sábado, 3 de dezembro de 2016

Il Viaggio in Rosa - Parte III

Parte III

Brescia – Verona

Se tudo tivesse corrido de acordo com o previsto, o subtítulo seria “Brescia-Trento-Bolzano”. Ao invés, consegui pegar no carro com relativa calma. Estacionei no centro histórico de Brescia e fiquei tão orgulhosa de ter metido o carro entre outros dois numa rua em movimento que quase tirei foto. Só não o fiz porque estava demasiado frio para tirar as mãos dos bolsos. Itália é sempre bonita, e mesmo em Brescia havia uma fonte maravilhosa. Reconheci-a da foto do hotel, a preto e branco nos anos vinte, onde surgia com a água a pender em pingentes de gelo. Não me pude deter porque tinha reuniões marcadas. Visitei os clientes – sempre muito simpáticos, falam de Portugal com carinho. Falam na crise em Itália, falam nos estragos que o voo Ryanar de Bergamo tem causado, porque as pessoas arranjam-se sozinhas para viajar.
A meio da manhã insiro um novo endereço no GPS e vejo que é uma morada a 45 minutos do centro histórico de Brescia, na direcção de Milão. Entendi que algo estava mal, porque sabia que tinha organizado as visitas de modo a tornar as deslocações cómodas. Entendo que não posso fazer esse desvio porque ainda tinha várias outras reuniões a 200km daqui. Arranco para o escritório da Avis a fim de devolver o malfadado GPS que me ia matando na primeira noite. Demoro meia hora a dar com o sítio (que segundo o GPS era dali a 10 minutos) e não mo aceitam. Ao telefone haviam dito que não havia problema, em pessoa dizem-me para o deixar juntamente com o carro em Siena no dia de entregá-lo e explicar a situação. Entretanto liga o cliente do escritório a 45 minutos a dizer o que eu já imaginava – que o GPS estava bêbedo e que ficam no centro histórico. Dá-me outra morada (nº 100) e arranco. Daí a quinze minutos, conforme planeado, paro na rua que me havia dado. Porém a rua termina no número 38. Decido parar o carro e atravessar uma avenida enorme (onde o trânsito se faz à italiana – carros, motas, pessoas de bicicleta) e descubro que do outro lado a rua tem outro nome. Já não é a mesma. Telefono ao senhor e entendo que inventou aquele número de porta. É um milagre que o GPS me tenha levado até ali. Estaciono o carro e a máquina come-me 2,40€ por uma hora, e o arrumar fica com mais 0,60€ sem factura só porque tenho demasiado medo que se vingue no carro alugado.
Falamos durante um bocado e entendo que é hora de partir para Trento. É hora e meia de viagem na auto-estrada e às quatro e meia o sol põe-se. Não quero conduzir de noite porque é ainda mais aterrorizador. Então despeço-me e arranco, com o GPS instalado no banco do pendura sobre uma pilha de livros e documentos, a fim de ficar facilmente no meu ângulo de visão. Não demora muito para que eu entenda que o Google maps do iPhone está mais perdido do que eu. Manda-me virar à esquerda numa rotunda, como se não fosse rotunda, e mais adiante manda-me encostar à direita e manter-me à direita, quando vejo que estou a meter-me para a auto-estrada em direcção a Milão, quando deveria ir para a direcção à esquerda, que seria Veneza. Entro na auto-estrada para Milão porque é tarde demais para voltar atrás. Agarro o ticket. O GPS diz para sair na primeira saída e voltar a entrar em Brescia. Assumo que fui eu que ouvi/vi mal. Saio, o ticket dá 0,60€ só pela brincadeira. Volto a entrar em Brescia. Volto a sair para a auto-estrada. Volta a mandar-me para a direita, para Milão. E eu convencida que a direcção nunca poderia ser essa, meto-me para Veneza (era a direcção certa) na esperança que ele abra a pestana e actualize o percurso. Durante os primeiros dois ou três quilómetros insiste  que devo sair. Depois cala-se e diz que tenho 37 km nessa estrada (A4) antes de virar para a A22 em direcção a Trento. Respiro fundo. Meto-me na faixa do meio sempre que há faixas de aceleração à direita. A certo ponto decido que me vou meter atrás de um tolleyzeco que vai a 70 na auto-estrada e sigo assim a minha vida, em tranquilidade, durante vinte minutinhos. Mas é sexta-feira e a auto-estrada está cheia de camiões. Começam a acumular-se atrás de mim. A ultrapassar-me e ao trolley. A dado momento tenho quatro ou cinco à minha esquerda, o trolley à frente, um camião cujos faróis emolduram perfeitamente o meu retrovisor, coladíssmo a mim, e carros a entrarem na faixa de aceleração à esquerda. Mentalizo-me que vou morrer e pergunto-me se disse tudo o que devia a quem devia dizê-lo. Começo a pensar se fiz tudo o que podia pelas minhas miúdas, lembro-lhe de alguns detalhes práticos e legais que poderia ter tratado. Ganho coragem e, por uma brecha, safo-me pela esquerda. Fujo dos camiões, assim que posso meto-me na faixa mais à esquerda e vou a rasgar caminho. Para trás ficam os camiões e as suas buzinadelas. Lembro-me de ter travado a dado momento, quando o de trás se colou praticamente à minha bagageira, porque tinha acelerado tanto para fugir dele que estava em cima do trolley. Quando dou por mim tenho os olhos húmidos de lágrimas. Prometo-me que choro mais tarde, já vou hiper tensa, só me falta chorar e não ver nada. Além disso, tenho um Audi encostado a mim, a querer passar-me por cima, e tenho de arremeter para a direita. O Audi lá vai, desaparece num ápice. Se eu ia a 110 ele seguramente vai a 150. Por fim surge a saída para Peschiera, o sinal da estrada de saída da auto-estrada ordena um máximo de 40km/h, mas eu vou a 70 e o carro atrás do meu vai de novo colado e a apitar. Passo pelas caixas para pagar, estendo uma mão à senhora com o dinheiro enquanto olho para o GPS e vejo um cruzamento (manda-me virar à esquerda) e olho para a frente e vejo outra rotunda…
