quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta aos meus filhos #93

A mamã está a aprender a viver sem amor.

Hoje Portugal foi classificado para a final do Euro 2016. Passaram doze anos desde que nos vimos em tal posição. Folheei o meu último livro publicado e encontrei um bilhete do Santiago Bernabeu, fevereiro de 2014. Foi aí que testemunhei o meu último relance de amor. Mas mais puro ainda, em Novembro do ano anterior.

A mamã, de camisa de dormir de algodão, estendida ao lado dele. Tinha-lhe oferecido o meu segundo livro, mesmo sabendo que ele não teria como o ler. Como ele era um homem solene, especial, demorou muito sentado na beira da cama, com ele entre os dedos, a estudar-lhe o peso, a capa, e a tentar deslindar o significado de algumas das palavras na sinopse. Afinal, os nossos antepassados falavam Latim.

Depois, respirando fundo, agradeceu. Estendemo-nos sobre a colcha, eu a escrever-lhe a dedicatória interminável que me pediu - quem me dera poder ler agora essas palavras, só para me dar conta de que também os afectos vêm e passam, e de que o que brotou de mim tão forte e se pôs sem resistência poderá voltar a acontecer quanto a outros homens solenes.

Mas falava-vos de amor. Se a mamã pudesse descrever o amor num momento - e mesmo sendo este um amor de momento, de circunstância, que serviu de bálsamo a um outro maior - a mamã pegaria nesse serão, porque outros semelhantes não os houve.

Deitada de barriga, acedi a ler-lhe um excerto do livro na língua em que foi escrito. Deitado de costas, ele ouvia o português a ecoar nas paredes de um quarto em silêncio, numa cidade em silêncio, e ostentava um sorriso na suavidade dos lábios. Ouvia, não entendia, mas ainda assim sorria. E a mamã leu um parágrafo, dois, uma página, duas, e ele não tirava os olhos dessas palavras desconhecidas, assim como não tirava o sorriso de condescendência do semblante, e a mamã daria tudo para ser assim feliz de novo.
Há quanto tempo um beijo não significa alguma coisa? Um beijo pode ser outro modo de fazer ecoar-se a alma nos outros.
E hoje falou-se de beijos.
E de tudo o que me dói, isso é o que me dói mais.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Carta às minhas filhas #92


