segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Carta aos meus filhos #99

A mamã sente que este capítulo da minha vida está a chegar ao fim de tantas formas...

Está tudo a encaminhar-se para o fim, umas coisas de modo mais literal que outras...
O orgulho tem sido o grande protagonista desta fase. O orgulho e a teimosia, e uma necessidade sobrehumana de me elevar acima de mim mesma e de me encontrar lá em cima. Sabem, não foi intencional mas a mamã perdeu demasiado tempo com becos sem saída. A mamã quis, durante longos anos, ver luzes ao fundo de túneis intermináveis. Neste momento, sentei-me dentro do túnel, arrastei os pés por sobre os carris e acariciei o ferro, cheirei a ferrugem. Chegou a hora de colocar a possibilidade de que talvez o túnel só me leve mais fundo, mais para o escuro, mais para o frio, mais para baixo. E tenho de decidir se volto para trás, para a realidade distante e estéril em que vivia antes da promessa de todo o resto. Estive tanto tempo no escuro que julgava ser capaz de distinguir sombras na penumbra. A mamã conhece os ângulos da ferrovia e a humidade das paredes do túnel, conhece-lhe o ruído do saibro conforme caminho, convencida de que a passgem seria longa mas valeria a pena. A mamã cansou-se. A mamã sabe que ainda não é tarde demais. A mamã é jovem, independente - sou independente, quantas pessoas podem dizer isso? - e, se tiver mesmo de ser, amanho-me sozinha (amanhar = remover escamas e espinhas até tornar o peixe comestível). A mamã hoje abriu uma garrafa de um azeite bem caro que me foi oferecido e banquetei-me dele. Depois, no caminho da cozinha para a despensa, fi-lo dançar no ar e escaquear-se no chão. Porquê? Porque haveria de criar todo um ritual em torno do azeite, prová-lo molhando o indicador no gargalo, chamar as minhas irmãs e incitá-las a fazer o mesmo, fazer pasta à italiana q.b. e celebrá-lo com mangericão, porque tive de aquecer pão no forno e molhá-lo no azeite e nos orégãos e lamber os dedos do azeite e dos orégãos, se depois o azeite acabou por entre cacos, no chão, a escorrer numa lentidão agonizante por entre as lajes que foram escrupulosamente limpas poucas horas antes? Porquê? Porque é um azeite bom demais. Porque valeu a pena. Porque fiquei sem o azeite mas tinha de ser. É tudo tão absurdo quanto o grito que lancei quando o vi no chão, a ensopar tudo, e me soube impotente.
A mãe está farta de estar no escuro a sonhar com a luz. A mamã quer fazer amor a ouvir a I Put a Spell on You da Nina Simone. A mamã quer saber que não mais terei de virar as costas àqueles que amo - àqueles que amei tanto e de modo tão tosco, tão ingénuo, tão crente, e depois tão amargurado, tão desencantado, tão contrariado. A mamã precisa de se convencer de que dando meia volta e saindo por onde entrei volto à luz. E tenho de aprender a viver com o facto de que perdi tempo no túnel. Mas, enquanto lá estive, banhei-me no azeite, amansei os medos com ele, ainda lhe sinto o perfume, ainda me recordo da qualidade inegável no rótulo, do brilho dourado, do modo como valeu a pena acender o fogão por ele.
A mamã está a dizer disparates, mas estão a fazer tanto sentido quanto fez lamber o braço quando o azeite deslizou da ponta dos dedos por ele abaixo. Não desperdicei uma gota do azeite que o universo me havia destinado. O resto não era meu, e quando já era derrame no chão, não podia rebolar-me nele sem perder a dignidade e manchar a dele.
A mamã anda a trabalhar demais, mas felizmente os sentimentos são um bom Norte. A mamã é, a todas as horas, ciente de que o nosso corpo, a nossa cabeça e o nosso coração querem coisas muito diferentes, e em mim parece que os três discordam mais no que em muitas outras pessoas. A mamã desceu a barragem do Carrapatelo, são trinta metros de água a descer e vinte minutos em que a tua vida dependente de engenheiros, da obediência de um rio e das condições do cruzeiro. E, olhando para o cimo, para a força com que a parede de pedra maciça e o portão de ferro continham a água, que ainda assim se derramava sobre as nossas cabeças, entendi que racionalismo algum contém o rio. Ele há-de infiltrar-se sempre em todas as brechas, em todas as fraquezas da solidez do material. Se lhe derem tempo, umas décadas talvez, ele desfaz o mérito da pedra e do ferro e reencontra o caminho para o seu leito. Assim que possa, aquele rio há-de esvair-se de volta ao outro, que é o mesmo, e que repousa trinta metros abaixo. Não tem como o rio não querer fazer parte do mesmo rio, ainda que o que o dilacera interponha altitudes e depressões entre os dois. Chamem-lhe gravidade; ou amor.
A mamã tem noção das coisas inevitáveis da vida, até hoje só me cruzei com duas, ambas trágicas, a seu modo necessárias, e também sublimes pela sua importância incontornável: o amor e a morte. A mamã é impotente perante ambas. 
Deixo que a Nina Simone me convença de que talvez a perfeição exista, talvez exista um motivo para tudo e talvez o azeite volte a escorrer pelo meu braço, se eu não tiver tanto medo que tudo acabe no chão.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Carta aos meus filhos #98

