Entendi que cheguei à
faixa dos vinte e seis, quase vinte e sete anos, e ainda há muita mentira por
aí. Não percebo como é possível que se minta e se distorça a realidade. Não
entendo qual o objectivo, além de aquele de se amassar os sentimentos dos outros.
Não percebo qual a gratificação que pode advir de se contar uma mentira e ver a
vida do outro desabar por causa de nada. Ou de vê-lo repeti-la e
ridicularizar-se. A mamã sente que se afastou, mas afastei-me pouco. Tudo
encontra um caminho até mim, e é difícil isolar-me do núcleo e tapar os
ouvidos. Mas a verdade é:eu não quero saber. Bastam as inseguranças de cada um, as
desconfianças íntimas, para distorcermos a realidade dentro de nós. Quando isso
acontece, costumo dirigir-me a quem me causar dúvida e tentar mitigá-la. Ao
final de dez anos a colocar dúvidas, as pessoas aborrecem-se e tens de te calar
e aprender a viver com elas ou simplesmente tapas os ouvidos e vais morar para debaixo de uma pedra. Tens de viver com a possibilidade de que sejam verdade. E as
mentiras que contam não são coisas simples, não é sobre quanto se pagou por um corte
de cabelo. São coisas que interpõem pontes entre as pessoas, que estalam o
verniz da confiança e que acabam com amizades num estalar de dedos. Mas o que a
mamã entendeu, além de tudo, é que o meu próprio desgaste me torna vulnerável.
Se não estivesse sempre à espera que uma tragédia se abatesse sobre a minha
cabeça (se não saísse sempre da sala antes que os outros saiam e me abandonem),
a última mentira não se teria afundado tanto no meu coração. A mamã não entende
o que se passa. Não se pode acreditar em nada nem em ninguém, porque as fontes
que chegam aos outros também vêm contaminadas. A mamã só queria poder estar
longe e não ouvir nem ver nada. Estar com os outros tornou-se penoso; termino
os encontros a conhecê-los menos do que antes, porque as versões nunca se
concertam e tu não podes, simplesmente, interromper a pessoa a meio do relato do seu jantar e perguntar "ouve lá, disseste mesmo que sou uma cabra mimada?"
Pior, além dos rumores falaciosos, há as mentiras piedosas, as
mentiras destrutoras e as mentiras só porque sim. O esforço para se estar no pódio e se ser aceite é quase ridículo de tão empenhado... Porque é tão importante que se tenha alguém ao lado? Que se esteja a viver a vida dos outros (travestida deviver a própria vida)? A mamã está a ver as pessoas que sempre considerou puras a pôr a touca de banho para mergulhar na pocilga. E ainda dizem que não cheira tão mal como pensavam. Temos de aceitar as pessoas como elas são. Certo; mas daí até permitirmos que joguem com a nossa realidade, com a nossa verdade, vai um mundo de princípios. E há o ser chato, o ferver em pouca água, o beber demais, o não dizer uma palavra de conforto quando se sabe que estás na merda, mas depois há o inventar que o teu marido estava fechado no carro com a secretária. Como pode isto ser aceitável? Não se pode confiar num suspiro, num boa noite, num “estás boa?”.A mãe vê pessoas a
descobrir mentira atrás de mentira e, ainda assim, a deixarem-se ficar.Porquê?Estaremos tão sozinhos assim que nos submetemos a tudo? Quando foi que os
laços tão fortes que nos uniam se enredaram de tal modo que tivémos de cortar
tudo à tesourada? É impensável sairmos da selva de cinzento para respirarmos um pouco e repensarmos tudo à luz da distância?
A mamã fumou mais cigarros esta
semana do que no ano todo… E a avó está doente, é um atentado contra ela que me
refugie na janela a tentar que a nicotina e o alcatrão organizem as ideias que
não encontram prateleira nos meus miolos.
É bom que o amor venha e se derrame
sobre a cabeça de todos até nos deixar encharcados, se não as ervas daninhas
vão arrancar-nos de vez uns aos outros.
~sometimes you gotta burn some bridges just to create some distance.
Não se
vivem tempos fáceis, mas a mamã está tranquila. Entre outras coisas,
tranquiliza-me o facto de poder olhar-me no rosto com a consciência de que
nunca, em dia algum da minha vida, me desviei do meu caminho para desvirtuar o
de outro, ou para lhe causar dissabor. Casualidades acontecem, mas a intenção
forja a alma, e a da mamã está lavada. Experimento uma paz e uma libertação por
que há muito ansiava, e chegou-me pelos caminhos tortuosos que a vida toma para
nos conduzir para aquilo que temos de ser.
Não
entendia ao certo a sensação que se apoderou de mim nas últimas semanas,
durante as quais trabalhei tanto, enquanto o mundo se divertia. Mas não advém
mal ao mundo que o mesmo se divirta, porém a mãe vê as pessoas arrancarem os
braços a outros e usarem-nos para coçar as costas, e isso, tempos houve,
corroía-me as entranhas.
