choro silencioso. Afaguei-lhe o rosto e quanto mais o meu polegar lhe dançava nas lágrimas, mais ela sorria e fingia não chorar. Ai, os troçolhos. Ai, os pólens. Isto das alergias é tramado. Ai espalhei o creme nas pernas e levei as mãos à vista. E eu a desenhar-lhe a tristeza com os dedos na feição sorridente, e os olhos que fogem dos meus porque a alma não mente.
Morreu-lhe o filho, sabe-se lá há quantas décadas. E aquele a quem morreu um filho tem sempre motivo para chorar, não é preciso vir o polén nem a conjuntivite. 
Um beijo no rosto e deixo-a no seu desalento. O dela é incompreensível, o meu é de cagarola. De pessoa que receia que a felicidade nunca a encontre e que, não me vindo filhos, não me venha também tristeza e que o meu choro seja sempre estéril de motivo. E que nunca os polegares de ninguém tracem as minhas lágrimas ocas, e que o meu pranto ecoe sempre na incompreensão de quem me acha de costas voltadas para o riso fácil.
A mamã tem um feitio do caraças: que venha espírito que me dobre e que me vença o alento de não me deixar sucumbir a um contentamento maior. Que estilhace o muro da minha certeza de que os dias não farão sentido, prove-me errada e leve este nada de que me embriago a todas as horas.

domingo, 21 de junho de 2015

Carta aos Meus Filhos #80

A mamã fez a mala e vai partir.
Mais importante do que levo, é o que não levo:
Não levo maquilhagem.
Não levo perfume.
Não levo relógio.
Não levo creme hidratante para a cara.
Não levo verniz.
A mamã está tão cansada...


Levo Norah Jones e o primeiro CD dos Coldplay para me levarem aos meandros da minha idade romântica, quando acreditava que, mesmo que o mundo colapsasse, saberíamos onde encontrar felicidade.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Carta aos Meus Filhos #79


A mamã pensa na vida a um ritmo diferente.
Vira-se para o lado e continua a ouvir Cat Power.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Carta aos meus filhos #78

Aos vinte e cinco anos, a mamã é o tipo de pessoa que janta na secretária do computador enquanto assiste, pela milésima vez no youtube, aos episódios mais emocionantes da sua novela mexicana favorita. Meto-a em Espanhol e repito com eles:
- Paola, por qué no haces el amor conmigo?
- Porque no puedo, Carlos Daniel.
- Peró por qué no puedes? Yo soy tu marido!
- Yo no soy tu mujer, Carlos Daniel. Yo soy... una usurpadora!
Depois dou-me conta que me esqueci de trazer um guardanapo e a sopa de lentilhas está prestes a escorrer-me pelo queixo. Então corro para o wc e enrolo papel higiénico em torno do pulso. A casa de banho está mais perto do que a cozinha.
La Usurpadora, 1998

terça-feira, 21 de abril de 2015

Carta aos Meus Filhos #77

Algumas lições são mais difíceis de aprender do que outras. A mãe julga ter entendido que o nosso propósito na vida é o de aprendermos a caminhar sozinhos, sem necessitarmos uns dos outros. Uma viagem a sós é uma viagem melhor aproveitada, uma que culmina em aprendizagem e conhecimento superiores acerca de si próprio. Mas é uma viagem em que as gargalhadas ecoam no vazio.
Mesmo sabendo que (julgo que) a vida é uma estrada em que devemos aprender a dar passado a passo sozinhos, munidos da nossa própria precaução, soltando as mãos de quem nos ensinou a andar e de quem se riu connosco lá atrás, a mamã não quer dedicar-se a isso. Não quer fechar-se ainda mais sobre ela própria e virar as costas aos outros bichinhos de conta. Durante o ano passado, passei a maior parte do tempo enrolada sobre mim própria, a verter lágrimas de inconformação quanto à efemeridade de todas as coisas e à tragédia dos amores não correspondidos e dos outros, abandonados à sua sorte e nem por isso menos celebrados ou menos chorados.
A lição a) desprender-se dos outros, é uma que me custa especialmente a absorver. A mãe quer acreditar que a vida são dedos entrelaçados, não dos que nos carregam nos joelhos e pescam por nós, mas dos que estão por ali, cá de baixo mas ligados a nós, enquanto escalamos as nossas montanhas pessoais.  E há beleza em tanta coisa… e a beleza, tal como a felicidade, só são reais se forem partilhadas. Agora que a mamã voltou a discernir a beleza das coisas, o novo massacre será o de contemplá-la em paredes desnudas?
A mamã acredita que, na sua vida anterior, fez algo de muito errado. Algo que dedicou a juventude desta vida a expiar. Pergunto-me quando estarão quitadas as dívidas. Quando será o dia de ser feliz, apenas feliz… sem preocupações de que natureza forem. A mamã está bem, mas não deixa de ser a mamã. E a mamã pensa e (logo) quase dexiste.