Hoje vou escrever sobre o amor, o sexo e os homens. Em 2016, se uma mulher gostar de um homem durante demasiado tempo, e ele não retribuir o sentimento, ela é uma rejeitada. Há-de ser vítima de risos, de dedos apontados, de piadas atrás de piadas. Os amigos que tiverem pena, não quiserem partir-vos o coração, vão dizer que vai acabar tudo bem. Quem tiver predilecção pelas pequenas crueldades, vai rir-se e esfregar-vos na cara o nome da sua última conquista e as posições em que têm dormido juntos. Tudo isto deve ser ignorado: afastem-se do ruído e sintam o que a vossa consciência já sabe.
Como sei que serão fortes, se isto acontecer convosco, agarrem-se ao facto de saberem que um grama de amor genuíno é o vosso maior triunfo e tesouro, mais raro no mundo do que o petróleo pelo qual tantos esgrimam. De certa forma, o tipo que amarem é um privilegiado. Mal o dele se não se dá conta disso e ainda sai pelas ruas a queixar-se que está tudo perdido porque as pessoas são incapazes de amar. Ou talvez seja uma daquelas pessoas tão obcecadas com ser diferentes que se perdem de si próprias e deixam de saber reconhecer o bem quando este lhes é dirigido.
Muitas vezes, isso será o vosso único consolo. Saberem que são capazes de amar quando tantos se sentem perdidos quanto a afectos. Não condenando quem se apaixone muito, ou com facilidade, ou quem tenha várias relações “assumidas”, toda a gente acha mais natural que uma rapariga de 25 anos tenha tido cinco namorados do que achará se souber que teve cinco “casos”. É a fronteira da menina decente para a perdida. Mas pior pode acontecer.
Se vocês forem persistentes o suficiente para lutarem pelo que querem, podem até acabar por ser felizes nas entrelinhas. A vida tende a enviar prémios de consolação, de vez em quando. Podem acabar por entender que, por muito que o amor a essa uma pessoa seja sagrado e por isso difícil de arrumar para o lado, há todo um horizonte mais além. Se forem honestas convosco próprias e com os vossos desejos, saberão sempre quando é hora de dizer sim e quando é hora de se negarem. Saberão a quem fechar a porta e a quem convidar para o vosso santuário. NÃO DEIXEM DE SE DIVERTIR PORQUE ALGUÉM TEM MÁ OPINIÃO DE VOCÊS.
Se alguma vez puderem ter cinco minutos com a pessoa que desejariam que ficasse convosco para o resto da vida, não hesitem. Se forem mulheres modernas, aprendam a lidar com o depois: não deixem de arriscar por medo de não serem capazes de viver convosco depois de uma decisão tomada, e não deixem de viver com base nos medos e nos limites que tinham estabelecido para vocês mesmas. Ultrapassem-no com graça e perdoem-no por ser mais fraco e menos subtil na hora de arrumar os cacos. Perdoem-no se sentirem que o ofenderam naquilo que ele achava que o fazia forte: a resistência.  Se ele for um homem inteligente, em breve vai descobrir que tudo na vida é imprevisível. Que tudo muda de rumo. Que as promessas de ontem serão quebradas deste ou do outro lado. Que, no final, alguém tende a ficar com os dois pássaros a voar e um par de mãos vazias para contemplar. É matar ou morrer. Quando um relance de felicidade passa, segurem-na!
Perdoem-no se, depois de confrontado com a vossa honestidade e a vossa abertura a tudo o que é bom na vida, vos chamar de vacas. Ou vos mandar calar a boca. Ou não vos olhar nos olhos. Pode acontecer. Por isso perdoem-no se ele se tiver convencido de que a vida dele deve seguir para Este e vocês forem um farol a Oeste. Que devem a um homem que vos falta ao respeito quando lhe deram tanto? 
Desistam dele quando a estrada chegar ao fim para vocês, e não porque todos os outros vos pediram (às vezes imploraram) que o fizessem. Orgulhem-se de terem estado lá. Dois, três, cinco anos, quase uma década. Duas, três, a vida toda. Não importa o quanto. ORGULHEM-SE de vocês próprias por buscarem satisfação no que a vida estende à vossa frente, sobretudo quando não criaram as oportunidades, quando não forjaram momentos, mas os mesmos vos foram estendidos porque vocês os mereciam. Ou porque estava escrito, e tudo tem um motivo na Ordem das coisas. Cinjam-nos com as duas mãos. 