A mamã estava em paz e agora está confusa…
Entendi que cheguei à faixa dos vinte e seis, quase vinte e sete anos, e ainda há muita mentira por aí. Não percebo como é possível que se minta e se distorça a realidade. Não entendo qual o objectivo, além de aquele de se amassar os sentimentos dos outros. Não percebo qual a gratificação que pode advir de se contar uma mentira e ver a vida do outro desabar por causa de nada. Ou de vê-lo repeti-la e ridicularizar-se. A mamã sente que se afastou, mas afastei-me pouco. Tudo encontra um caminho até mim, e é difícil isolar-me do núcleo e tapar os ouvidos. Mas a verdade é: eu não quero saber. Bastam as inseguranças de cada um, as desconfianças íntimas, para distorcermos a realidade dentro de nós. Quando isso acontece, costumo dirigir-me a quem me causar dúvida e tentar mitigá-la. Ao final de dez anos a colocar dúvidas, as pessoas aborrecem-se e tens de te calar e aprender a viver com elas ou simplesmente tapas os ouvidos e vais morar para debaixo de uma pedra. Tens de viver com a possibilidade de que sejam verdade. E as mentiras que contam não são coisas simples, não é sobre quanto se pagou por um corte de cabelo. São coisas que interpõem pontes entre as pessoas, que estalam o verniz da confiança e que acabam com amizades num estalar de dedos. Mas o que a mamã entendeu, além de tudo, é que o meu próprio desgaste me torna vulnerável. Se não estivesse sempre à espera que uma tragédia se abatesse sobre a minha cabeça (se não saísse sempre da sala antes que os outros saiam e me abandonem), a última mentira não se teria afundado tanto no meu coração. A mamã não entende o que se passa. Não se pode acreditar em nada nem em ninguém, porque as fontes que chegam aos outros também vêm contaminadas. A mamã só queria poder estar longe e não ouvir nem ver nada. Estar com os outros tornou-se penoso; termino os encontros a conhecê-los menos do que antes, porque as versões nunca se concertam e tu não podes, simplesmente, interromper a pessoa a meio do relato do seu jantar e perguntar "ouve lá, disseste mesmo que sou uma cabra mimada?"
Pior, além dos rumores falaciosos, há as mentiras piedosas, as mentiras destrutoras e as mentiras só porque sim. O esforço para se estar no pódio e se ser aceite é quase ridículo de tão empenhado... Porque é tão importante que se tenha alguém ao lado? Que se esteja a viver a vida dos outros (travestida de viver a própria vida)? A mamã está a ver as pessoas que sempre considerou puras a pôr a touca de banho para mergulhar na pocilga. E ainda dizem que não cheira tão mal como pensavam. Temos de aceitar as pessoas como elas são. Certo; mas daí até permitirmos que joguem com a nossa realidade, com a nossa verdade, vai um mundo de princípios. E há o ser chato, o ferver em pouca água, o beber demais, o não dizer uma palavra de conforto quando se sabe que estás na merda, mas depois há o inventar que o teu marido estava fechado no carro com a secretária. Como pode isto ser aceitável? Não se pode confiar num suspiro, num boa noite, num “estás boa?”. A mãe vê pessoas a descobrir mentira atrás de mentira e, ainda assim, a deixarem-se ficar. Porquê? Estaremos tão sozinhos assim que nos submetemos a tudo? Quando foi que os laços tão fortes que nos uniam se enredaram de tal modo que tivémos de cortar tudo à tesourada? É impensável sairmos da selva de cinzento para respirarmos um pouco e repensarmos tudo à luz da distância?
A mamã fumou mais cigarros esta semana do que no ano todo… E a avó está doente, é um atentado contra ela que me refugie na janela a tentar que a nicotina e o alcatrão organizem as ideias que não encontram prateleira nos meus miolos. 
É bom que o amor venha e se derrame sobre a cabeça de todos até nos deixar encharcados, se não as ervas daninhas vão arrancar-nos de vez uns aos outros.