Esta
mulher que não acredita em deus nem na canonização desuper starstem vivido um estado de lucidez que
espero que não tenha fim. Sinto-me quasereligiosa,
e a religião é a minha, pelo que não cometo atentados contra os meus
sermões. Estendi-me sob oDark
Skye analisei os movimentos
ao meu redor. A paz inundou-me e criei um espaço dentro de mim que servirá de
refúgio a todos os desafios que se avizinhem. Quando vejo uma estrela cadente,
a minha ideia é uma apenas;que
ela não sofra.
Todo o
resto é um circo para o qual a mamã não quis comprar bilhete. O circo está na
cidade e sou obrigada a ouvir o riso das crianças. À noite, as luzes do circo
cruzam o céu e a mamã tem de se lembrar que os palhaços e os figurantes são
representados por pessoas que não costumavam usar máscara. Mas há pessoas que
cedem às oportunidades, e por isso trouxeram a máscara para a cabeceira da
cama, e durante anos convenceram-se de que era um acto irreflectido, sem
consequências, jamais a usariam. Mas ela estava lá, e, quando o instante se dá,
é só cobrir o rosto e saltar para o palco. A mamã nunca chegou a comprar
nenhuma máscara, por isso é pouco provável que venha a usar uma.
Se a mamã
pensar bem, o que a invade é uma espécie de ternura, quase compaixão. A mamã
sabe que uma pessoa toma muitas formas sob o efeito da dor - e a dor pode ser
muita coisa, pode ser até a incapacidade de darmos um passo e dirigirmo-nos
ao sítio no qual sabemos que podemos ir buscar ajuda - mas nem todos os
desconfortos justificam todas as condutas, e o que define uma pessoa é a
capacidade de recusar morfina quando se propôs a aguentar. Mas a mamã não
quis uma vida de faz de conta, nunca mentiu a si nem a ninguém a respeito das
coisas do coração, nem quis as coisas por querer, nem enfrentou dilemas
morais.
A mãe acredita que algumas coisas são sagradas. Uma delas é o
"amigo". Não é deus, não é santo isto, não é rosário aquilo. Isso é
comprar-se indulgências, uma vez mais mascarar-se de benevolente. Para a mamã,
a sacro-santidade está apenas sitiada nesse substantivo. E a mamã pode até
perdoar as ofensas que lhe façam - e aqui volta a recordar-se que não é
católica, mas às vezes apropria-se do palrar da classe -, mas não consegue
conceber faltas de carácter. Uma falha de carácter é uma luz muito intensa num
rosto. Num qualquer rosto; o defeito surge e a partir daí não dá para fingir
que não existe. Quando isso acontece, a mamã faz cálculos de cabeça e entende
que o universo é demasiado pequeno para tanta hipocrisia. Constrói um muro e
recusa-se a olhar para as trincheiras. Porém tenho de me recordar que criaturas
há que caminham sobre a terra sem um único elo sagrado, e apenas me resta
lamentar que os valores do espírito nunca as tenham bafejado, e que assim sendo
padeçam das fraquezas dos animais.
Vivemos
uma época em que, se uma pessoa dedicar uma década a outra, é acusada de ser
doente mental e obcecada. Se outra pessoa sofrer um desfile de reveses do
coração é considerada sana, livre, desejável, moderna (e ser-se moderno é
sinónimo de algo positivo). Uma pessoa tem de valer-se de toda a sanidade que
encontre para não enlouquecer, mas o importante é que se saiba que se está
dentro de uma caverna, que há um mundo lá fora, e que algumas sombras sabem que
são sombras, enquanto outras se julgam luz. Enquanto se observa as sombras
a dançar na parede da caverna, reflecte-se sobre o infortúnio que é o não se
saber que se é sombra. O importante é sabermos, a todo o instante, que tudo passa
e o efémero passa mais veloz ainda.
De
repente ocorreu-me como explicar…
Somos
todos uma grande árvore de fruta.Pode ser
uma pereira; em termos estéticos somos uma pereira. Mais pesados na base que no
topo; isto é, mais densos no corpo que no espírito. Crescemos todos nas mesmas
circunstâncias e partimos todos do mesmo útero, se bem que uns com mais acesso
ao sol do que outros, sendo a água e a seiva as mesmas. Penso que sejam os
elementos o que afecta mais a uns do que a outros, e de repente veio uma
ventania sem igual. Aqueles a quem o sol estival estonteia, foram os primeiros
a ser postos à prova. Caem por terra as promessas e os pequenos sacrifícios da
irmandade.
A
tempestade sacudiu a pereira e algumas pêras caíram, amassadas, no húmus. Essas
não tinham escolha; a natureza delas era débil. Não são essas as culpadas pelo
enfraquecimento da pereira. A árvore, na sua consciência geral, sabia que
seriam as primeiras a entaramelar-se a respeito da própria existência, e o
equilíbrio fora criado a despeito dessa falha. É certo que aquelas pêras seriam derrubadas
ao primeiro golpe dos elementos.Como as abelhas, e as abelhas têm ferrões, pelo
que o universo não pasma quando o usam.
Outras
continuaram seguras, mas não conseguiam desviar a vista do que se passava junto
ao calor da terra, junto à azáfama das folhas ressecadas. Começaram a sentir-se
pesadas no seu pender dos ramos. As outras pareciam-lhes mais livres e sem
âncora, e quem sabe debaixo se visse melhor o céu e a noite estrelada.