Palpita-me que está na hora de seguirmos caminhos opostos. A mamã não sabe se consegue. Na verdade: sabe. Ao fundo do corredor, na caixinha à esquerda do amor enterrado, pulverizado pelos anti-depressivos, pulsa o amor não concretizado. Sobre ele um buraco negro se debruça, disposto a engoli-lo à primeira sacudidela, ao primeiro repique de dor. Depois: nada.

domingo, 29 de março de 2015

Carta aos Meus Filhos #76

A mamã está cansada da vileza das pessoas. Quando julgamos que já foram o pior que poderiam ser, reinventam-se e surpreendem-nos pelo pior uma vez mais.
A mamã tem envelhecido, ficado mais amarga, mais cínica, menos crente. Mas há uma coisa que não muda: a forma como sinto o amor.
E nada se pode comparar à pureza de se querer somente bem a alguém.
A mamã sente o amor por entre as suas arestas, como brisa marítima numa casa de tabuínhas. Força alguma no mundo pode levá-lo de mim. Mesmo sabendo que esse amor poderá não me levar a lado algum, a perspectiva de não o sentir é demasiado assustadora: deixaria de ser eu. Uma vez quase me esvaziei dele... e o que aconteceu? A mamã perdeu-se de si.
Um amor sólido é aquele que nos traz de volta a nós próprios...
A mãe não sofre.
Mas ama. E, quando se ama assim, todo o universo está em harmonia para que nenhum passo em falso magoe aquele que amamos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Carta aos meus filhos #75

A mamã está bem.
Tudo tem corrido relativamente bem; na escrita, nos tempos livres, etc.
Os problemas financeiros estão a regularizar-se e este mês paguei tudo e mais alguma coisa. É uma sensação de alívio enorme!
As gatas continuam malucas e destroem-me a casa toda. À noite enrolam-se na curva do meu braço.
A mamã cortou o cabelo, mas não por causa de um desgosto amoroso, como foi hábito.
Quero fazer amor com o vosso pai.
Tenho medo da possibilidade de nunca vir a fazer amor com o homem da minha vida...
Preciso de fazer exercício. A barriga não pára de crescer e tenho dificuldade em passar as calças nas ancas. Há muita gente que não tem escrúpulos na hora de me chamar gorda. A mamã finge que não se rala muito. Não é que me preocupe em parecer bonita, ou feia. Mas não quero parecer desleixada. A minha vida não é passada no sofá, como a minha forma pode levar a crer...



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Carta aos meus filhos #74

Não cheguei a falar-vos da antiga loja de têxteis para o lar que havia numa adjacente à D. Nuno Álvares Pereira. Não tivesse fechado e não teria nada a dizer: mas fechou. Quando era pequena, passava em frente dela e lia religiosamente os nomes de crianças impressas nas toalhas e nas mantinhas de lã. Atravessava a estrada, que me parecia tão grande, para poder ler esses nomes eternizados no tecido. Dizia que, se o nome dos meus filhos, escolhidos desde sempre, estivessem la, então é porque acabaria por ter-vos um dia. Agora a loja fechou, a montra está empoeirada e no interior nem cartões, nem contas acumuladas. Nada. Algures, num armazém, o espólio de toalhas e lençóis bordados que não serão para ninguém. 
Vim a um bar diferente, junto à Avenida da Liberdade. Uma vez, no Terreiro do Paço, beijei o meu amor. Ele era tímido e não gostava de demonstrações públicas de afecto. Mas eu expliquei-lhe como a praça é importante para a história do meu país e, consequentemente, como era importante para mim beijá-lo aí. 
Mas falava-vos da Avenida da Liberdade, com o seu desfile de marcas internacionais. Desde que nasci nunca a vi tão bonita como agora, nem tão inalcançável. Já fiz amor na Avenida da Liberdade. Mas agora, estou apenas num bar abrigado das estrelas, sendo que as mesmas rodopiam, no tecto lilás, enquanto tocam os ditos clássicos desta geração.
A mamã ficou de coração partido quando viu a loja fechada, e toca a karma police, durante tanto tempo a minha música. A vida segue e a mãe tem de correr, ou fica para trás. O vosso pai não me quer. A mãe não o quer. Ainda não. Mas esse não nos querermos corrói a mamã por dentro. Em breve a mãe desfaz-se em cinzas. As pessoas entram e saem das nossas vidas, raras vezes deixam algo de bom. É mais uma sensação agridoce quando desaparecem e, através da imobilidade lhes adivinhamos as vivências vazias, vazias como as nossas. For a minute there I lost myself. A mamã sabe que o seu coração, em vez de ter expandido, só tem encolhido por conta dos desaires de amor e desamor. Amor e ódios tão íntimos que se distorcem no espaço exímio dos ventriculos. A mamã não tem mais forças. Nem para amar, nem para odiar, nem para se tentar entender, e muito menos para se explicar. 
Hoje vim sair para um bar onde nunca tinhamos vindo e, quando se amou alguém que se teve, a pessoa é como um fantasma, um expectro que caminha a nosso lado, que vem connosco aos sítios onde fomos felizes, que se despede de nós nas estações onde um dia nos separámos, onde um dia contámos as moedas e pelejámos por quem pagava a viagem. Uma vez vi-me reflectida na janela de um comboio, e ele ia sentado à minha frente. E eu olhava o nosso reflexo na janela, a noite caía lá fora, e ele olhava para mim. E eu, que tola, pensei que quando alguém nos olha assim, nunca mais deixa de querer olhar-nos de um modo qualquer. Por isso vos digo agora que a loja onde um dia vi os vossos nomes bordados em turcos coloridos fechou. E um dia abracei e beijei o meu amor no Terreiro de Paço. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carta aos meus filhos #73

O coração da mamã está pesado.
A mãe precisa de um sinal para ir.
Ou de um para ficar.
Mas pairar nas entrelinhas...
A mamã sente-se mal a todas as horas.