~sometimes you gotta burn some bridges just to create some distance. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Carta aos meus filhos #97

Meus queridos,

Não se vivem tempos fáceis, mas a mamã está tranquila. Entre outras coisas, tranquiliza-me o facto de poder olhar-me no rosto com a consciência de que nunca, em dia algum da minha vida, me desviei do meu caminho para desvirtuar o de outro, ou para lhe causar dissabor. Casualidades acontecem, mas a intenção forja a alma, e a da mamã está lavada. Experimento uma paz e uma libertação por que há muito ansiava, e chegou-me pelos caminhos tortuosos que a vida toma para nos conduzir para aquilo que temos de ser.

Não entendia ao certo a sensação que se apoderou de mim nas últimas semanas, durante as quais trabalhei tanto, enquanto o mundo se divertia. Mas não advém mal ao mundo que o mesmo se divirta, porém a mãe vê as pessoas arrancarem os braços a outros e usarem-nos para coçar as costas, e isso, tempos houve, corroía-me as entranhas.

Esta mulher que não acredita em deus nem na canonização de super stars tem vivido um estado de lucidez que espero que não tenha fim. Sinto-me quase religiosa, e a religião é a minha, pelo que não cometo atentados contra os meus sermões. Estendi-me sob o Dark Sky e analisei os movimentos ao meu redor. A paz inundou-me e criei um espaço dentro de mim que servirá de refúgio a todos os desafios que se avizinhem. Quando vejo uma estrela cadente, a minha ideia é uma apenas; que ela não sofra.

Todo o resto é um circo para o qual a mamã não quis comprar bilhete. O circo está na cidade e sou obrigada a ouvir o riso das crianças. À noite, as luzes do circo cruzam o céu e a mamã tem de se lembrar que os palhaços e os figurantes são representados por pessoas que não costumavam usar máscara. Mas há pessoas que cedem às oportunidades, e por isso trouxeram a máscara para a cabeceira da cama, e durante anos convenceram-se de que era um acto irreflectido, sem consequências, jamais a usariam. Mas ela estava lá, e, quando o instante se dá, é só cobrir o rosto e saltar para o palco. A mamã nunca chegou a comprar nenhuma máscara, por isso é pouco provável que venha a usar uma. 
Se a mamã pensar bem, o que a invade é uma espécie de ternura, quase compaixão. A mamã sabe que uma pessoa toma muitas formas sob o efeito da dor - e a dor pode ser muita coisa, pode ser até a incapacidade de darmos um passo e dirigirmo-nos ao sítio no qual sabemos que podemos ir buscar ajuda - mas nem todos os desconfortos justificam todas as condutas, e o que define uma pessoa é a capacidade de recusar morfina quando se propôs a aguentar. Mas a mamã não quis uma vida de faz de conta, nunca mentiu a si nem a ninguém a respeito das coisas do coração, nem quis as coisas por querer, nem enfrentou dilemas morais. 

A mãe acredita que algumas coisas são sagradas. Uma delas é o "amigo". Não é deus, não é santo isto, não é rosário aquilo. Isso é comprar-se indulgências, uma vez mais mascarar-se de benevolente. Para a mamã, a sacro-santidade está apenas sitiada nesse substantivo. E a mamã pode até perdoar as ofensas que lhe façam - e aqui volta a recordar-se que não é católica, mas às vezes apropria-se do palrar da classe -, mas não consegue conceber faltas de carácter. Uma falha de carácter é uma luz muito intensa num rosto. Num qualquer rosto; o defeito surge e a partir daí não dá para fingir que não existe. Quando isso acontece, a mamã faz cálculos de cabeça e entende que o universo é demasiado pequeno para tanta hipocrisia. Constrói um muro e recusa-se a olhar para as trincheiras. Porém tenho de me recordar que criaturas há que caminham sobre a terra sem um único elo sagrado, e apenas me resta lamentar que os valores do espírito nunca as tenham bafejado, e que assim sendo padeçam das fraquezas dos animais.

Vivemos uma época em que, se uma pessoa dedicar uma década a outra, é acusada de ser doente mental e obcecada. Se outra pessoa sofrer um desfile de reveses do coração é considerada sana, livre, desejável, moderna (e ser-se moderno é sinónimo de algo positivo). Uma pessoa tem de valer-se de toda a sanidade que encontre para não enlouquecer, mas o importante é que se saiba que se está dentro de uma caverna, que há um mundo lá fora, e que algumas sombras sabem que são sombras, enquanto outras se julgam luz. Enquanto se observa as sombras a dançar na parede da caverna, reflecte-se sobre o infortúnio que é o não se saber que se é sombra. O importante é sabermos, a todo o instante, que tudo passa e o efémero passa mais veloz ainda.