Tento ler o nome da cidade para onde o GPS me manda, a fim de encontrar a saída na rotunda. Nada. Engano-me, quando dou por mim estou de novo na auto-estrada e na mesma direcção de onde vinha. A faixa de aceleração está prestes a terminar, tenho um carro atrás de mim com prego a fundo e da esquerda vários carros passam a voar. Lembrando-me de outra experiência, entendo que se a faixa terminar tenho de parar, não me posso atirar para a frente dos carros que vêm da esquerda. Mas o que está atrás de mim já vai a apitar e eu ainda só dei um cheirinho no travão. Atiro-me atrás do carro que acabou de passar, antes que o novo passe. Corre mais ou menos bem para mim, que já estou a circular. Mas o carro à frente do qual me pus apita, e o que vinha atrás de mim na faixa de aceleração também fica a apitar. E eu entendo que não sou me vou matar, como vou levar alguém comigo. E é então que decido: perante o próximo erro, tenho de desistir. Não posso insistir mais. Tentei o mais que podia. Arrisquei mais do que o meu tempo, a minha vontade, a minha energia. Arrisquei a minha vida porque, até esse momento, não tinha entendido que estaria realmente em risco. Mal pus os pensamentos em ordem, passaram dez minutos e a primeira saída que me surge diz “Verona Aeroporto”. Verona é onde era suposto estar no dia seguinte. No dia seguinte era suposto guiar de Trento para Verona. Entendo que é um sinal. No aeroporto à rent-a-car. Logo, posso desfazer-me do carro lá. Posso pedir ao hotel onde ia ficar que me acolha uma noite antes. Ligo ao hotel de Trento, em pranto, e explico que não consigo. Não dá. Não tenho modo de chegar lá, lamento imenso. Ele diz que entende. É a voz de uma estrela ao telefone. Diz-me que a minha decisão é sábia e que é o proprietário do hotel. Vai cancelar tudo sem gastos. Se pudesse, ia buscar-me, mas é longe. Se pudesse, reconfortava-me, mas é longe. Agradeço. Diz-me que não sabe mexer com certas tecnologias, que cada um tem as suas dificuldades. Lá porque toda a gente guia, não significa que seja fácil. E lembro-me de coisas que me são fáceis mas que nem todos conseguem fazer, como escrever. Então a voz dele acalma-me e consigo delinear um plano na cabeça: vou entregar o carro. Depois vou pegar nos malões enormes e ligar ao hotel de Verona. Depois vou pedir desculpas às pessoas que ia visitar. Vou visitar uma delas no dia seguinte de comboio, se me deixar. À outra vou mandar um postal com uma graça qualquer. Vou apanhar um autocarro e vou para o hotel. Fico lá nos próximos dias, a respirar e a organizar os próximos dias. Certo que será mais difícil andar de transportes públicos com as malas, mas não será impossível.
No instante em que assino a entrega do carro, a vida começa a fazer sentido. A senhora oferece-se para ir ela buscar o carro ao parque onde o estacionei. Fala comigo como se fosse filha dela e elogia-me a maturidade. Digo-lhe, aos soluços (aqueles do pós-choro), que achava que era mais capaz. Ela diz-me que o importante foi a maturidade com que assumi que não conseguia. Que o resto paciência. Explico que esperei, a todo o instante, que alguém me viesse tirar o carro da mão e me proibisse de conduzir, pelo bem de todos. Diz-me que trabalha no aeroporto mas que tem medo de aviões e nunca andou de avião. Nem sei o nome dela…
As peças começam a encaixar-se. Primeiro o aeroporto é-me oferecido. Depois a senhora ruiva e amorosa do rent-a-car. Primeiro o senhor não sabe mexer em telemóveis. Só sms e chamadas. Depois a senhora que vê os aviões a passar mas nunca andou neles. Dois anjos.
Em seguida o hotel diz-me que tem vaga, se quiser posso ir um dia antes e ficar por três noites. Explica-me que só tenho que apanhar um autocarro, e depois outro. Em meia hora estou no hotel. Entro no aerobus tão contente que as malas não me pesam nada. Apesar de o motorista me oferecer ajuda, subo a maior. Vou a rir-me. Há um dia e vinte horas que não me ria (é o tempo em que tive o carro, segundo o recibo). Sento-me perto do motorista e a primeira rapariga que entra, com todo o autocarro livre, escolhe sentar-se ao meu lado e participar na conversa. Vamos a rir-nos os três até ao centro de Verona. Ele diz-me que está “naquele buraco” de conduzir sempre o mesmo percurso há vinte e cinco anos. A rapariga diz-me que veio trazer o pai ao aeroporto e que vai voltar para Bolzano. Está stressada, é bonita mas tem muito rímel. Tem os olhos húmidos e diz que está muito cansada. São tão simpáticos e ficam tão contentes por eu adorar Itália… quando desço do autocarro em Verona Porta Nuova, tenho um a levar-me a mala enquanto eu levo a outra e o terceiro me espera do passeio a sorrir. “Vieni, vieni”. Oiço as palavras do Pinkerton para a Madame Butterly. L’amore non uccide, ma da vita! O senhor motorista aponta o sítio exacto de onde sai o próximo autocarro, e em trinta segundos o mesmo chega e eu arranco.

Nessa noite caminho quinze minutos até ao centro de Verona. Na Piazza del Duomo, admiro a fachada da catedral. E de repente a estátua de um anjo aponta a porta. Lembro-me da minha escultura de anjo favorita, a que está logo à direita quando se entra na Igreja de Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, em Roma. Emociono-me. Estou onde tenho de estar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Il Viaggio in Rosa - Parte II

Parte II - Brescia

Estou a ficar uma cagona com a idade. Conduzir tira-me da minha zona de conforto. Não estou habituada e não lido bem com a imprevisibilidade. Não sei onde estou e inquieta-me ser eu a disturbar o fluxo do trânsito. Tenho sorte – muita sorte – por não entrar em pânico e por manejar mais ou menos bem os carros. Posso pôr as mudanças tarde, e etc., mas quando me sinto no limiar dos nervos consigo segurar o volante mais um bocadinho até poder parar e respirar ou chorar ou seja o que for. Tenho de procurar o lado positivo disto. Tenho estado atenta e saio com relativa facilidade dos problemas em que me meto. Hoje tive de guiar quarenta e cinco minutos na auto-estrada. A cada instante dizia-me que faltavam menos km. Faltava menos tempo. Fui quase sempre na faixa do meio, mentalizada de que os outros hão de me contornar por onde entenderem. Numa saída da auto-estrada, fui para as máquinas dos camiões para validar o bilhete. Tenho sempre de sair do carro porque a minha mão não chega à máquina. O senhor atrás foi simpático, esperou e entendeu de imediato que eu não fazia ideia do que estava a fazer. São muitos anos na estrada, suponho. Noutra saída afastei-me da direita porque estavam a entrar carros de uma faixa de aceleração. Depois o GPS disse que a minha saída era já ali, e tive de me meter para a direita meio à bruta. Coitada da rapariga que me apitou. Juro que os nossos carros ficaram a meio braço de distância. Não acredito no Deus das igrejas, mas sei que tenho uma estrela. Sempre tive. Obrigada, estrelinha. Sei que estás aí a todas as horas. A minha família tem uma espécie de maldição em cima, mas há essa força boa a contrariar tudo e a pedir-nos calma e fé. Vou ter fé que amanhã vou conseguir guiar três horas com serenidade. Vou fazer planos para parar a meio, porque ir ali hirta uma hora já foi demais. Detesto guiar à noite, não vejo nada. Além de que vou sempre com a impressão de que as minhas luzes estão mal. Não devia ter ido ao google ver os símbolos, porque agora percebi que estiveram mesmo mal. O lado bom é que serão só quatro dias a conduzir, e um deles já passou. Agora faltam três dias, só. Mais ou menos oito horas na estrada e acabou-seo meu suplício. Sempre gostei da ideia de conduzir e sempre tive um certo desprezo às pessoas que não conduziam por medo. Achava (e acho) que os medos são para ser ultrapassados. Porém o medo não é propriamente uma coisa racional. Só não posso deixar que me paralize. Entretanto, mal posso esperar para largar o raio do carro e ficar sozinha com 10kg em cada mão nos transportes públicos…
Assim que isto acabe, duvido que toque num carro tão depressa. Acabou-se-me o encanto pela condução. Admiro todas as pessoas que se metem ao volante de um, à mercê de todos os malucos que por aí andam, sem a mais vaga ideia do que estão a fazer. Como eu.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Il Viaggio in Rosa - Parte I

Parte I - Bergamo

Como sempre, sentar-me num avião dá-me um sono sobrenatural. Adormeci antes da corrida final e nem me lembro de tirar as rodas da pista. Devo ter dormido durante três quartos da viagem. Depois acordei e os percalços começaram.
Para poder ler pedi um café - já sentia a moínha de uma grande dor de cabeça a agigantar-se. Depois entornei o copo de café sobre o meu casaco e o moçoilo que ia ao lado. Tirou um lenço do bolso e estendeu-mo com prontidão, aproveitando para dizer que os portugueses dizem constantemente obrigado. O restante tempo de voo foi passado meio a analisar-lhe as mãos - mãos de homem bonitas são mais raro do que possa parecer, e este precisava de um jeito nas unhas.

Aterrei em Bergamo sob um frio de gelar ossos. As malas, embora juntas não pesem mais de 25kg, são dois monos cheios de coisas frágeis que trago uma em cada mão. Atravessei a alça da mala de senhora ao pescoço. Meio afogada por isso, pelo cachecol, pelo casaco e pelas malas, cheguei ao balcão de rent-a-car. Enquanto assino os papéis dou-me conta de que os dedos me estão a tremer. Estou aterrorizada. Não costumo conduzir - explico ao senhor. Quase queria que ele me tirasse os papéis da frente e dissesse "minha menina, você não pode sair daqui com o nosso carro". Mas não... mete-me a chave na mão e faz-me assinar uns papéis, o irresponsável.  Depois de muito repensar, concluo que vou precisar de um GPS. O valor é absurdamente caro, mas não vi grande alternativa. O GPS vai ajudar a evitar um desastre potencializado por uma condutora como eu andar perdida na estrada. Saio dali com a chave do carro e indicações para o parking, a tentar mentalizar-me que vai correr tudo bem e que o meu chefe não me vai assassinar por causa do gasto extra do GPS. Não encontro o parking e gelo enquanto dou duas ou três voltas ao perímetro do aeroporto. Já irritada, porque as malas são um pesadelo, dou com o sítio. Olho para um carro, convencida que é aquele, e quando clico na chave para o accionar é o do lado que reluz. Uma miniatura de carro com o aspecto mais frágil que já vi. Foi a primeira vez que aluguei um carro que vinha com uma lista de mossas. Tudo o que tenho a fazer é não acrescentar nenhuma. Ou bater só onde aquelas já estão.
Arranco com o carro depois de preparar tudo. GPS a postos dá 20 minutos de estrada até ao hotel. Tudo bem, vinte minutos é a via rápida. Eu consigo. Ganho coragem e saio dali para a via rápida, depois de circundar o parque duas ou três vezes para me habituar ao carro. Dizer que ia aterrorizada é pouco. Quando me apercebi que o GPS estava apagado pior ainda. Tento seguir as placas para Bergamo, sabendo que teria que parar algures para me orientar. Engano-me na saída e vou para Seriate. Quase causo dois ou três acidentes, mas os italianos são inesperadamente civilizados ao volante. Sou eu que arranco buzinadelas e travagens bruscas. Paro porque me apercebo que vou a chorar e que não vejo nada. Choro um bocado com a testa contra o volante, como se vê nos filmes. Já entendi porquê. Pergunto-me a quem vou pedir ajuda. Quem vai ajudar-me ali? Não deixo que a crise dure muito porque passaram quase três horas que aterrei e estive sempre a vinte minutos do meu destino final. A cabeça explodiu, a enxaqueca instala-se a preceito mas eu decido que vou ligar a net e seguir o GPS do telemóvel. Apesar de me ter perdido logo, parece que cortei meio caminho. Estou a dez minutos do hotel - em pânico - mas quase em segurança. Arrisco. Onde vou pôr o telemóvel de maneira a que o veja? Pouso-o e oiço a voz da senhora em Português a debitar indicações. Acalma-me tanto que me sinto abraçada. Respiro fundo e vou fazendo o que me manda fazer, passando por obras na estrada e por motas viradas e equipas de socorro a levantar motociclistas do chão. Está tudo escuro e calmo. Quando dou por mim cheguei ao estacionamento. Depois de umas voltas largo o carro, respiro fundo e posso gozar a dor de cabeça. As rodas das malas prendem-se em cada pedra do centro histórico da cidade, e demoro três vezes o necessário para chegar ao B&B, que era logo do outro lado da estrada. A estacionar está o rapaz em cima do qual despejei o café. Não me vê mas reconheço-lhe o nariz e os óculos. Ó mundo pequeno! Já no check-in, o Gigi diz-me que a mulher dele faz anos no mesmo dia que eu. Como o B&B se chama "A Torre", o meu quarto é o último ao cimo. Não há elevador a aliviar os quatro lances de escada estreita. O Gigi, felizmente, dá uma mãozinha com as malas. Consigo sorrir.
Vou ao bistro do lado - cujo jazz me chama de longe - para buscar conforto numa refeição italiana. A cozinha está fechada e dizem que me vão trazer umas fatias de pão e presunto. Quando dou por mim tenho uma tábua com um porco inteiro à frente, feito salami e prosciutto. Só queria uma bucha...
Apesar do bolor, o queijo é bom. Já a polenta (?) é difícil de entender. Parece a textura de migas de pão e só consigo identificar um ingrediente: milho. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Oiço a senhora levar quase tudo para trás (era presunto para quatro homens) e queixar-se que tinha avisado que era demasiado. Dói-me demasiado a cabeça para rir.
Preciso de me rir. Não consigo - ainda não -, mas para me acalmar prometo que amanhã vou visitar as agências todas a pé. Vou evitar aquele volante até à hora de almoço.
Penso que se conseguir meter um pouco de humor nisto, tudo vai correr bem. Tudo vai acabar bem.

domingo, 27 de novembro de 2016

Carta aos meus filhos #102

A mamã sente-se fraca e desinspirada. Costumo viver de paixões e nenhuma me tem pulsado nas veias. Fui à ópera e estremeci. Foi um pouco de emoção num coração hibernado. É-me involuntário. Madame Butterfly é de uma beleza que dói na alma. Se se tiver uma, os pelos da nuca eriçam-se todos quando os dois amantes cantam a Notte Serena. Só para depois ele a levar ao suicídio.
Não me apetece escrever. Mas tenho sempre e a todo o instante de manter a cabeça ocupada. Por isso vejo filmes. Consegui avançar um pouco n"A Campânula de Vidro" da Sylvia Plath. Mais famoso que o livro que ela escreveu é o modo como, dois meses depois de o publicar, meteu a cabeça no forno a gás. Estou na parte em que a depressão da sua personagem principal - Esther, depressiva, vai começar a fazer terapia com choques eléctricos. Esther inventa um pseudónimo quando começa a escrever o seu livro. Elaine. É-lhe importante que mantenha o mesmo número de letras do seu nome. Seis. Sylvia. Esther. Elaine.

A mamã faz vinte e sete anos daqui a uma semana. Vou estar sozinha. Nunca se sentiu mais sozinha na vida. Mesmo quando estava sozinha no passado, sabia que nào estava sozinha. E a mamã procurar por estar sozinha a vida toda. Mas não só. E o abandono momentâneo só se compara ao de ver a mãe a sair pela porta da avó, com um irmão pela mão e outro pela anca, enquanto eu ficava a dizer adeus no corredor e a avó me puxada para dentro e dizia que não havia dinheiro para pagar a conta da luz. Às vezes ia até ao patamar vê-los desaparecer na esquina. A mãe tinha um blusão de cabedal. O irmão também, e tinha os cabelos compridos e encaracolados, apesar de ser um rapazinho. A mamã está num momento em que tudo me parte o coração. As lágrimas têm surgido, mas como consolo. Enquanto forem alívio a mamã fica satisfeita. Aceito qualquer coisa que me alivie as dores.
A mamã vai ficar dezoito dias sozinha. Foi uma escolha minha, mas agora parece-me que vou ter que lidar com coisas maiores que eu. Como conduzir e estacionar. Pior que seja num país onde nada se respeita na estrada. A mamã nunca teve medo de nada. Mas agora tem. Por enquanto consegue deitar o pé à embraiagem e sacudir esse medo. No outro dia, viajando no banco de trás de um uber, o motorista diz que, a nível pessoal, fez Ponte Vasco da Gama/Marina de Vilamoura às oito da noite em quarenta minutos. A família esperava-o, mas podia ter chegado só o telefonema do Inem e o funeral de caixão fechado.
A mamã tem medo. Gostava que vocês estivessem cá para ser forte por todos. Mas a mamã jã não tem porque ser forte. A mamã ...
Está desinspirada. O médico de clínica geral que me atendeu a propósito da faringite leu o título do livro que ando a ler. Perguntou-me porque ando a ler coisas sobre uma mulher depressiva. Leu a minha ficha no computador. No final disse que é psiquiatra e para não acreditar na totalidade em mal-estares psicológicos apenas baseados em questões fisiológicas. Ele disse "falta algo na sua vida". E a mamã dizia que está tudo bem. E ele dizia "não, falta algo e você não quer dizer o que é se não desmancha-se em lágrimas, mas sabe bem o que é".
A mamã tinha esperança que houvesse cura sem felicidade. Porque assim podemos travestir a nossa realidade como quisermos. Mas se me exigem uma jóia verdadeira para que tudo fique bem, eu não posso. Não depende de mim e eu não posso depender de outrem.
Tudo acontece por um motivo. A mamã não sabe se vai escrever mais livros. Do momento onde estou, parece-me que se olhar para o futuro não vejo mais livros. Não vejo mais amores. Não vejo filhos. Não é que a mamã esteja triste ou no escuro. Às vezes da luz vê-se melhor. A luz traz a escuridão. Como um grande amor pode trazer só desgostos.
A mamã precisava de um planeta novo, onde se exilar. Por enquanto vou para Itália, e apelo à civilidade dos condutores e ao universo para que me devolva a chispa da inspiração. A partir daí acredito que possa construir uma estrada de tijolos amarelos e, quem sabe, escapar-me daqui.

domingo, 13 de novembro de 2016

Carta aos meus filhos #101

De vez em quando vêm ondas de dor. De ansiedade. A mamã tem tido sonhos maus. Tenho sonhado que tem AVCs. É um sonho assustador. Sinto o sangue a fluir de um lado para o outro do meu cérebro, como ondas a rebentar dentro da minha cabeça. A mamã sonhou que acordava depois de uma dor atroz e me diziam que tinha ficado um dia sem sentidos. Os tempos são estranhos. Talvez não seja o mundo que está pior (a eleição do Trump deixa-me indisposta), talvez sejam os sonhos e a esperança e as ilusões que ficam para trás. Vou chegar aos trinta sem me reconhecer. As minhas prioridades ficaram de cabeça para baixo. O amor é a última delas. A mamã agora passa o dia com as mãos enterradas no alguidar da roupa lavada, a cheirar o detergente na ponta dos dedos. Estende e apanha roupa. Até cozinhei nestes dois dias.
O trabalho não pára: deixa-me doente e impotente. Ontem tive de tomar uma coisa para me acalmar. Não posso fazê-lo todos os dias: não quero ser uma aleijada, uma dependente. Tenho muito que fazer - ainda não tirei um Mestrado nem fiz voluntariado em África. Ainda não vi a Turandot nem outra ópera na Arena de Verona. Por falar em arena de Verona... A mãe está quase a fazer vinte e sete. Vou festejá-los sozinha, com livros e arte. A mamã precisa de descobrir o refúgio dentro de si própria. Nunca como este ano a vida me afastou tanto das pessoas que amo. Parece que estamos todos fadados a ficar longe uns dos outros. Talvez seja verdade, e se for a mãe deixará de lutar. Não vou gastar mais energia com pessoas que já manifestaram que lhes sou indesejável.
O momento: estamos a viver para o momento. A entregar-nos ou a lutar por pessoas que não têm qualquer valor para nós, e às quais nos confiamos com os impulsos de uma qualquer paixão porque sabemos que nunca nos serão nada. Que não têm como nos magoar. Que podemos dar só um bocadinho de nós, mostrar-lhes só o lado que queremos e ocultar o resto. A parte que aqueles que nos amaram por completo mais acarinharam: os nossos medos, defeitos, imperfeições. As coisas sagradas estão debaixo do tapete. Estamos todos a despir-nos de tudo para podermos nadar para longe. Sem âncoras, sem pesos, sem olhar sobre o ombro.
Hoje, enquanto dobrava roupa, a mamã entendeu uma coisa:
O dia chegaria em que estaria sentada, frente a frente, e não iria sentir nada. Nada. Em que iria vê-lo pelo que é. Um outro corpo. Uma outra vítima da evolução. A mamã esperou tanto que esse dia chegasse, e quando chegou nem um enterro digno lhe fiz. Mas chegou. Doía tanto que a mamã acabou por deixá-lo ir. O que matou tudo foi o total e completo desapego por mim. Pelo que me é sagrado. Como daquela vez em que o meu pai se viu livre de um livro meu. Não mediu as consequências: não podemos pisar naquilo que é mais precioso para o outro e esperar que fique tudo igual. Foi um momento de viragem. A mamã andou zangada umas semanas, a culpar-se pelo tempo perdido. A perguntar-se porque o perdi. O que vi nessa aura, afinal? E agora perdoei-me. Perdoei-me e perdoei-o. E sinto-me suficientemente bem para, enquanto dobro a roupa, lhe desejar boa sorte com os assuntos do coração. Sorri e pensei "boa sorte, meu amor". "When love and trust are gone, I guess this is moving on". Mas não significa que a pessoa não tenha sido o maior, o mais trágico, o mais sangrento amor que jamais terás. O mais negro e o mais luminoso em simultâneo. Com isto faço-lhe o funeral: tempos houve em que trazia luz para a minha vida; em que éramos luz um para o outro. A mamã está convencida de que ele gostava de mim, sabem? Não uma sombra do que eu gostava dele. Mas houve amor nos olhos dele, em algumas ocasiões. Talvez duas pessoas com bom coração não tenham porque não ter afeição uma pela outra. E depois eu puxei-nos para o teste final - nem sequer houve reflexão por trás. Foi pura imprevisibilidade. E acabou tudo, como nesse momento quis que acabasse. Ansiei por dar um último capítulo à estória, e o mesmo veio sem que eu pudesse antecipá-lo. Ainda bem: tudo acontece porque tem de ser. Amores maiores acabam quando o fogo se extingue, e o fogo extingue-se por falta de oxigénio. Por isso esta cidade fechada deu-nos a liberdade que precisávamos. O alívio que ele queria. Fui-me embora do quintal dele. No more love letters, no more love.
O meu coração já estava feito em cacos há muito tempo. Há muito que merecia melhor do que esta história. Era bonita uniteralmente. Seria bonita se eu dissesse que este homem esperou por mim dezanove anos, como o marido de uma aluna minha. Mas não: eu seria o marido que esperou.
A mamã quer ser a primeira escolha de alguém, acha que merece isso. E pensar que a felicidade já esteve ao alcance dos meus dedos e que não fui uma actriz suficientemente boa e que, mesmo feliz:
- Se ele entrasse por essa porta, deixavas a comida a meio e ias-te embora com ele, se to pedisse.
Se a felicidade voltar a sentar-se comigo num restaurante em Sintra, vou garantir-lhe que não. Não vou a lado nenhum. Porque o amor não é tudo e tantas vezes até atrapalha. E porque este morreu e eu nem sequer fui ao funeral. Estava ocupada a estender roupa.

Por isso, e em nome dos momentos plenos de luz que vivemos, que sentia que nada abalaria o meu amor por ele e em que dentro dele havia um carinho que não nos deixaria velejar para demasiado longe um do outro, digo, com sinceridade:

Vai e sê feliz.
(E já não consigo conceber terminar com ", meu amor").

Agora só desejo sair depressa daquela fase de que fala uma canção tradicional irlandesa:
- I wish, I wish
I wish in vain.
I wish I had my heart again.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Carta aos meus filhos #100

A mamã está a tentar. De certo modo, está até a conseguir. Apesar das intempéries, estou numa boa fase. Posso entrar numa livraria e comprar o livro que quiser. Posso comprar chocolates na bomba de serviço. Posso ouvir a música que quero. Estou sozinha - e é uma solidão agridoce. A mãe não sente falta de outro corpo cá em casa. Nem consigo imaginar como seria dividir o sofá com outra pessoa. Talvez seja bom, ou talvez te anules e passes a ser só um apêndice do outro. A mamã sente que a gravidade da Terra puxa os corpos para se tornarem apêndices de outros. A mamã acha até que as pessoas não sabem o que fazer de si próprias, nem consigo próprias. É vital que haja outro, um outro, que nos arranque a nós e nos leve a sair. É vital que te moldem para fora daquilo que és. A mamã vê pessoas que não têm qualquer interesse na vida, nem garra, nem paixão. Pessoas que andam ao sabor da maré ou das sms e da agenda de outro alguém. A mamã esforça-se para que isso não lhe aconteça, e para que a minha vontade, os meus desejos, aquilo que eu sou, e que amo, e que me dá alento, permaneça sobre todo o resto. Só me apaixonam as pessoas completas. As pessoas que não se acomodam no que é confortável, as que têm planos, corações em erupção, sopros de inspiração. A mamã está farta de pessoas desinspiradas. A mamã vê que caminhamos nas ruas empedradas de Lisboa em horas pouco recomendáveis, mas que os nossos corações, por falar em corações, deambulam no firmamento. Divagam, iludem-se, entregam-se a quem apresentar mais obstáculos. Adoramos que nos digam que não. Adoramos que nos deixem à espera. Quando acontece, e disso estamos certos, há-de saber melhor. Há-de saber a conquista. Estamos enganados. Até isso sabemos, se tivermos coragem de ver melhor para dentro de nós. Tudo é temporário, tudo começa ao balcão de um bar e termina nas redes sociais. Tudo se resume ao quão fácil é escrevermos uns aos outros, sem que nada se diga e sem que nada de nós se dê. É fácil prometer-se o que se sabe que não se vai cumprir. O coração da mamã está aninhado e não se quer mexer. Não é bem preguiça. Se surgir alguém que valha a pena, sei que consigo que se mexa. Talvez não queira. Talvez seja uma escolha. É o caminho mais difícil, sabem? Em cada esquina está alguém. A mamã não consegue dar dois dedos de conversa a ninguém sem que se sinta de férias de si mesma.
A mamã vai voltar a sítios que me são muito importantes. Vou ver arte - e a arte alimenta-me o espírito como nada mais. Observo a escultura e sou esculpida por ela. Admiro o vermelho do Raffaello e sou tingida por ele. A mamã quer essa vida, que abracei por me trazer tantas satisfações: a dos livros, do jazz, das viagens, da boa comida e do vinho. A mãe gosta de se reinventar, sem abandonar tudo o que já foi. A mamã gosta de ter planos e de ser ela a traçar rumos. Não me importo de seguir a escolha dos outros, se for também a minha escolha.
A mamã não costuma beber chá, mas peço e faço muitos chás. Há uma janela ínfima de tempo em que o chá está no ponto. Entre o estar muito quente e o estar frio, há cinco minutos em que me dá prazer beber chá. O resto sobra. Ando sempre a lavar anéis de cafeína das minhas chávenas esquecidas na secretária.
Só sei que é uma época de conciliação. Se calhar é uma época de conquista, em que somos todos estrategas e queremos saber até onde podemos ir com as armas que temos. Somos todos cavalos selvagens nesta idade, as crinas ao vento e um coice a cada sobressalto. Podemos correr até ao horizonte, e para lá dele. E ao invés ficamos dentro da cerca, unidos uns aos outros, ou à silhueta dos outros, à distância, ou à sua sombra, depois de partirem.
Filhos, não se tornem o objecto de consolação ou a arma de arremesso de alguém. Apostem no que querem fazer, e que vos deixa de coração em sobressalto. A cada vez que a mamã pega num microfone, no autocarro, perante cinquenta italianos, a mamã tem medo, mas a mamã vence. Há dois dias tive três sinais de que estava onde tinha de estar:
Primeiro perguntei a uma senhora de onde era: é de Verona. Depois perguntei a outra senhora do grupo de onde é: também de Verona. Disse que vou lá passar o meu aniversário. Perguntou-me qual era o dia. É o dia do aniversário dela, também. Depois o motorista disse-me que Veneza é a sua cidade favorita, aquela onde regressa sempre com o mesmo entusiasmo. Desta vez, e não sem receio, a mamã vai partir a toda a velocidade para lá da cerca. E sem apêndices para trás: serei eu, a arte, a aventura, os livros.

O único inconveniente é o cheiro dele no colarinho da camisa. Fora isso, não há abalos no meu equilíbrio.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Carta aos meus filhos #99

A mamã sente que este capítulo da minha vida está a chegar ao fim de tantas formas...