Sejam exigentes e generosas convosco próprias. Há um limite de lágrimas que uma pessoa pode chorar por outra. Um oceano deve bastar. É vosso direito e vosso dever o pegar nas vossas horas e fazer delas o que quiserem.
Só se dêem a quem vos respeitar e a quem tenha também algum respeito próprio – ou a quem quiserem dar-se, nem que seja se para poderem sorver os recantos desses minutos na memória, pelo resto dos vossos dias, até que a sanidade vos falte.
Uma mulher sozinha não está só. Tem o seu vinho e o seu jazz. Tem o seu companheiro da meia-noite, nem que seja o respeito próprio quando as portas se fecham. A mulher tem tanto direito à vida no Oriente quanto aqui, no Ocidente. E está acorrentada em todas as latitudes. A sociedade ainda não parou de julgá-las. Eu mesma já dei por mim a julgá-las. Reflectindo no assunto, julgo mulheres que abdicam da própria dignidade para matar a fome do corpo. Mulheres que dormem com os homens por quem os corações das amigas batem; mulheres que não se coíbem de saciar as vontades à frente da filha menor num espaço público, mulheres que não se conhecem a si próprias e se apaixonam quatro vezes num ano.
Sejam confiantes. Parem de repensar na cabeça o que poderiam ter feito melhor para ter sido aceites pelo tal. Que se foda o tal. Se fosse mais bonita. Se tivesse mais dinheiro. Se fosse doutra religião. Se não tivesse gatos. Se não tivesse barriga. Se não tivesse o nariz torto. Se tivesse outra família. Se não fosse tão impulsiva. Se não fosse loira quando ele prefere morenas...
O homem que está guardado para vocês – e tudo acontece por um motivo, reafirmo – vai fazer-vos sorrir. Vai chegar e vai fazer-vos sentir-se bem instantaneamente. A mamã sabe que é possível. A mamã já viu o destino a tecer estas malhas várias vezes. O homem que vos merece – aquele que Gabriel García Márquez diz que nunca vos fará chorar – jamais vos chamaria de putas. Jamais o insinuaria. Jamais, em momento algum, o pensaria. Por ter-vos tão alto, por vos louvar - há um certo fado, uma certa queda para a tragédia, em ser-se mulher - eleva todas as outras mulheres também. O homem que é vosso, e sempre foi, está feliz por saber que passaram pelos vossos dias em pleno. Jamais levantará a voz para dizer uma palavra que seja contra o nosso género; e se levantar fará rapidamente um parênteses para vocês e para a mãe.
Vão tentar cingir-vos ao código de ideias deles. Vão tentar ver-vos sozinhas, presas às normas e ao que é esperado para uma menina de família, para uma menina de boa-educação, para uma menina católica, para uma menina que não bebe, não fuma, não fode, não usa mini-saia. Vão perguntar-vos quando arranjam alguém, sem saber que estão livres para arranjar quem quiserem. 
Não fiquem na prateleira para sempre, enquanto os homens procuram arrumar as ideias na cabeça e andam por aí a rebolar de bêbedos e a beijar umas enquanto apalpam outras, sob a indulgência e o riso fácil da plateia. Dêem uma machadada na prateleira. 
Não sejam uma mulher que não pode dar-se ao homem que deseja sem que seja uma vaca. Sobretudo se esse homem não concebe que a mulher em questão o quis sempre em todos os dias da sua vida, com ou sem o apimentado do desejo sexual. Se ele vos chamar de vacas, ergam a mão e façam-na estalar na cara dele. Só porque algumas são mesmo e os traíram. Ele que seja maior que isso, que ultrapasse! Que aceite que o erro foi sobretudo seu, porque não é lá muito bom a julgar pessoas e as pessoas tendem a trazer a sua natureza à superfície.
Saibam que fizeram tudo o que tinham a fazer – e que isso basta de consolo. A mamã aprendeu isso mesmo. Foi uma lição importante. Amor é coisa de sorte mas sexo é coisa de pele, e por enquanto é feio que uma mulher seja menos do que virginal. Ou comprometida. Não se neguem coisa alguma por um princípio que vos impuseram. 
Respeitem-se a si próprias, não façam favores nem fretes. Não percam a dignidade. Fiquem ao lado de quem vos chama bonitas com o olhar, e que com isso não esteja a falar dos vossos olhos nem dos vossos seios. Enquanto esse não vem...