De repente ocorreu-me como explicar…

Somos todos uma grande árvore de fruta. Pode ser uma pereira; em termos estéticos somos uma pereira. Mais pesados na base que no topo; isto é, mais densos no corpo que no espírito. Crescemos todos nas mesmas circunstâncias e partimos todos do mesmo útero, se bem que uns com mais acesso ao sol do que outros, sendo a água e a seiva as mesmas. Penso que sejam os elementos o que afecta mais a uns do que a outros, e de repente veio uma ventania sem igual. Aqueles a quem o sol estival estonteia, foram os primeiros a ser postos à prova. Caem por terra as promessas e os pequenos sacrifícios da irmandade.

A tempestade sacudiu a pereira e algumas pêras caíram, amassadas, no húmus. Essas não tinham escolha; a natureza delas era débil. Não são essas as culpadas pelo enfraquecimento da pereira. A árvore, na sua consciência geral, sabia que seriam as primeiras a entaramelar-se a respeito da própria existência, e o equilíbrio fora criado a despeito dessa falha. É certo que aquelas pêras seriam derrubadas ao primeiro golpe dos elementos.Como as abelhas, e as abelhas têm ferrões, pelo que o universo não pasma quando o usam. 
Outras continuaram seguras, mas não conseguiam desviar a vista do que se passava junto ao calor da terra, junto à azáfama das folhas ressecadas. Começaram a sentir-se pesadas no seu pender dos ramos. As outras pareciam-lhes mais livres e sem âncora, e quem sabe debaixo se visse melhor o céu e a noite estrelada.

À segunda rabanada caíram mais algumas, porque haviam afrouxado o abraço ao seu sustento, porque um momento de descuido as apanhou e a gravidade não funciona no sentido inverso, por muito que a vontade almeje inverter o curso do movimento.

As que se mantinham nos ramos começaram a sentir-se isoladas, desejaram poder juntar-se de novo às outras, reencontrá-las noutras circunstâncias; então soltaram-se da Mãe, soltaram-se da Terra, soltaram-se do que nelas era divino e sagrado e jogaram-se no nada. Abandonaram aquilo que haviam sido criadas para ser, e tudo o que fora promissor nelas até aí. Aterraram por entre insectos e outras coisas rastejantes, e esse é agora o seu novo habitat

A mamã espera que as pêras que ficaram na pereira se segurem. Espera que não se deixem cair, que não cobicem a leveza da descida. Não se sintam sós. São tão poucas, e tão preciosas... Não se iludam sobre a possibilidade de, ao cair, deixarem de dever algo à árvore. Não pereçam; na queda começa a decomposição. Uma pêra que se soltou da árvore jamais será pereira de novo. 

Não se deixem impressionar pelo facto de a ventania ter levado frutos tão robustos. Basta um dedo a acariciar o volante para a esquerda, quando se fecha os olhos, e o carro desfaz-se contra o rail da auto-estrada. 

É assim que a mamã vê a luxúria travestida de amor, e a leviandade travestida de liberdade. E as pessoas travestidas de seguras e auto-conscientes, quando estão é cegas pelos faróis que se avizinham, em sentido contrário, enquanto deambulam na beira do caminho. E, quando o feixe incide sobre as suas cabeças, e todos os olhos se voltam, chamam à cena aquilo que aos outros soa puro, para com isso expiar a sua fealdade.


O vento aquieta sempre. E quando o vento soprar tranquilo, e o sol voltar a ser ameno, e a folhagem acariciar a fruta no seu resfolegar, a árvore recupera o esplendor e o resto já foi varrido pelas estações. E então tenho de me lembrar que não sou cristã. Sou uma mulher sem deus e sem religião. E a alegoria da árvore torna-se mais perversa ainda.

sábado, 3 de setembro de 2016

Carta aos meus filhos #96

Boa noite do Monte da Estrela,



A mamã aprendeu tantas coisas, hoje! Mesmo nos períodos em que seria de esperar que me esquecesse de mim e que me desligasse do universo, a magia acontece e a vida chama-me.
A mamã está num sítio lindo e especial, em plena comunhão com a natureza, e tem um encontro marcado com as estrelas para daqui a umas horas. Vim para aqui não por minha livre descoberta, mas foi-me indicado e ontem a voz desta mãe especial chamou-me. Meti-me no primeiro autocarro e zarpei. Vim encher os olhos de ouro e escutar a natureza na sua respiração.
Hoje aprendi que podes ter três filhos, morar em Lisboa, estudar gestão e comprar um monte alentejano. E depois podes pegar nesse monte e torná-lo numa casa de turismo rural, abrir as tuas portas a quem vier e ser feliz. Primeiro descobri que estamos numa área do planeta chamada "Dark Sky", um observatório do firmamento de acordo com a NASA. Do centro do pátio vejo poeira celestial, um dos braços da Via Láctea, e estamos sob a sua alçada. Vi duas estrelas cadentes (e ainda nem me deitei para admirar o cosmos) e fui regada juntamente com o relvado, mas até isso me fez feliz. 