À segunda rabanada caíram mais algumas, porque haviam afrouxado o abraço ao seu
sustento, porque um momento de descuido as apanhou e a gravidade não funciona
no sentido inverso, por muito que a vontade almeje inverter o curso do
movimento.
As que se mantinham nos ramos começaram a sentir-se isoladas, desejaram poder
juntar-se de novo às outras, reencontrá-las noutras circunstâncias; então
soltaram-se da Mãe, soltaram-se da Terra, soltaram-se do que nelas era divino e
sagrado e jogaram-se no nada. Abandonaram aquilo que haviam sido criadas para
ser, e tudo o que fora promissor nelas até aí. Aterraram por entre
insectos e outras coisas rastejantes, e esse é agora o seu novohabitat.
A mamã espera que as pêras que ficaram na pereira se segurem. Espera que não se
deixem cair, que não cobicem a leveza da descida. Não se sintam sós. São tão
poucas, e tão preciosas... Não se iludam sobre a possibilidade de, ao cair,
deixarem de dever algo à árvore. Não pereçam; na queda começa a decomposição. Uma
pêra que se soltou da árvore jamais será pereira de novo.
Não se deixem impressionar pelo facto de a ventania ter levado frutos tão
robustos. Basta um dedo a acariciar o volante para a esquerda, quando se fecha
os olhos, e o carro desfaz-se contra orailda auto-estrada.
É assim
que a mamã vê a luxúria travestida de amor, e a leviandade travestida de
liberdade. E as pessoas travestidas de seguras e auto-conscientes, quando estão
é cegas pelos faróis que se avizinham, em sentido contrário, enquanto deambulam
na beira do caminho. E,
quando o feixe incide sobre as suas cabeças, e todos os olhos se voltam, chamam
à cena aquilo que aos outros soa puro, para com isso expiar a sua fealdade.
O vento
aquieta sempre. E quando o vento soprar tranquilo, e o sol voltar a ser ameno,
e a folhagem acariciar a fruta no seu resfolegar, a árvore recupera o esplendor
e o resto já foi varrido pelas estações. E então tenho de me lembrar que não
sou cristã. Sou uma mulher sem deus e sem religião. E a alegoria da árvore
torna-se mais perversa ainda.
A mamã aprendeu tantas coisas, hoje! Mesmo nos períodos em que seria de esperar que me esquecesse de mim e que me desligasse do universo, a magia acontece e a vida chama-me.
A mamã está num sítio lindo e especial, em plena comunhão com a natureza, e tem um encontro marcado com as estrelas para daqui a umas horas. Vim para aqui não por minha livre descoberta, mas foi-me indicado e ontem a voz desta mãe especial chamou-me. Meti-me no primeiro autocarro e zarpei. Vim encher os olhos de ouro e escutar a natureza na sua respiração.
Hoje aprendi que podes ter três filhos, morar em Lisboa, estudar gestão e comprar um monte alentejano. E depois podes pegar nesse monte e torná-lo numa casa de turismo rural, abrir as tuas portas a quem vier e ser feliz. Primeiro descobri que estamos numa área do planeta chamada "Dark Sky", um observatório do firmamento de acordo com a NASA. Do centro do pátio vejo poeira celestial, um dos braços da Via Láctea, e estamos sob a sua alçada. Vi duas estrelas cadentes (e ainda nem me deitei para admirar o cosmos) e fui regada juntamente com o relvado, mas até isso me fez feliz.
Comi figos com mascarpone enquanto descobria que se coloca carne no vinho, durante a fermentação: se fossem outras pessoas quaisquer, não acreditaria.
Contudo estou rodeada de pessoas bem formadas, que encetam explicações que eu, por estar no limite da exaustão, não consegui seguir em todas as suas estações. Mas disseram que o vinho, ao fermentar, é como se entrasse em erupção. O mosto ferve sobre si próprio, queima, e o insecto que caia lá é deglutido, assim como o é a carne (borrego por ex.), que me garantiram que é fermentada com o vinho do Porto, por ex. A mamã há-de ler isto mais tarde e pensar: que raio? Mas ouvi-o e vou investigar, porque é polémico a tantos níveis, sobretudo naquele em que não se poderia eliminar esse passo, se isso significa acabar com a qualidade como a conhecemos.
Aprendi que os fenícios faziam vinho em cânforas, e as uvas não eram pisadas mas revolteadas com um pilão enorme (......) e os romanos faziam igual. Ainda aprendi que o álcool intoxica e quem pisa uvas fica inevitalmente bêbedo, pelo que tem de cantar e apoiar-se em quem o ladeia, a fim de não dar um mergulho no vinho e jazerem por lá, esquecidos. Em Mira d'Aire há grutas com morcegos enormes, e na selva Moçambicana havia um senhor que tinha uma osga obesa chamada Óscar, e o Óscar certificava-se de que os mosquitos da malária, dengue, etc., acabavam a nadar no seu suco gástrico. A mamã ficou a conversar sob as estrelas com pessoas interessantes, e bebeu vinho caseiro e um bagaço alentejano que se pega aos lábios e os deixa doces. A mamã hoje bebeu bagaço e gostou, mas aqui chamam a essa bebida translúcida "a mãe do vinho".