Dou-vos uma palmadinha nas nádegas e fico a ver-vos sair do quarto:
Vão: sejam felizes.

domingo, 29 de maio de 2016

Carta aos meus filhos #91

A mamã anda a trabalhar muito. Mas é um trabalho bom, cheio de desafios e de trocas de conhecimento. Por exemplo, hoje aprendi que o revestimento das paredes do jardim de Inverno da Rainha Maria Pia é ágata. É importante descobrir o que é especial, único, diferente em cada cantinho a que levo os turistas. Hoje a mamã tentou ser o mais honesta possível acerca do nosso país. Para o bem e para o mal. No final, os americanos disseram que se nota que tenho muito orgulho no meu país, sem que com isso deite abaixo o que é dos outros.

Hoje a mamã aprendeu que o mais importante é ligarmo-nos aos outros. A comunicação é chave. A ferramenta foi o inglês e a boa disposição. Enquanto me davam palmadinhas no ombro e diziam que tenho uma "positive vibe", estas pessoas não sonham o quão mal a mamã chegou a estar. Mas já não estou. E isso é evidente para quem está comigo uma tarde.

Então a mãe tem trabalho muito. Mas não tem escrito. Para tudo há uma hora.

Agora a mamã gostava de pôr Etta Jones a tocar baixinho, de vestir um pijama confortável e de descansar das infinitas horas deste dia no ombro do vosso pai. E depois adormecer, sem uma preocupação no mundo.

At last, my love as come along...

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Carta aos meus filhos #90

Quando o amor depende do número de gatos

Ontem à noite, a minha avó de 83 anos que está de visita a Portugal disse-me:
- Tens gatos??? Livra-te dos gatos. Dão-te cabo da casa, destroem-te o sofá e os cortinados. Mete-os mas é na rua *força de expressão*.
Ao que outro alguém, que também me é muito próximo, reforçou:
- Tens noção que com gatos em casa nenhum homem te quer?
E foi ao ouvir ecoar o velho cliché de que os homens temem a presença dos gatos (não encontro outro modo de colocá-lo), que comecei a remoer neste ponto.
Com que então, um homem que me conheça (uma mulher de 26 anos sem um nariz demasiado grande, licenciada, com trabalho efectivo, casa própria, três livros publicados e a falar, além da sua língua nativa, inglês, italiano e francês) vai pôr travões ao amor porque tenho dois gatos?
A sério que existe a possibilidade de um dia alguém me dizer “eu ou os gatos?”. 
De que modo incomodam, afinal, os gatos? Porque andam por cima de tudo? Sinceramente acho mais nocivo um homem com consola em casa. Porque os gatos ainda se sentam no nosso colo e nos fazem companhia, estejamos com quem estivermos, agora a consola só serve para o chamado “sai da frente!”.
Porque é que as mulheres que traem, enganam, mandam os homens à merda e faltam aos funerais das suas mães podem vir a ser felizes e eu não, porque tenho gatos? Porque é que as que amarram os cães no poste do quintal (mas ao menos têm cães, não gatos) acabarão por encontrar “o amor” e eu não?
E que “amor” é esse que impõe condições? “Olha, se não te livrares dos gatos não esperes que viva contigo”. “Olha, se não trancares os gatos, não esperes que vá à tua casa”. Ou elas para eles: “Olha, se não limpares os pêlos do lavatório, é melhor ires morar sozinho”, "Olha, se não puseres qualquer coisa que disfarce o teu cheiro a chulé nos sapatos, é melhor ires embora". "Olha, se não aprenderes a mudar lâmpadas, não me serves para nada". "Olha, se já só vais lá com Viagra, podes pôr-te a andar".
Eu sei que o nosso século é mesquinho e cheio de manhas e modas, mas porque é que é aceitável que se tenha um bull dog francês (e atenção que gosto de cães), com mau hálito, força bruta e poder destruidor, que rói, mija e ladra, e os gatos, por causa das unhas e dos pêlos, já não o são? Os cães não largam pêlos? Os cães são melhores amigos do que os gatos? Depende da noção de amizade. Acredito que uma pessoa reservada possa ser tão boa amiga quanto uma que atravessa o bar de dentes arreganhados para nos abraçar.
Tenham tino. Há um limite para a sanidade que talvez se contabilize pelo número de gatos; como em tudo na vida é preciso conta e medida. Mas não me venham dizer que sou solteira porque tenho gatos. Estou solteira, sim, porque não aceito um amor poucochinho. Nem um amor que imponha condições. Ou é tudo, ou sou muito feliz no “nada”.