Comi figos com mascarpone enquanto descobria que se coloca carne no vinho, durante a fermentação: se fossem outras  pessoas quaisquer, não acreditaria.
Contudo estou rodeada de pessoas bem formadas, que encetam explicações que eu, por estar no limite da exaustão, não consegui seguir em todas as suas estações. Mas disseram que o vinho, ao fermentar, é como se entrasse em erupção. O mosto ferve sobre si próprio, queima, e o insecto que caia lá é deglutido, assim como o é a carne (borrego por ex.), que me garantiram que é fermentada com o vinho do Porto, por ex. A mamã há-de ler isto mais tarde e pensar: que raio? Mas ouvi-o e vou investigar, porque é polémico a tantos níveis, sobretudo naquele em que não se poderia eliminar esse passo, se isso significa acabar com a qualidade como a conhecemos.
Aprendi que os fenícios faziam vinho em cânforas, e as uvas não eram pisadas mas revolteadas com um pilão enorme (......) e os romanos faziam igual. Ainda aprendi que o álcool intoxica e quem pisa uvas fica inevitalmente bêbedo, pelo que tem de cantar e apoiar-se em quem o ladeia, a fim de não dar um mergulho no vinho e jazerem por lá, esquecidos. Em Mira d'Aire há grutas com morcegos enormes, e na selva Moçambicana havia um senhor que tinha uma osga obesa chamada Óscar, e o Óscar certificava-se de que os mosquitos da malária, dengue, etc., acabavam a nadar no seu suco gástrico. A mamã ficou a conversar sob as estrelas com pessoas interessantes, e bebeu vinho caseiro e um bagaço alentejano que se pega aos lábios e os deixa doces. A mamã hoje bebeu bagaço e gostou, mas aqui chamam a essa bebida translúcida "a mãe do vinho". 
Hoje a mamã sentiu a humidade do Alqueva no ar, e foi como estar de volta em Salvador da Baía, em que a atmosfera está tão saturada que o céu desaba sobre nós sob a forma de chuva ao final da tarde. Aprendi que o som do silêncio é, na realidade, o dueto das cigarras e dos grilos, e que há quem reclame nos hotéis rurais da sinfonia desses bicharocos.
Aqui há uma gata selvagem que se roça na porta da cozinha e que janta ensopado de borrego. Não deixa que ninguém lhe toque, mas segue à frente do prato e choraminga como uma normal gata de casa. Só aparece à hora de jantar. Há uma cabra preta chamada Estrelinha, que vou conhecer amanhã, e que é amistosa. Há também uma raposa que ronda a casa, mas que não ataca as galinhas. Gosto de imaginar que a hei de ver, porque gosto tanto de raposas... E esta anda aqui, fortuita, e talvez o instinto lhe diga que eu quero ser amiga dela, e que eu sei que o essencial é invisível para os olhos.
Ofereceram-me bagaço e uma cigarilha e senti o aroma a baunilha elevar-se no calor estival, enquanto uma e depois outra estrela colapsava no horizonte. Disseram-me que os charutos necessitam de no mínimo 80% de humidade para serem bem conservados, e que essa temperatura é a ideal em Cuba, onde podes só metê-los no armário sem te preocupares. Noutros cantos do globo mandas fazer a tua caixa de charutos (madeira não envernizada) e convém teres termómetros de temperatura e humidade embutidos. Se o charuto ficar demasiado seco, tens de regá-lo. Antes de o fumares, leva-lo junto do ouvido e sentes o resfolegar do tabaco, dentro. Se não ouvires nada é porque está demasiado húmido, tem de secar um pouco. Quando fumas dois terços do charuto, podes mergulhar o restante em conhaque. Por essa altura a temperatura está tão alta que tens de o arrefecer, ou a qualidade perde-se de vez. 
Quanta ciência, a do relvado que não deve ser regado durante o dia quando estão trinta e oito graus no ar, porque na terra estão quarenta e cinco e a água causaria um choque térmico e depois aqueceria, apodrecendo as raízes das plantas. Deve regar-se tarde, à noite, respeitando a natureza e os seus ciclos.
Raposinha, vens visitar-me? Daqui a nada espero ver-te...