Hoje a mamã sentiu a humidade do Alqueva no ar, e foi como estar de volta em Salvador da Baía, em que a atmosfera está tão saturada que o céu desaba sobre nós sob a forma de chuva ao final da tarde. Aprendi que o som do silêncio é, na realidade, o dueto das cigarras e dos grilos, e que há quem reclame nos hotéis rurais da sinfonia desses bicharocos.
Aqui há uma gata selvagem que se roça na porta da cozinha e que janta ensopado de borrego. Não deixa que ninguém lhe toque, mas segue à frente do prato e choraminga como uma normal gata de casa. Só aparece à hora de jantar. Há uma cabra preta chamada Estrelinha, que vou conhecer amanhã, e que é amistosa. Há também uma raposa que ronda a casa, mas que não ataca as galinhas. Gosto de imaginar que a hei de ver, porque gosto tanto de raposas... E esta anda aqui, fortuita, e talvez o instinto lhe diga que eu quero ser amiga dela, e que eu sei que o essencial é invisível para os olhos.
Ofereceram-me bagaço e uma cigarilha e senti o aroma a baunilha elevar-se no calor estival, enquanto uma e depois outra estrela colapsava no horizonte. Disseram-me que os charutos necessitam de no mínimo 80% de humidade para serem bem conservados, e que essa temperatura é a ideal em Cuba, onde podes só metê-los no armário sem te preocupares. Noutros cantos do globo mandas fazer a tua caixa de charutos (madeira não envernizada) e convém teres termómetros de temperatura e humidade embutidos. Se o charuto ficar demasiado seco, tens de regá-lo. Antes de o fumares, leva-lo junto do ouvido e sentes o resfolegar do tabaco, dentro. Se não ouvires nada é porque está demasiado húmido, tem de secar um pouco. Quando fumas dois terços do charuto, podes mergulhar o restante em conhaque. Por essa altura a temperatura está tão alta que tens de o arrefecer, ou a qualidade perde-se de vez.
Quanta ciência, a do relvado que não deve ser regado durante o dia quando estão trinta e oito graus no ar, porque na terra estão quarenta e cinco e a água causaria um choque térmico e depois aqueceria, apodrecendo as raízes das plantas. Deve regar-se tarde, à noite, respeitando a natureza e os seus ciclos.
Raposinha, vens visitar-me? Daqui a nada espero ver-te...
Hoje a tia Ana contou-me que teve de ajudar a avó a tomar banho. Há alguns dias, eu própria me havia oferecido, porque ela disse que tem dificuldades a entrar e a sair da banheira, e a chegar às costas também. A avó recusou a minha ajuda, porque ainda se lembra de quando eu era pequena e tão curiosa e apegada a ela que não queria separar-me durante os quinze minutos que lhe durassem o banho. Plantava-me do outro lado da porta e tentava espreitar, mas ela cedo se apercebeu dos meus intentos e tapava a fechadura. Sob o vestido da avó, nota-se a deformação da omoplata, que parece projectar-se para fora. Como poderíamos saber? A tia Ana diz que acha que quando a avó for "velhinha" vai ter uma corcunda, mas só do lado direito. Querida Ana, não podemos dizer-lhe que nos escaparam todos os sinais. A magreza, as dores, a perda de energia nos últimos tempos. Há dois anos, quando comprei a casa, a avó ajudou-me a lavar todas as janelas. Há um ano, quando demorava três horas contadas a limpá-la ao sábado, a avó insistia em ajudar-me e tratava do meu quarto com celeridade. Há seis meses a avó dizia que não conseguia ajudar, pedia um perdão indevido e dizia que ao menos levava o saco da roupa para lavar na sua máquina, posto que não comprei ainda uma. Agora a avó, que vinha todos os dias à minha casa, só vem duas vezes por semana. O agora escapa-se por entre os dedos, porque esta demana a avó só veio uma, por lhe custar a caminhar, e pede à tia Ana que leve o saco com os meus lençóis, porque tem dores se tiver de suportar o peso.
O tempo está a passar depressa demais, mas é verão e isso cria a ilusão de que está tudo bem. As pessoas estão de férias, vão para a praia, sorriem e combinam jantares. Uma pessoa que me vê todos os dias, e que já me viu pior, fez questão de me dizer, há dias, que agora se nota mesmo que ando feliz e sem preocupações. Agarram-se às pequenas desgraças do quotidiano para intervir, para sentir que fazem algo pelos outros e que não vivem só de si e para si. Mas a verdade é que é difícil imaginar uma reviravolta destas, e por isso a mamã tem sido deixada mais ou menos de lado nas preocupações de quem me rodeia. Haverá quem diga que o faz por feitio, outros porque imaginaram que eu preferiria ficar sozinha com a dor e a dimensão do que se aproxima. Outros, talvez quem realmente importe, simplesmente não sabe como lidar com isso, como assistir ao sofrimento ao meu lado, e receie evocá-lo. Acreditem: eu não quero assistir à desolação que se aproxima para quem me é mais querido, e não haverá escolha. De qualquer modo, o que importa é que é nas impiedades da vida que fazemos as contas ao que temos, e quem sabe a mamã andasse a calcular tudo mal há demasiado tempo. Serve para que saibamos quem está ao nosso lado, quem sua e chora por nós, e quem só o faz pelas aparências, porque de certo modo é esperado que se importe. Por isso, meus queridos, preparem-se que a crueldade de algumas verdades vem nos momentos em que estamos de joelhos, e sabermos assimilá-las aí é de valor. Em boa verdade, prefiro não pensar no assunto que magoa, mas suponho que haja outros meios de estarmos lá quando somos precisos.