E qualquer homem que pudesse abrir a boca para me meter no lugar-comum da mulher solteira com gatos, pode muito bem ir dar uma volta ao bilhar grande. É evidente que sofre de uma miopia grave.

Parece que só me sobram os homens medíocres. Um Julio Cortázar, um Salvador Dalí, um Picasso ou um Matisse. Estou feita...

 
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Carta aos meus Filhos #89



A mamã sentiu um peso hoje no peito. Uma espécie de ansiedade mascarada de angústia, ou vice-versa, não estou certa. Tudo porque, de repente, me chamam “senhora Célia”? Quem sou eu para considerar que uma pessoa é mais digna de amor do que outra, e de que espécie de altruísmo sou feito se me considero tão digna do mesmo? O que observo é que as pessoas ao meu redor parecem enamoradas de pouco e de fácil.  Mas um fácil que lhes sai caro, como se o que realmente os atrai fossem os defeitos e não as virtudes de cada um. Poderá isto ser o amor sacrificial de que há tanto oiço falar? Será que nos sentirmos melhor se pensarmos “está crivado de imperfeições, mas amo-o?”. Será falta de autoestima? É que vejo pessoas a pisar e a repisar outras, a baterem-lhes com a porta na cara, a torcerem-lhes o nariz, a dizerem as maiores atrocidades, e no fim o amor da vítima emerge intacto. Será o “quanto mais me bates mais eu gosto de ti?”. Será a humanidade no seu estado mais puro – um reconhecimento mútuo das falhas?

Quando vai chegar a vez de a senhora Célia ser feliz? A mamã fez vinte e seis anos. Hoje foi a uma papelaria e a dona pediu a um dos funcionários: “Atende aí essa senhora, por favor”. Foi como se pusessem um espelho de corpo inteiro diante de mim. Será do cabelo? Da estatura? Do peso? Da roupa? Da falta de maquilhagem? Estou habituada a que me chamem de menina, o meu coração divaga despreparado para estes golpes…

Sentada nos correios à espera da minha vez de despachar os livros, foi como se o peso do mundo se abatesse sobre os meus ombros. Tenho de me ir embora. Antes de pensar que tudo acabará assim, tenho de fazer as malas e partir. Preciso de alguém de fora, alguém que nunca me conhecerá tão bem quanto alguns me conhecem, mas que veja algo de exótico em mim. Alguém com quem partilhar os benefícios da cozinha mediterrânica e com quem discutir religião e ciência. Alguém que veja os prós e os contras de viver no meu país, e que reaja bem aos que eu aponte acerca do seu.

A senhora Célia sentiu que um sono malévolo se apoderava dela. Quis fechar os olhos, depois entendi que me custava respirar e que ganhei aversão à tristeza. O facto de ter padecido de uma doença que se traduz em tristeza e desespero (ou apatia, em estados mais graves) profunda, faz com que entre em pânico a qualquer aproximação de melancolia. Rejeito-a com todas as células do meu sentir, mas custa-me a fingir que não vejo o fantasma.

Não sei se aguento ver-me de peito despedaçado outra vez, por isso espero que a respiração se regularize o quanto antes e que o pior aconteça também o mais cedo possível.

Quero começar já a terapia inerente ao luto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Carta aos meus filhos #88



O último mês tem sido surrealista. Daqui a dois dias, faz um mês (31 dias) que a mamã está a trabalhar sem descanso. Vamos totalizar estes dias em horas de trabalho: 248 horas, e isto supondo que só trabalhei 8 horas por dia, coisa que deve ter sido mais excepção do que regra. Significa que, no último mês, a mamã trabalhou pelo menos 250 horas… Há 29 dias que não sei o que é ir almoçar onde me apetece, ou andar de pijama o dia todo por casa, ou deitar-me duas horas mais tarde para poder ver um filme, ou para terminar um livro de enfiada. O balanço negativo é que falhei, pela primeira vez, o aniversário da Vanessa, uma amizade com pelo menos doze anos de aniversários sempre celebrados juntas… E também que houve momentos em que julguei que desfalecia de terror ou de exaustão. A RATALMA (empresa de táxis de Almada) deve ter dado bónus a todos os seus taxistas por causa desta cliente, que praticamente todos os fins-de-semana lhes ligava por volta das 07:00 para pedir um taxi para Cacilhas...
O balanço positivo é impossível de enumerar:
- Descobri capacidades que desconhecia;
- Conheci pessoas espectaculares com a mesma capacidade de trabalho que eu e outras com capacidades superiores;
- Descobri que posso conduzir o meu cérebro como quiser, o leme está afinado, a direcção idem, e consigo ir onde quiser desde que me convença pelo prisma correcto;
- Ganhei muito dinheiro e investi-o na casa de banho, o que espero que mais tarde se traduza numa casa mais confortável para vocês, filhotes;
- Como a casa de banho estava em obras, tomei banho nos horários mais esquisitos na casa da avó N., o que significa que não há um momento ideal para nos pormos a mexer em direcção a melhorias em casa ou na nossa vida em geral, nada da preguiça do "agora vêm as chuvas", ou "estou demasiado ocupado para mover as tralhas e escavacar as paredes";
- No meio do frenesim, adquiri conhecimentos preciosos sobre o meu país e fui a inúmeros sítios, alguns foram mesmo pisados várias vezes;
- Fui a Santiago de Compostela, conheci outra alma que anda neste caminho há tanto tempo quanto eu, e fiquei a arder por percorrer as estradas do Caminho de Santiago;
- Aperfeiçoei imenso o meu italiano;
- Conheci italianos de Veneza, italianos de Piemonte, italianos da Puglia, polacos, espanhóis, galegos, alemães de Munich, de Colónia, de Frankfurt, franceses de Lyon, etc., etc...
- Por muito que te esforces, haverá sempre quem ache que deverias ter-te esforçado mais: mas nada de nos irmos abaixo, o nosso limite só nós conhecemos;
- Li um livro inteiro, por muito que seja um romance light - tinha 420 páginas, por isso repensem bem se não lêem por falta de tempo;
- Comecei o Mestrado em História Contemporânea, com as dores de cabeça e dúvidas que daí hão de advir;
- Consegui sorrir, no meio disto tudo;
- Não chorei;
- VOTEI!, por isso, se voei da Batalha para Almada para votar, e se às 17:30 ainda estava em Alcoentre à beira da estrada, de braços cruzados, enquanto se decidia quem ficava em terra por falta de bilhete e quem embarcava no Expresso (sendo que a mamã viajou no lugar do guia!!!), não há motivo para nos estarmos a marimbar para o futuro do nosso país e dos nosso FILHOS.
A mamã tem a força de mil homens! :)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Carta aos meus filhos #87

A mamã está a trabalhar como louca. Não tem dois minutos parada. Trabalha a tempo inteiro e adora o que faz. Depois vai para casa escrever. Ou pesquisar. Ou ler. Ou corrigir livros doutrem. Nunca estou quieta, passo, inclusive, alguns dos meus fins-de-semana com turistas em Lisboa, a calcorrear a calçada portuguesa. No mês que vem vou fazer o meu primeiro tour de sempre… Estou nervosa, sobretudo porque é italiano. Mas consigo. Se não conseguir, tentei. Daqui a dois meses, além disso ainda tenho um Mestrado a decorrer e aulas de inglês a preparar...

A mamã olhou para dentro de si durante dois segundos, só para acariciar esse amor tão tenro que tenho cá dentro. Quem me dera abraçá-lo… Quem me dera beijar-lhe as pálpebras molhadas, encostar o peito ao dele, gelado, e buscar calor na curva do seu ombro. Quem me dera que anoitecesse e eu tivesse a mão dele à distância de um passo e o cantar dos grilos nos embalasse…


Vou trabalhar.