domingo, 7 de agosto de 2016

Carta aos meus filhos #95

Meus queridos,

Hoje a tia Ana contou-me que teve de ajudar a avó a tomar banho. Há alguns dias, eu própria me havia oferecido, porque ela disse que tem dificuldades a entrar e a sair da banheira, e a chegar às costas também. A avó recusou a minha ajuda, porque ainda se lembra de quando eu era pequena e tão curiosa e apegada a ela que não queria separar-me durante os quinze minutos que lhe durassem o banho. Plantava-me do outro lado da porta e tentava espreitar, mas ela cedo se apercebeu dos meus intentos e tapava a fechadura. Sob o vestido da avó, nota-se a deformação da omoplata, que parece projectar-se para fora. Como poderíamos saber? A tia Ana diz que acha que quando a avó for "velhinha" vai ter uma corcunda, mas só do lado direito. Querida Ana, não podemos dizer-lhe que nos escaparam todos os sinais. A magreza, as dores, a perda de energia nos últimos tempos. Há dois anos, quando comprei a casa, a avó ajudou-me a lavar todas as janelas. Há um ano, quando demorava três horas contadas a limpá-la ao sábado, a avó insistia em ajudar-me e tratava do meu quarto com celeridade. Há seis meses a avó dizia que não conseguia ajudar, pedia um perdão indevido e dizia que ao menos levava o saco da roupa para lavar na sua máquina, posto que não comprei ainda uma. Agora a avó, que vinha todos os dias à minha casa, só vem duas vezes por semana. O agora escapa-se por entre os dedos, porque esta demana a avó só veio uma, por lhe custar a caminhar, e pede à tia Ana que leve o saco com os meus lençóis, porque tem dores se tiver de suportar o peso.

O tempo está a passar depressa demais, mas é verão e isso cria a ilusão de que está tudo bem. As pessoas estão de férias, vão para a praia, sorriem e combinam jantares. Uma pessoa que me vê todos os dias, e que já me viu pior, fez questão de me dizer, há dias, que agora se nota mesmo que ando feliz e sem preocupações. Agarram-se às pequenas desgraças do quotidiano para intervir, para sentir que fazem algo pelos outros e que não vivem só de si e para si. Mas a verdade é que é difícil imaginar uma reviravolta destas, e por isso a mamã tem sido deixada mais ou menos de lado nas preocupações de quem me rodeia. Haverá quem diga que o faz por feitio, outros porque imaginaram que eu preferiria ficar sozinha com a dor e a dimensão do que se aproxima. Outros, talvez quem realmente importe, simplesmente não sabe como lidar com isso, como assistir ao sofrimento ao meu lado, e receie evocá-lo. Acreditem: eu não quero assistir à desolação que se aproxima para quem me é mais querido, e não haverá escolha. De qualquer modo, o que importa é que é nas impiedades da vida que fazemos as contas ao que temos, e quem sabe a mamã andasse a calcular tudo mal há demasiado tempo. Serve para que saibamos quem está ao nosso lado, quem sua e chora por nós, e quem só o faz pelas aparências, porque de certo modo é esperado que se importe. Por isso, meus queridos, preparem-se que a crueldade de algumas verdades vem nos momentos em que estamos de joelhos, e sabermos assimilá-las aí é de valor. Em boa verdade, prefiro não pensar no assunto que magoa, mas suponho que haja outros meios de estarmos lá quando somos precisos.

A mamã tem um plano, e esse plano é uma tábua de sanidade. Tomei as decisões certas na vida, e isso garante-me que estou onde deveria estar. Em breve tudo mudará e a mamã sabe o que fazer. O único obstáculo será o de ver a avó a sofrer, porque para a dor dos que amo não estou preparada. Não tinha pensado que o fim se aproximasse com as botas das sete léguas, nem que acarretasse tanta agonia.

Hoje vi uma fotografia de uma criança na internet. É a página pessoal de uma mãe italiana e trata-se de uma menina com aspecto de adulta e ares de traquina. Uma combinação que mexeu com o meu coração e que me lembrou que muitas coisas boas estão por vir. A mamã acredita, mas o instinto e a intuição apertam-me as entranhas neste momento, e de certo modo assistir ao dia-a-dia despreocupado dos outros é-me demasiado penoso.

A mamã nasceu para chegar onde quiser, porque até hoje nem as pernas nem as mãos e nem a cabeça me falharam quando empreendi uma viagem. Os recursos sempre foram escassos, mas a vontade sempre me deu uma maior envergadura de asas, e o universo sabe que não me acobardo perante desafios. E a mamã quer cruzar na vida o caminho que a levará a uma praia de seixos escuros, com relevos de um verde-musgo ao longe, e haverá uma casinha com telhado de duas águas, uma horta, alguns gatos em suprema liberdade e segurança e um cão. E, algures dentro dessas paredes, os vossos risos e os risos do vosso pai. E o vosso pai é um homem grande, um homem que me merece e que eu mereço, e virá quando eu souber o meu valor e aquilo a que preciso de abdicar para chegar lá.

A vida e a morte caminham lado a lado e às vezes entrelaçam as mãos, e a mamã tem de seguir a estrada sem fraquejar. Não desespero, não vacilo. Tudo passa.