A mamã tem um plano, e esse plano é uma tábua de sanidade. Tomei as decisões certas na vida, e isso garante-me que estou onde deveria estar. Em breve tudo mudará e a mamã sabe o que fazer. O único obstáculo será o de ver a avó a sofrer, porque para a dor dos que amo não estou preparada. Não tinha pensado que o fim se aproximasse com as botas das sete léguas, nem que acarretasse tanta agonia.
Hoje vi uma fotografia de uma criança na internet. É a página pessoal de uma mãe italiana e trata-se de uma menina com aspecto de adulta e ares de traquina. Uma combinação que mexeu com o meu coração e que me lembrou que muitas coisas boas estão por vir. A mamã acredita, mas o instinto e a intuição apertam-me as entranhas neste momento, e de certo modo assistir ao dia-a-dia despreocupado dos outros é-me demasiado penoso.
A mamã nasceu para chegar onde quiser, porque até hoje nem as pernas nem as mãos e nem a cabeça me falharam quando empreendi uma viagem. Os recursos sempre foram escassos, mas a vontade sempre me deu uma maior envergadura de asas, e o universo sabe que não me acobardo perante desafios. E a mamã quer cruzar na vida o caminho que a levará a uma praia de seixos escuros, com relevos de um verde-musgo ao longe, e haverá uma casinha com telhado de duas águas, uma horta, alguns gatos em suprema liberdade e segurança e um cão. E, algures dentro dessas paredes, os vossos risos e os risos do vosso pai. E o vosso pai é um homem grande, um homem que me merece e que eu mereço, e virá quando eu souber o meu valor e aquilo a que preciso de abdicar para chegar lá.
A vida e a morte caminham lado a lado e às vezes entrelaçam as mãos, e a mamã tem de seguir a estrada sem fraquejar. Não desespero, não vacilo. Tudo passa.
Uma má notícia causou um tremor de terra sem precedentes na vida da mamã. Nunca é bom
sinal ser-se chamado ao oitavo piso do Hospital Garcia de Orta, mas é mais
difícil ainda quando se vai acompanhar alguém que se ama e a quem se deve
tanto.
O médico estava na
posse dos inúmeros exames que a minha avó realizou no último mês, e embora não
tivéssemos grandes ilusões quanto às notícias que íamos receber, as mesmas poderiam
ser más ou péssimas. Como a vida se tem rido de nós nos últimos tempos, o
médico pareceu entusiasmado e anunciou que tinha uma notícia boa e uma má para
nos dar. A boa era que as várias amostras da biopsia analisadas até agora deram
negativo para cancro. A má era que isso significa que a biopsia tem de ser
repetida. Há esperança, disse.
Entretanto
perguntou-nos porque faltámos ao exame da medicina nuclear no Champalimaud, ao
que informámos que comparecemos, segunda-feira passada conforme combinado. O
médico descobre então esse novo exame no computador, e pede alguns minutos para
o ler.
Ao primeiro
suspiro a verdade atingiu-nos. Quando a explicação veio, a mamã sentiu que pela
primeira vez em anos perdeu o controlo sobre a expressão, e o que se seguiu foi
uma luta interior para manter a avó calma, enquanto eu própria entrava em pânico e o
mascarava de boa-disposição.
O médico disse que
a senhora que me ofereceu o livro da Branca
de Neve, quando eu ainda nem sabia ler, tem esse horror espalhado não só no
pulmão direito, como se suspeitava, como pelos ossos da caixa torácica. Isso
explica as dores. Quadros oncológicos com dores não é bom sinal, e aí
informou-nos que o estado é avançado.
Como a mamã nunca tinha
dedicado realmente dois minutos a pensar na doença do século, acabou por fazer
algumas perguntas disparatadas. A pior de todas foi “E hipóteses de cura?”. E
depois lembrei-me que estávamos a falar de cancro. O inominável. A doença que as pessoas têm vergonha de admitir que têm, como se fosse contagiosa ou um castigo divino por alguma falta que tenhamos cometido. A doença que causa arrepios quando é proferida numa divisão, a mesma que tem tantos eufemismos e que nenhum deles é menos assustador.
O médico
prosseguiu com as explicações sobre as terapias à nossa disposição, e como eu
devia parecer-lhe um tanto animada e sorridente, olhou-me nos olhos e frisou
que estamos a falar de cuidados paliativos.
A terra voltou a tremer, e a avó apertou-me a mão com força. Ela não entende
muito do que se estava a dizer, mas entendeu que a morte está a bater-lhe à
porta como um temporal, e que tudo o que podemos fazer é usar os braços para
impedir que entre de rompante, mas as forças acabarão por faltar e ela há-de
entrar. Tudo o que se faça agora é para adiar esse momento o mais possível, e
para que a avó viva descansada, feliz, se possível, e cumpra a sua missão aqui
na Terra, pela qual tem dado tudo de si.