Está tudo a encaminhar-se para o fim, umas coisas de modo mais literal que outras...
O orgulho tem sido o grande protagonista desta fase. O orgulho e a teimosia, e uma necessidade sobrehumana de me elevar acima de mim mesma e de me encontrar lá em cima. Sabem, não foi intencional mas a mamã perdeu demasiado tempo com becos sem saída. A mamã quis, durante longos anos, ver luzes ao fundo de túneis intermináveis. Neste momento, sentei-me dentro do túnel, arrastei os pés por sobre os carris e acariciei o ferro, cheirei a ferrugem. Chegou a hora de colocar a possibilidade de que talvez o túnel só me leve mais fundo, mais para o escuro, mais para o frio, mais para baixo. E tenho de decidir se volto para trás, para a realidade distante e estéril em que vivia antes da promessa de todo o resto. Estive tanto tempo no escuro que julgava ser capaz de distinguir sombras na penumbra. A mamã conhece os ângulos da ferrovia e a humidade das paredes do túnel, conhece-lhe o ruído do saibro conforme caminho, convencida de que a passgem seria longa mas valeria a pena. A mamã cansou-se. A mamã sabe que ainda não é tarde demais. A mamã é jovem, independente - sou independente, quantas pessoas podem dizer isso? - e, se tiver mesmo de ser, amanho-me sozinha (amanhar = remover escamas e espinhas até tornar o peixe comestível). A mamã hoje abriu uma garrafa de um azeite bem caro que me foi oferecido e banquetei-me dele. Depois, no caminho da cozinha para a despensa, fi-lo dançar no ar e escaquear-se no chão. Porquê? Porque haveria de criar todo um ritual em torno do azeite, prová-lo molhando o indicador no gargalo, chamar as minhas irmãs e incitá-las a fazer o mesmo, fazer pasta à italiana q.b. e celebrá-lo com mangericão, porque tive de aquecer pão no forno e molhá-lo no azeite e nos orégãos e lamber os dedos do azeite e dos orégãos, se depois o azeite acabou por entre cacos, no chão, a escorrer numa lentidão agonizante por entre as lajes que foram escrupulosamente limpas poucas horas antes? Porquê? Porque é um azeite bom demais. Porque valeu a pena. Porque fiquei sem o azeite mas tinha de ser. É tudo tão absurdo quanto o grito que lancei quando o vi no chão, a ensopar tudo, e me soube impotente.
A mãe está farta de estar no escuro a sonhar com a luz. A mamã quer fazer amor a ouvir a I Put a Spell on You da Nina Simone. A mamã quer saber que não mais terei de virar as costas àqueles que amo - àqueles que amei tanto e de modo tão tosco, tão ingénuo, tão crente, e depois tão amargurado, tão desencantado, tão contrariado. A mamã precisa de se convencer de que dando meia volta e saindo por onde entrei volto à luz. E tenho de aprender a viver com o facto de que perdi tempo no túnel. Mas, enquanto lá estive, banhei-me no azeite, amansei os medos com ele, ainda lhe sinto o perfume, ainda me recordo da qualidade inegável no rótulo, do brilho dourado, do modo como valeu a pena acender o fogão por ele.
A mamã está a dizer disparates, mas estão a fazer tanto sentido quanto fez lamber o braço quando o azeite deslizou da ponta dos dedos por ele abaixo. Não desperdicei uma gota do azeite que o universo me havia destinado. O resto não era meu, e quando já era derrame no chão, não podia rebolar-me nele sem perder a dignidade e manchar a dele.
A mamã anda a trabalhar demais, mas felizmente os sentimentos são um bom Norte. A mamã é, a todas as horas, ciente de que o nosso corpo, a nossa cabeça e o nosso coração querem coisas muito diferentes, e em mim parece que os três discordam mais no que em muitas outras pessoas. A mamã desceu a barragem do Carrapatelo, são trinta metros de água a descer e vinte minutos em que a tua vida dependente de engenheiros, da obediência de um rio e das condições do cruzeiro. E, olhando para o cimo, para a força com que a parede de pedra maciça e o portão de ferro continham a água, que ainda assim se derramava sobre as nossas cabeças, entendi que racionalismo algum contém o rio. Ele há-de infiltrar-se sempre em todas as brechas, em todas as fraquezas da solidez do material. Se lhe derem tempo, umas décadas talvez, ele desfaz o mérito da pedra e do ferro e reencontra o caminho para o seu leito. Assim que possa, aquele rio há-de esvair-se de volta ao outro, que é o mesmo, e que repousa trinta metros abaixo. Não tem como o rio não querer fazer parte do mesmo rio, ainda que o que o dilacera interponha altitudes e depressões entre os dois. Chamem-lhe gravidade; ou amor.
A mamã tem noção das coisas inevitáveis da vida, até hoje só me cruzei com duas, ambas trágicas, a seu modo necessárias, e também sublimes pela sua importância incontornável: o amor e a morte. A mamã é impotente perante ambas. 
Deixo que a Nina Simone me convença de que talvez a perfeição exista, talvez exista um motivo para tudo e talvez o azeite volte a escorrer pelo meu braço, se eu não tiver tanto medo que tudo acabe no chão.