Até já,

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Carta aos meus filhos #94

Meus queridos,

Uma má notícia causou um tremor de terra sem precedentes na vida da mamã. Nunca é bom sinal ser-se chamado ao oitavo piso do Hospital Garcia de Orta, mas é mais difícil ainda quando se vai acompanhar alguém que se ama e a quem se deve tanto.
O médico estava na posse dos inúmeros exames que a minha avó realizou no último mês, e embora não tivéssemos grandes ilusões quanto às notícias que íamos receber, as mesmas poderiam ser más ou péssimas. Como a vida se tem rido de nós nos últimos tempos, o médico pareceu entusiasmado e anunciou que tinha uma notícia boa e uma má para nos dar. A boa era que as várias amostras da biopsia analisadas até agora deram negativo para cancro. A má era que isso significa que a biopsia tem de ser repetida. Há esperança, disse.
Entretanto perguntou-nos porque faltámos ao exame da medicina nuclear no Champalimaud, ao que informámos que comparecemos, segunda-feira passada conforme combinado. O médico descobre então esse novo exame no computador, e pede alguns minutos para o ler.
Ao primeiro suspiro a verdade atingiu-nos. Quando a explicação veio, a mamã sentiu que pela primeira vez em anos perdeu o controlo sobre a expressão, e o que se seguiu foi uma luta interior para manter a avó calma, enquanto eu própria entrava em pânico e o mascarava de boa-disposição.
O médico disse que a senhora que me ofereceu o livro da Branca de Neve, quando eu ainda nem sabia ler, tem esse horror espalhado não só no pulmão direito, como se suspeitava, como pelos ossos da caixa torácica. Isso explica as dores. Quadros oncológicos com dores não é bom sinal, e aí informou-nos que o estado é avançado.
Como a mamã nunca tinha dedicado realmente dois minutos a pensar na doença do século, acabou por fazer algumas perguntas disparatadas. A pior de todas foi “E hipóteses de cura?”. E depois lembrei-me que estávamos a falar de cancro. O inominável. A doença que as pessoas têm vergonha de admitir que têm, como se fosse contagiosa ou um castigo divino por alguma falta que tenhamos cometido. A doença que causa arrepios quando é proferida numa divisão, a mesma que tem tantos eufemismos e que nenhum deles é menos assustador.
O médico prosseguiu com as explicações sobre as terapias à nossa disposição, e como eu devia parecer-lhe um tanto animada e sorridente, olhou-me nos olhos e frisou que estamos a falar de cuidados paliativos. A terra voltou a tremer, e a avó apertou-me a mão com força. Ela não entende muito do que se estava a dizer, mas entendeu que a morte está a bater-lhe à porta como um temporal, e que tudo o que podemos fazer é usar os braços para impedir que entre de rompante, mas as forças acabarão por faltar e ela há-de entrar. Tudo o que se faça agora é para adiar esse momento o mais possível, e para que a avó viva descansada, feliz, se possível, e cumpra a sua missão aqui na Terra, pela qual tem dado tudo de si.
Quando eu era pequena, tinha ataques de pânico ao imaginar que a avó desaparecia. Talvez seja o que as crianças sentem em relação à mãe numa certa idade, quando as coisas nos começam a ser preciosas e a mãe é-o mais do que tudo (sem querer diminuir os pais). Eu sentia que se a avó morresse eu ficaria desamparada. O eixo da minha vida girava em função dela e das rotinas dela. Desde o ir às compras de manhã (a avó chama “lugar” à mercearia), até ao recostar-se nas almofadas a ver a novela da noite e a comentar a história, como se houvesse uma chispa de realismo naquelas ficções. Vinte anos depois sinto o mesmo. Não tenho sido boa o suficiente para ela. Não sou paciente o suficiente com ela. E que egoísta sou ainda, que queria que ela me desse mais, quando agora é a minha vez de dar a ela. Queria que me desse colo e que um dia vos desse colo. Agora já não consigo sentar-me no colo da avó, ela está demasiado magra para suportar o meu peso, mas tempos houve em que o seu colo era o mundo, e agora imagino-a como a um Deus no tímpano de uma catedral, e eu redonda, enrolada em mim mesma, sobre os seus joelhos.
Quem sabe a avó pudesse ficar com vocês às vezes, uma manhã ou uma tarde, e fazer-vos água de arroz ou xarope de cenoura, conforme a maleita que vos atingisse. Queria ouvi-la a dizer-me para não vos deixar andar descalços, ou usar as expressões só dela, como “as crianças andam todas desgargaladas”, o que significa que não vos protegi o pescoço em dias de frio. E chamar-vos-ia de "o menino" ou "a menina", porque ela é assim, e eu não sou. Hei de chamar-vos "o miúdo" ou "a miúda", mas vocês haviam de precisar dessa outra voz na vossa vida. Ou a avó diria para irmos “pedir ao Brotas da farmácia”, o que significa que não há meio de poder satisfazer um pedido, ou tantas outras que agora não me lembro, porque não absorvi tudo o que podia enquanto podia. 
Quem me dera poder ouvir as suas observações sobre os vossos traços, sejam eles quais forem. Se ela não vos conhecer, só os céus sabem a espécie de coisas espirituosas que ficam por dizer. Segundo a avó, eu era “rabina”, “cachondinha da barreira” e “enxertada em corno de cabra”.
Avó, espero mesmo que venhas a ser a primeira pessoa a pegar nos meus filhos ao colo, e a ensinar-me o que fazer com os dentes deles quando começarem a romper, e como vesti-los, como alimentá-los, como aliviá-los da febre. Se um dia for abençoada com a graça de ter um filho, saia ele do meu corpo ou da minha vontade de ser mãe, gostava tanto de saber o que vais dizer!… Se sair do meu corpo, és tu a mulher com quem gostaria de comentar as diferenças nele, e são as tuas histórias sobre o mesmo momento que quero escutar. Gostava de saber a tua opinião sobre o nome deles, os tais que há tantos anos tenho em mente e que talvez nunca venhas a proferir, e ver o amor atravessar gerações de ti para eles… Lembro-me do modo como sorrias para a Ana quando ela era bebé, e de como ela, como eu, se apaixonou por ti acima de qualquer outra pessoa até chegar à idade em que se começa a distribuir os afectos por estranhos. Se um dia tiver a sorte de ser mãe, gostaria que o meu filho saísse do meu seio para o teu peito, antes de visitar o abraço de qualquer outra pessoa. Os teus braços, agora tão frágeis, foram em tempos os mais robustos que conheci. Se não fores tu, quem vai falar das pessoas que ficaram para trás, e que enterraste, e que ainda vivem nos nossos que estão por vir? Que outra pessoa poderá fazer isso por mim?
Tudo isto significa que nos tempos vindouros terei de estar a teu lado, dar-te todos os beijos que te recusei durante anos, porque nunca soube amar com doçura e sempre houve um quê de bicho em mim que te feria. Tenho de deixar-te ver as novelas portuguesas sem repetir que não se aprende nada com aquilo, porque o que importa é que vão distrair-te do que se está a passar.
Perdoa se continuo à espera que me valhas; como disse, é hora de eu te valer a ti. E, respondendo à tua pergunta de quando tudo isto começou, quando o teu instinto te disse que as pessoas só partem quando já não são necessárias e me olhaste angustiada: “Eu já não faço falta, Célia?”.
Fazes, avó. Fazes muita falta – por isso vamos acreditar.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta aos meus filhos #93

A mamã está a aprender a viver sem amor.

Hoje Portugal foi classificado para a final do Euro 2016. Passaram doze anos desde que nos vimos em tal posição. Folheei o meu último livro publicado e encontrei um bilhete do Santiago Bernabeu, fevereiro de 2014. Foi aí que testemunhei o meu último relance de amor. Mas mais puro ainda, em Novembro do ano anterior.

A mamã, de camisa de dormir de algodão, estendida ao lado dele. Tinha-lhe oferecido o meu segundo livro, mesmo sabendo que ele não teria como o ler. Como ele era um homem solene, especial, demorou muito sentado na beira da cama, com ele entre os dedos, a estudar-lhe o peso, a capa, e a tentar deslindar o significado de algumas das palavras na sinopse. Afinal, os nossos antepassados falavam Latim.

Depois, respirando fundo, agradeceu. Estendemo-nos sobre a colcha, eu a escrever-lhe a dedicatória interminável que me pediu - quem me dera poder ler agora essas palavras, só para me dar conta de que também os afectos vêm e passam, e de que o que brotou de mim tão forte e se pôs sem resistência poderá voltar a acontecer quanto a outros homens solenes.

Mas falava-vos de amor. Se a mamã pudesse descrever o amor num momento - e mesmo sendo este um amor de momento, de circunstância, que serviu de bálsamo a um outro maior - a mamã pegaria nesse serão, porque outros semelhantes não os houve.

Deitada de barriga, acedi a ler-lhe um excerto do livro na língua em que foi escrito. Deitado de costas, ele ouvia o português a ecoar nas paredes de um quarto em silêncio, numa cidade em silêncio, e ostentava um sorriso na suavidade dos lábios. Ouvia, não entendia, mas ainda assim sorria. E a mamã leu um parágrafo, dois, uma página, duas, e ele não tirava os olhos dessas palavras desconhecidas, assim como não tirava o sorriso de condescendência do semblante, e a mamã daria tudo para ser assim feliz de novo.
Há quanto tempo um beijo não significa alguma coisa? Um beijo pode ser outro modo de fazer ecoar-se a alma nos outros.
E hoje falou-se de beijos.
E de tudo o que me dói, isso é o que me dói mais.