Quando eu era
pequena, tinha ataques de pânico ao imaginar que a avó desaparecia. Talvez seja
o que as crianças sentem em relação à mãe numa certa idade, quando as coisas
nos começam a ser preciosas e a mãe é-o mais do que tudo (sem querer diminuir
os pais). Eu sentia que se a avó morresse eu ficaria desamparada. O eixo da minha
vida girava em função dela e das rotinas dela. Desde o ir às compras de manhã
(a avó chama “lugar” à mercearia), até ao recostar-se nas almofadas a ver a
novela da noite e a comentar a história, como se houvesse uma chispa de
realismo naquelas ficções. Vinte anos depois sinto o mesmo. Não tenho sido
boa o suficiente para ela. Não sou paciente o suficiente com ela. E que egoísta sou ainda, que queria
que ela me desse mais, quando agora é a minha vez de dar a ela. Queria que me
desse colo e que um dia vos desse colo. Agora já não consigo sentar-me no colo
da avó, ela está demasiado magra para suportar o meu peso, mas tempos houve em
que o seu colo era o mundo, e agora imagino-a como a um Deus no tímpano de uma
catedral, e eu redonda, enrolada em mim mesma, sobre os seus joelhos.
Quem sabe a avó pudesse
ficar com vocês às vezes, uma manhã ou uma tarde, e fazer-vos água de arroz ou
xarope de cenoura, conforme a maleita que vos atingisse. Queria ouvi-la a
dizer-me para não vos deixar andar descalços, ou usar as expressões só dela,
como “as crianças andam todas desgargaladas”, o que significa que não vos
protegi o pescoço em dias de frio. E chamar-vos-ia de "o menino" ou "a menina", porque ela é assim, e eu não sou. Hei de chamar-vos "o miúdo" ou "a miúda", mas vocês haviam de precisar dessa outra voz na vossa vida. Ou a avó diria para irmos “pedir ao Brotas da farmácia”, o que significa que não há meio de poder satisfazer um pedido, ou tantas outras que agora não me
lembro, porque não absorvi tudo o que podia enquanto podia.
Quem me dera poder
ouvir as suas observações sobre os vossos traços, sejam eles quais forem. Se
ela não vos conhecer, só os céus sabem a espécie de coisas espirituosas que
ficam por dizer. Segundo a avó, eu era “rabina”, “cachondinha da barreira” e “enxertada
em corno de cabra”.
Avó, espero mesmo que venhas a ser a primeira pessoa a pegar nos meus filhos ao colo, e a
ensinar-me o que fazer com os dentes deles quando começarem a romper, e como
vesti-los, como alimentá-los, como aliviá-los da febre. Se um dia for abençoada
com a graça de ter um filho, saia ele do meu corpo ou da minha vontade de ser
mãe, gostava tanto de saber o que vais dizer!… Se sair do meu corpo, és tu a
mulher com quem gostaria de comentar as diferenças nele, e são as tuas
histórias sobre o mesmo momento que quero escutar. Gostava de saber a tua
opinião sobre o nome deles, os tais que há tantos anos tenho em mente e que
talvez nunca venhas a proferir, e ver o amor atravessar gerações de ti para
eles… Lembro-me do modo como sorrias para a Ana quando ela era bebé, e de como
ela, como eu, se apaixonou por ti acima de qualquer outra pessoa até chegar à
idade em que se começa a distribuir os afectos por estranhos. Se um dia tiver a
sorte de ser mãe, gostaria que o meu filho saísse do meu seio para o teu peito, antes de visitar o abraço de qualquer outra pessoa. Os teus braços, agora tão frágeis, foram em tempos os mais
robustos que conheci. Se não fores tu, quem vai falar das pessoas que ficaram
para trás, e que enterraste, e que ainda vivem nos nossos que estão por vir? Que
outra pessoa poderá fazer isso por mim?
Tudo isto significa que nos tempos vindouros terei de estar a teu lado, dar-te todos os beijos que te recusei durante anos, porque nunca soube amar com doçura e sempre houve um quê de bicho em mim que te feria. Tenho de deixar-te ver as novelas portuguesas sem repetir que não se aprende nada com aquilo, porque o que importa é que vão distrair-te do que se está a passar.
Perdoa se continuo
à espera que me valhas; como disse, é hora de eu te valer a ti. E, respondendo
à tua pergunta de quando tudo isto começou, quando o teu instinto te disse que
as pessoas só partem quando já não são necessárias e me olhaste angustiada: “Eu
já não faço falta, Célia?”.
Fazes, avó. Fazes
muita falta – por isso vamos acreditar.
Hoje Portugal foi classificado para a final do Euro 2016. Passaram doze anos desde que nos vimos em tal posição. Folheei o meu último livro publicado e encontrei um bilhete do Santiago Bernabeu, fevereiro de 2014. Foi aí que testemunhei o meu último relance de amor. Mas mais puro ainda, em Novembro do ano anterior.
A mamã, de camisa de dormir de algodão, estendida ao lado dele. Tinha-lhe oferecido o meu segundo livro, mesmo sabendo que ele não teria como o ler. Como ele era um homem solene, especial, demorou muito sentado na beira da cama, com ele entre os dedos, a estudar-lhe o peso, a capa, e a tentar deslindar o significado de algumas das palavras na sinopse. Afinal, os nossos antepassados falavam Latim.
Depois, respirando fundo, agradeceu. Estendemo-nos sobre a colcha, eu a escrever-lhe a dedicatória interminável que me pediu - quem me dera poder ler agora essas palavras, só para me dar conta de que também os afectos vêm e passam, e de que o que brotou de mim tão forte e se pôs sem resistência poderá voltar a acontecer quanto a outros homens solenes.
Mas falava-vos de amor. Se a mamã pudesse descrever o amor num momento - e mesmo sendo este um amor de momento, de circunstância, que serviu de bálsamo a um outro maior - a mamã pegaria nesse serão, porque outros semelhantes não os houve.
Deitada de barriga, acedi a ler-lhe um excerto do livro na língua em que foi escrito. Deitado de costas, ele ouvia o português a ecoar nas paredes de um quarto em silêncio, numa cidade em silêncio, e ostentava um sorriso na suavidade dos lábios. Ouvia, não entendia, mas ainda assim sorria. E a mamã leu um parágrafo, dois, uma página, duas, e ele não tirava os olhos dessas palavras desconhecidas, assim como não tirava o sorriso de condescendência do semblante, e a mamã daria tudo para ser assim feliz de novo.
Há quanto tempo um beijo não significa alguma coisa? Um beijo pode ser outro modo de fazer ecoar-se a alma nos outros.
Hoje vou escrever
sobre o amor, o sexo e os homens. Em 2016, se uma mulher gostar de um homem
durante demasiado tempo, e ele não retribuir o sentimento, ela é uma rejeitada.
Há-de ser vítima de risos, de dedos apontados, de piadas atrás de piadas. Os amigos que tiverem pena, não quiserem partir-vos o coração, vão dizer que vai acabar tudo bem. Quem tiver predilecção pelas pequenas crueldades, vai rir-se e esfregar-vos na cara o nome da sua última conquista e as posições em que têm dormido juntos. Tudo isto deve ser ignorado: afastem-se do ruído e sintam o que a vossa consciência já sabe.
Como
sei que serão fortes, se isto acontecer convosco, agarrem-se ao facto de
saberem que um grama de amor genuíno é o vosso maior triunfo e tesouro, mais
raro no mundo do que o petróleo pelo qual tantos esgrimam. De certa forma, o tipo que amarem é um privilegiado. Mal o dele se não se dá conta disso e ainda sai pelas ruas a queixar-se que está tudo perdido porque as pessoas são incapazes de amar. Ou talvez seja uma daquelas pessoas tão obcecadas com ser diferentes que se perdem de si próprias e deixam de saber reconhecer o bem quando este lhes é dirigido.
Muitas vezes, isso
será o vosso único consolo. Saberem que são capazes de amar quando tantos se
sentem perdidos quanto a afectos. Não condenando quem se apaixone muito, ou com facilidade, ou
quem tenha várias relações “assumidas”, toda a gente acha mais natural que uma
rapariga de 25 anos tenha tido cinco namorados do que achará se souber que teve
cinco “casos”. É a fronteira da menina decente para a perdida. Mas pior pode
acontecer.
Se vocês forem
persistentes o suficiente para lutarem pelo que querem, podem até acabar por
ser felizes nas entrelinhas. A vida tende a enviar prémios de consolação, de vez em quando. Podem acabar por entender que, por muito que o
amor a essa uma pessoa seja sagrado e por isso difícil de arrumar para o lado,
há todo um horizonte mais além. Se forem honestas convosco próprias e com os vossos
desejos, saberão sempre quando é hora de dizer sim e quando é hora de se
negarem. Saberão a quem fechar a porta e a quem convidar para o vosso santuário. NÃO DEIXEM DE SE DIVERTIR PORQUE ALGUÉM TEM MÁ OPINIÃO DE VOCÊS.
Se alguma vez puderem ter cinco minutos com a pessoa que desejariam que ficasse
convosco para o resto da vida, não hesitem. Se forem mulheres modernas,
aprendam a lidar com o depois: não deixem de arriscar por medo de não serem capazes de viver convosco depois de uma decisão tomada, e não deixem de viver com base nos medos e nos limites que tinham estabelecido para vocês mesmas. Ultrapassem-no com graça e perdoem-no por ser
mais fraco e menos subtil na hora de arrumar os cacos. Perdoem-no se sentirem que o ofenderam naquilo que ele achava que o
fazia forte: a resistência. Se ele for um homem inteligente, em breve vai descobrir que tudo na vida é imprevisível. Que tudo muda de rumo. Que as promessas de ontem serão quebradas deste ou do outro lado. Que, no final, alguém tende a ficar com os dois pássaros a voar e um par de mãos vazias para contemplar. É matar ou morrer. Quando um relance de felicidade passa, segurem-na!
Perdoem-no se, depois de confrontado com a vossa
honestidade e a vossa abertura a tudo o que é bom na vida, vos chamar de vacas. Ou
vos mandar calar a boca. Ou não vos olhar nos olhos. Pode acontecer. Por isso perdoem-no se ele se tiver convencido de que
a vida dele deve seguir para Este e vocês forem um farol a Oeste. Que devem a um homem que vos falta ao respeito quando lhe deram tanto?
Desistam dele
quando a estrada chegar ao fim para vocês, e não porque todos os outros vos
pediram (às vezes imploraram) que o fizessem. Orgulhem-se de terem estado lá. Dois, três, cinco anos,
quase uma década. Duas, três, a vida toda. Não importa o quanto. ORGULHEM-SE de vocês próprias por
buscarem satisfação no que a vida estende à vossa frente, sobretudo quando não
criaram as oportunidades, quando não forjaram momentos, mas os mesmos vos foram
estendidos porque vocês os mereciam. Ou porque estava escrito, e tudo tem um motivo na Ordem das coisas. Cinjam-nos com as duas mãos.
Sejam exigentes e generosas convosco
próprias. Há um limite de lágrimas que uma pessoa pode chorar por outra. Um
oceano deve bastar. É vosso direito e vosso dever o pegar nas vossas horas e fazer delas o que quiserem.
Só se dêem a quem
vos respeitar e a quem tenha também algum respeito próprio – ou a quem quiserem dar-se, nem que seja se para poderem sorver os
recantos desses minutos na memória, pelo resto dos vossos dias, até que a sanidade vos falte.
Uma mulher
sozinha não está só. Tem o seu vinho e o seu jazz. Tem o seu companheiro da meia-noite,
nem que seja o respeito próprio quando as portas se fecham. A mulher tem tanto direito à vida no Oriente
quanto aqui, no Ocidente. E está acorrentada em todas as latitudes. A sociedade ainda não parou de julgá-las. Eu mesma já
dei por mim a julgá-las. Reflectindo no assunto, julgo mulheres que abdicam da própria dignidade para matar a fome do corpo. Mulheres que dormem com os homens por quem os corações das
amigas batem; mulheres que não se coíbem de saciar as vontades à frente da
filha menor num espaço público, mulheres que não se conhecem a si próprias e se apaixonam quatro vezes num ano.
Sejam confiantes.
Parem de repensar na cabeça o que poderiam ter feito melhor para ter sido
aceites pelo tal. Que se foda o tal. Se fosse mais bonita. Se tivesse mais
dinheiro. Se fosse doutra religião. Se não tivesse gatos. Se não tivesse
barriga. Se não tivesse o nariz torto. Se tivesse outra família. Se não fosse tão impulsiva. Se não fosse loira quando ele prefere morenas...
O homem que está
guardado para vocês – e tudo acontece por um motivo, reafirmo – vai fazer-vos sorrir. Vai
chegar e vai fazer-vos sentir-se bem instantaneamente. A mamã sabe que é possível. A mamã já viu o destino a tecer estas malhas várias vezes. O
homem que vos merece – aquele que Gabriel García Márquez diz que nunca vos fará
chorar – jamais vos chamaria de putas. Jamais o insinuaria. Jamais, em momento
algum, o pensaria. Por ter-vos tão alto, por vos louvar - há um certo fado, uma certa queda para a tragédia, em ser-se mulher - eleva todas as outras mulheres também. O homem que é vosso, e sempre foi, está feliz por saber que passaram pelos vossos dias em pleno. Jamais levantará a voz para dizer uma palavra que seja contra o nosso género; e se levantar fará rapidamente um parênteses para vocês e para a mãe.
Vão tentar cingir-vos ao código de ideias deles. Vão tentar ver-vos sozinhas, presas às normas e ao que é
esperado para uma menina de família, para uma menina de boa-educação, para uma
menina católica, para uma menina que não bebe, não fuma, não fode, não usa mini-saia. Vão perguntar-vos quando arranjam alguém, sem saber que estão livres para arranjar quem quiserem.
Não fiquem na prateleira para sempre, enquanto os homens procuram arrumar as
ideias na cabeça e andam por aí a rebolar de bêbedos e a beijar umas enquanto
apalpam outras, sob a indulgência e o riso fácil da plateia. Dêem uma machadada na prateleira.
Não sejam uma mulher que não pode dar-se ao homem que deseja sem que seja uma vaca. Sobretudo se esse homem não concebe que a mulher em questão o quis sempre em todos os dias da sua vida, com ou sem o apimentado do desejo sexual. Se ele vos chamar de vacas, ergam a mão e façam-na estalar na cara dele. Só porque algumas são mesmo e os traíram. Ele que seja maior que isso, que ultrapasse! Que aceite que o erro foi sobretudo seu, porque não é lá muito bom a julgar pessoas e as pessoas tendem a trazer a sua natureza à superfície.
Saibam que fizeram
tudo o que tinham a fazer – e que isso basta de consolo. A mamã aprendeu isso mesmo. Foi uma lição importante. Amor é coisa de sorte mas sexo é coisa de pele, e por enquanto é feio que uma mulher seja menos do que virginal. Ou comprometida. Não se neguem coisa alguma por um princípio que vos impuseram.
Respeitem-se a si próprias, não façam favores
nem fretes. Não percam a dignidade. Fiquem ao lado de quem vos chama bonitas
com o olhar, e que com isso não esteja a falar dos vossos olhos nem dos vossos
seios. Enquanto esse não vem...
Dou-vos uma palmadinha nas nádegas e fico a ver-vos sair do quarto: