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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Carta aos meus filhos #100

A mamã está a tentar. De certo modo, está até a conseguir. Apesar das intempéries, estou numa boa fase. Posso entrar numa livraria e comprar o livro que quiser. Posso comprar chocolates na bomba de serviço. Posso ouvir a música que quero. Estou sozinha - e é uma solidão agridoce. A mãe não sente falta de outro corpo cá em casa. Nem consigo imaginar como seria dividir o sofá com outra pessoa. Talvez seja bom, ou talvez te anules e passes a ser só um apêndice do outro. A mamã sente que a gravidade da Terra puxa os corpos para se tornarem apêndices de outros. A mamã acha até que as pessoas não sabem o que fazer de si próprias, nem consigo próprias. É vital que haja outro, um outro, que nos arranque a nós e nos leve a sair. É vital que te moldem para fora daquilo que és. A mamã vê pessoas que não têm qualquer interesse na vida, nem garra, nem paixão. Pessoas que andam ao sabor da maré ou das sms e da agenda de outro alguém. A mamã esforça-se para que isso não lhe aconteça, e para que a minha vontade, os meus desejos, aquilo que eu sou, e que amo, e que me dá alento, permaneça sobre todo o resto. Só me apaixonam as pessoas completas. As pessoas que não se acomodam no que é confortável, as que têm planos, corações em erupção, sopros de inspiração. A mamã está farta de pessoas desinspiradas. A mamã vê que caminhamos nas ruas empedradas de Lisboa em horas pouco recomendáveis, mas que os nossos corações, por falar em corações, deambulam no firmamento. Divagam, iludem-se, entregam-se a quem apresentar mais obstáculos. Adoramos que nos digam que não. Adoramos que nos deixem à espera. Quando acontece, e disso estamos certos, há-de saber melhor. Há-de saber a conquista. Estamos enganados. Até isso sabemos, se tivermos coragem de ver melhor para dentro de nós. Tudo é temporário, tudo começa ao balcão de um bar e termina nas redes sociais. Tudo se resume ao quão fácil é escrevermos uns aos outros, sem que nada se diga e sem que nada de nós se dê. É fácil prometer-se o que se sabe que não se vai cumprir. O coração da mamã está aninhado e não se quer mexer. Não é bem preguiça. Se surgir alguém que valha a pena, sei que consigo que se mexa. Talvez não queira. Talvez seja uma escolha. É o caminho mais difícil, sabem? Em cada esquina está alguém. A mamã não consegue dar dois dedos de conversa a ninguém sem que se sinta de férias de si mesma.
A mamã vai voltar a sítios que me são muito importantes. Vou ver arte - e a arte alimenta-me o espírito como nada mais. Observo a escultura e sou esculpida por ela. Admiro o vermelho do Raffaello e sou tingida por ele. A mamã quer essa vida, que abracei por me trazer tantas satisfações: a dos livros, do jazz, das viagens, da boa comida e do vinho. A mãe gosta de se reinventar, sem abandonar tudo o que já foi. A mamã gosta de ter planos e de ser ela a traçar rumos. Não me importo de seguir a escolha dos outros, se for também a minha escolha.
A mamã não costuma beber chá, mas peço e faço muitos chás. Há uma janela ínfima de tempo em que o chá está no ponto. Entre o estar muito quente e o estar frio, há cinco minutos em que me dá prazer beber chá. O resto sobra. Ando sempre a lavar anéis de cafeína das minhas chávenas esquecidas na secretária.
Só sei que é uma época de conciliação. Se calhar é uma época de conquista, em que somos todos estrategas e queremos saber até onde podemos ir com as armas que temos. Somos todos cavalos selvagens nesta idade, as crinas ao vento e um coice a cada sobressalto. Podemos correr até ao horizonte, e para lá dele. E ao invés ficamos dentro da cerca, unidos uns aos outros, ou à silhueta dos outros, à distância, ou à sua sombra, depois de partirem.
Filhos, não se tornem o objecto de consolação ou a arma de arremesso de alguém. Apostem no que querem fazer, e que vos deixa de coração em sobressalto. A cada vez que a mamã pega num microfone, no autocarro, perante cinquenta italianos, a mamã tem medo, mas a mamã vence. Há dois dias tive três sinais de que estava onde tinha de estar:
Primeiro perguntei a uma senhora de onde era: é de Verona. Depois perguntei a outra senhora do grupo de onde é: também de Verona. Disse que vou lá passar o meu aniversário. Perguntou-me qual era o dia. É o dia do aniversário dela, também. Depois o motorista disse-me que Veneza é a sua cidade favorita, aquela onde regressa sempre com o mesmo entusiasmo. Desta vez, e não sem receio, a mamã vai partir a toda a velocidade para lá da cerca. E sem apêndices para trás: serei eu, a arte, a aventura, os livros.

O único inconveniente é o cheiro dele no colarinho da camisa. Fora isso, não há abalos no meu equilíbrio.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Carta aos meus Filhos #89



A mamã sentiu um peso hoje no peito. Uma espécie de ansiedade mascarada de angústia, ou vice-versa, não estou certa. Tudo porque, de repente, me chamam “senhora Célia”? Quem sou eu para considerar que uma pessoa é mais digna de amor do que outra, e de que espécie de altruísmo sou feito se me considero tão digna do mesmo? O que observo é que as pessoas ao meu redor parecem enamoradas de pouco e de fácil.  Mas um fácil que lhes sai caro, como se o que realmente os atrai fossem os defeitos e não as virtudes de cada um. Poderá isto ser o amor sacrificial de que há tanto oiço falar? Será que nos sentirmos melhor se pensarmos “está crivado de imperfeições, mas amo-o?”. Será falta de autoestima? É que vejo pessoas a pisar e a repisar outras, a baterem-lhes com a porta na cara, a torcerem-lhes o nariz, a dizerem as maiores atrocidades, e no fim o amor da vítima emerge intacto. Será o “quanto mais me bates mais eu gosto de ti?”. Será a humanidade no seu estado mais puro – um reconhecimento mútuo das falhas?

Quando vai chegar a vez de a senhora Célia ser feliz? A mamã fez vinte e seis anos. Hoje foi a uma papelaria e a dona pediu a um dos funcionários: “Atende aí essa senhora, por favor”. Foi como se pusessem um espelho de corpo inteiro diante de mim. Será do cabelo? Da estatura? Do peso? Da roupa? Da falta de maquilhagem? Estou habituada a que me chamem de menina, o meu coração divaga despreparado para estes golpes…

Sentada nos correios à espera da minha vez de despachar os livros, foi como se o peso do mundo se abatesse sobre os meus ombros. Tenho de me ir embora. Antes de pensar que tudo acabará assim, tenho de fazer as malas e partir. Preciso de alguém de fora, alguém que nunca me conhecerá tão bem quanto alguns me conhecem, mas que veja algo de exótico em mim. Alguém com quem partilhar os benefícios da cozinha mediterrânica e com quem discutir religião e ciência. Alguém que veja os prós e os contras de viver no meu país, e que reaja bem aos que eu aponte acerca do seu.

A senhora Célia sentiu que um sono malévolo se apoderava dela. Quis fechar os olhos, depois entendi que me custava respirar e que ganhei aversão à tristeza. O facto de ter padecido de uma doença que se traduz em tristeza e desespero (ou apatia, em estados mais graves) profunda, faz com que entre em pânico a qualquer aproximação de melancolia. Rejeito-a com todas as células do meu sentir, mas custa-me a fingir que não vejo o fantasma.

Não sei se aguento ver-me de peito despedaçado outra vez, por isso espero que a respiração se regularize o quanto antes e que o pior aconteça também o mais cedo possível.

Quero começar já a terapia inerente ao luto.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Carta aos meus filhos #84

24/07/2015


A mamã odeia o McDonald’s, mas o que é verdade é que acaba sempre por lá ir. Talvez tenha perdido a capacidade de me reinventar, pois deixo sempre que o mesmo me surpreenda:
Os velhinhos que falam alto, porque estão ambos surdos, perante um tabuleiro com batatas fritas e um refrigerante, que dividem. O marido que se oferece para despejar o tabuleiro no final, este é do tempo dos cavalheiros, e a mulher que, a custo, o segue em passos incertos para garantir que não lhe cai nada.
A quantidade de crianças trazidas pelos pais e pelos avós, a engolir estas batatas rançosas e estes hambúrgueres cujo pão está ensopado em açúcar. E o meu resmungo, entredentes, devia ser proibido deixar entrar crianças aqui… Se fossem meus filhos! E as mães para o filho, lambuzado de ketchup, se não acabares o hambúrguer não há gelado! E eu, ácida, melhor para ele.
Levo à boca mais uma colher do gelado que derrete, enquanto recordo também o Pingo Doce, as filas intermináveis do Pingo Doce. À minha frente, um rapaz de oito ou nove anos sorve o conteúdo de uma lata enorme de “Monster” nas costas da mãe. Depois pula, trepa o separador metálico das duas filas e a mãe sibila, num português incorrecto um desce daí pá, estás incomodar pessoas, só para fingir que tem mão nele. E o miúdo crava em mim os olhões dilatados de um verde surreal, por entre as sardas e sob a pala do boné. De rosto corado, dedica-me um sorriso certeiro, como se me ouvisse os pensamentos: esta mãe deixa-o beber um energético enquanto reclama da sua inabilidade para ficar quieto.
E, na caixa ao lado, duas velhas a passar à frente de todos, de batom e permanente de sábado passado: obrigadinha, é só mesmo o pão. E eu, mal-humorada, com tanta padaria…
E a senhora da caixa para a velha: Não se vá embora, então não tenho que lhe dar cinco euros de troco? E a velha dá um golpe seco na própria testa (a franja não mexe) e tartamudeia um ah pois é! E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias. E a velha pega nos cinco euros e já vai junto ao segurança quando a mulher da caixa, exasperada, exausta, porque é isto todos os dias: Olhe! Não fuja, então não deixou aqui esta nota de dez euros? E a velha olha para trás: Eu? E bate na testa (a franja não mexe) – Ah! (revira o porta-moedas) É minha, é!
E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias.

A mamã escreve isto enquanto come um gelado no McDonald’s, sabendo que envelhece a cada instante.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Carta aos meus filhos #78

Aos vinte e cinco anos, a mamã é o tipo de pessoa que janta na secretária do computador enquanto assiste, pela milésima vez no youtube, aos episódios mais emocionantes da sua novela mexicana favorita. Meto-a em Espanhol e repito com eles:
- Paola, por qué no haces el amor conmigo?
- Porque no puedo, Carlos Daniel.
- Peró por qué no puedes? Yo soy tu marido!
- Yo no soy tu mujer, Carlos Daniel. Yo soy... una usurpadora!
Depois dou-me conta que me esqueci de trazer um guardanapo e a sopa de lentilhas está prestes a escorrer-me pelo queixo. Então corro para o wc e enrolo papel higiénico em torno do pulso. A casa de banho está mais perto do que a cozinha.
La Usurpadora, 1998

domingo, 29 de março de 2015

Carta aos Meus Filhos #76

A mamã está cansada da vileza das pessoas. Quando julgamos que já foram o pior que poderiam ser, reinventam-se e surpreendem-nos pelo pior uma vez mais.
A mamã tem envelhecido, ficado mais amarga, mais cínica, menos crente. Mas há uma coisa que não muda: a forma como sinto o amor.
E nada se pode comparar à pureza de se querer somente bem a alguém.
A mamã sente o amor por entre as suas arestas, como brisa marítima numa casa de tabuínhas. Força alguma no mundo pode levá-lo de mim. Mesmo sabendo que esse amor poderá não me levar a lado algum, a perspectiva de não o sentir é demasiado assustadora: deixaria de ser eu. Uma vez quase me esvaziei dele... e o que aconteceu? A mamã perdeu-se de si.
Um amor sólido é aquele que nos traz de volta a nós próprios...
A mãe não sofre.
Mas ama. E, quando se ama assim, todo o universo está em harmonia para que nenhum passo em falso magoe aquele que amamos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #62

11 de Agosto 2014

Meus caros,

No rescaldo do sucedido com o inspirador actor Robbin Williams, que possivelmente foi levado pela depressão, ganhei coragem para me confessar.
Desde meados do ano anterior que ando a debater-me com esse mesmo fantasma. Não soube de imediato que melancolia era aquela. Sabem quando se está deitado ou sentado, à procura de uma posição mais confortável, sem que nos sintamos bem de modo algum? Foi mais ou menos isso.
Primeiro um certo grau de insatisfação, um pouco de desencanto a juntar-se à receita, uma certa perda de identidade. Mudei-me para a Alemanha em busca de mim própria e de “uma vida melhor”. Depois entendi que lá estaria pior do que cá. Durante a semana que estive na Alemanha, jamais dormi. Todas as noites tinha a estranha percepção de que alguém entraria em casa a qualquer momento para me fazer mal. Dormia com um olho aberto e outro fechado, julgava ouvir passos nas escadas e até respirações arrastadas no andar debaixo.
Quando regressei a Portugal, passei a dormir durante o dia, além da noite. Estava sempre cansada e sem energia. Se estivesse fora de casa, sentia um terror irracional a respeito da possibilidade de virem para me fazer mal. Eu, que sempre disse à boca cheia não ter medo de coisa alguma.
De repente a minha força estava quebrada. E eu chorava. Chorava por não me reconhecer. Chorava porque não via saídas em direcção àquilo que eu queria ser.
Depois apaixonei-me e vivi uma história de amor bonita. Enquanto esse homem me beijava os dedos ressequidos do frio do inverno passado, não chorei. Mas a distância e as dificuldades deitaram-me novamente abaixo. Mesmo estando com ele não conseguia ser feliz. Não conseguia evitar cobri-lo de medos e de inseguranças, nem conseguia impedir-me de ir sentar-me no chão da casa de banho de porta trancada a chorar à noite. Quando ele me chamava, me perguntava se estava bem, limpava as lágrimas, envergonhada, e voltava para o lado dele. “Nada, nada”.
Quando tudo acabou, em parte porque entendi que estava a matar-nos, já estava num buraco negro de difícil saída. Foi aí que entraram os amigos.
Aos amigos; obrigada. O-B-R-I-G-A-D-A. Nem toda a gente passou neste difícil teste. Quem me achava metediça, nariz no ar, a precisar de umas chapadas para “ver se cresço”, disse-mo na altura de um modo ou doutro. Nunca  ninguém me tinha visto tão em baixo, por isso foi fácil abandonarem-me. Foi fácil desistirem de mim. Não para os amigos, contudo. E, por isso, um agradecimento infinito por terem estado ao meu lado quando nem eu era capaz de valer-me.
Disse-lhes, aos amigos, que não conseguia ser feliz de maneira alguma. Que não tinha projectos de futuro. Que nada me fazia feliz nem me trazia prazer. Eles, na medida do que se entende de alguém desanimado, tentaram dar-me motivação. Aconselhar-me a ter pensamentos mais positivos. De repente tudo aquilo pelo qual eu deveria estar grata era diariamente enumerado. Os livros, a casa, os irmãos, os gatos, a avó prestável, o país em paz, a barriga cheia.
“A depressão é a doença do pensamento”, li, e é mesmo. É como se a voz dentro da nossa cabeça tivesse vontade própria. Fala, fala, fala. Diz que isto é difícil, aquilo é difícil, o ontem foi complicado mas o amanhã vai ser pior. Pergunta-me se estou certa de querer estar por cá, se não valeria mais a pena ir-me já embora. Bater a porta e sair pela porta dos fundos.
Fui diagnosticada nas urgências de um hospital público, num dia em que a ansiedade e as tremuras na ponta dos dedos me impediam de ir trabalhar. Foi mais ou menos assim:
Um casal de médicos sentados perante mim. Um homem de telemóvel em punho, que nem sequer ergueu os olhos do aparelho para me ver entrar. Uma mulher jovem e bonita, que me fez uma série de perguntas às quais respondi o melhor que pude:
- Tem-se sentido cansada? Check.
-  Tem uma má relação com os seus pais? Check.
- Costuma chorar muito? Check.
- Sente-se desesperada? Check.
- Quer tirar férias? Check.
- Já pensou em morrer? Check.
- Mas queria só apagar-se ou faria algo nesse sentido? Double check.
Mandaram-me para casa com receitas de antidepressivos para seis meses. Disseram que o único efeito secundário seriam enjoos matinais. Nunca enjoei. Ao invés, sentia o cérebro toldado o dia inteiro. Mal consegui articular uma frase durante três ou quatro dias. No emprego, não conseguia sobreposicionar as tarefas. Abria um e-mail e sabia que tinha de ir ao Excel. Quando chegava ao Excel já me esquecera do conteúdo do e-mail.
Dormia o dia inteiro. Acordava às 10:00, voltava a dormir ao meio dia, incapacitada sequer de esperar pelo almoço. Depois acordava às seis da tarde, sem sono mas também sem qualquer motivação para fazer fosse o que fosse. Ler? O meu hobby de sempre? Nop. Escrever? Demasiado difícil para quem está reduzido a uma alface. Cheguei a estar na casa de banho, sentada, sem qualquer certeza de estar ali porque acabara de fazer chichi ou porque ainda ia fazer chichi. Desejo sexual? Nenhum. Uma alface anémona. Era o que me chamava, na altura, numa tentativa patética de trazer algum humor sobre a situação.
Felizmente o meu patrão foi excepcional, compreensivo e despreconceituoso. Mesmo quando eu me encolhia ante o estigma de ser agora uma doente do foro psiquiátrico, o meu patrão nunca me recriminou nem pressionou. Mandou-me para casa nesses dias em que mal conseguia abrir os olhos.
Com as semanas, aprendi a controlar o sono e todos os outros efeitos se atenuaram. Já fazia a minha vida com normalidade há dois meses quando tudo regressou, pior ainda.
Quando comecei a tomar esses comprimidos, esse Escitalopram, não conseguia sequer soltar uma lágrima. Imaginem a situação; alguém vos diz “a tua mãe morreu”, e eu tinha uma vaga noção de que isso é grave e que, não fossem os comprimidos, cairia de joelhos em lágrimas. Ao invés acenava e perguntava o que deve ser feito agora. Estava seca de lágrimas e de emoções.
O escritor norte-americano, de origem mexicana, Francisco X. Stork (Marcelo no Mundo Real), está a escrever um livro sobre uma jovem a combater a depressão. Perguntou-me se seria capaz de me apaixonar por alguém estando doente desse modo. Sim, é possível apaixonarmo-nos por alguém tendo depressão. Mas é impossível apaixonarmo-nos tomando antidepressivos. Os nossos sentimentos ficam reduzidos à básica noção de certo e errado. Sabemos quem esteve sempre ao nosso lado e quem nos causou mal. Mas a complexidade de um amor? Não. Ou talvez seja só eu, que seria incapaz de submeter um homem aos altos e baixos deste meu naufrágio.
Tendo voltado a chorar, a querer desaparecer, e tendo os meus amigos a assistirem-me de perto e a revezarem-se para olhar por mim, foi óbvio que os antidepressivos que me passaram não estavam a funcionar mais.
Por esse motivo, voltei ao Psiquiatra.
“Tenho vinte e quatro anos e vou ao Psiquiatra”. Na sala de espera havia sobretudo homens de meia-idade. Apesar de o médico ser privado, eles entravam e saiam com rapidez da sala, munidos de receitas. O psiquiatra tem, decerto, mais de setenta anos. Não acredita em psicoterapia. Não me perguntou absolutamente nada da minha vida. “É feliz?”, “Morreu-lhe alguém?”, “Foi despedida?”, “Sofreu uma separação recente e difícil?”. Nop, nop.
“Dorme bem?”, “Sente-se nervosa?”, “Tem a certeza que não quer baixa?”. Depois perguntou-me, por curiosidade, o que faço. Ao ouvir “turismo”, dispara a sua opinião sobre os eventos da faixa de Gaza. Estávamos em Julho.
Lá fui aviar-me do novo kit. Antidepressivos em dose dupla, anti-ataques de pânico e comprimidos SOS, para cada vez que a vida ameace não fazer sentido eu atire de imediato um para debaixo da língua. Depois adormeço, encerro a fealdade e acordo com passarinhos a cantar e sol no céu.
E o choro? A cabeça quase explode, na nuca. E os pensamentos? Não controlo ainda nenhum deles. Seguem vias demasiado obscuras para a pessoa que eu costumava ser.
A minha maior preocupação é esconder todo este desespero, toda esta sensação de final de linha, da minha pobre avozinha. Ela não entenderia nem aguentaria ver-se obrigada a estar ao meu lado agora. E as minhas irmãs. Não quero que me vejam assim. Não quero que saibam aos oito e aos catorze anos, como eu também não soube até aos vinte e quatro, o que acontece com uma pessoa que perde a força de vontade e o desejo de viver.

21 Outubro 2014

Agora estou bem. Reduzindo a dose absurda que o médico me passou, sorrio. Foi a andar na rua que, primeiramente, senti um rasgo de amor. Pensei "voltei a amar”. Depois, dias mais tarde, a minha mãe disse-me, a meio da semana ao telefone, que estava a pescar. Ri-me sozinha. Era algo muito meu, rir-me sozinha, e pensei algo do género “Bem-vinda de volta, Célia”. Voltei do submundo, não hajam dúvidas.
Estou forte, de pé, feliz, ainda a recuperar, ainda medicada, mas a apreciar cada instante deste renascer. Estive num buraco tão fundo que, meses depois, tudo o que me importa é mesmo agradecer a quem saiu do seu caminho para vir tirar-me do chão, para vir limpar-me as lágrimas, para ter coragem de me chamar de mal-agradecida quando qualquer estilhaço poderia ser-me fatal. Obrigada a quem teve coragem de me gritar que a vida é dura quando eu me julgava incapaz de suportar a sua dureza. Obrigada por não terem mentido e por não me terem pegado ao colo e por não me terem prometido que daqui por diante tudo seria mais fácil. Obrigada por me terem garantido que tudo continuaria tal como está, eu é que ganharia nova fibra.

Para quem tiver depressão… preparem-se. As pessoas vão chamar-vos de loucos. Vão dar estalidos com a língua, acenar negativamente, suster um risinho cínico no canto dos lábios. Vão chamar-vos de mimados, de malucos, de imaturos, de mal-agradecidos, de drama queens/kings. Vão descortinar tudo aquilo que vocês têm que é digno de gratidão e vão enumera-lo vezes sem conta. Vocês vão ficar fartos da lenga-lenga, mas quando começarem a sentir-se melhor, essas palavras vão começar a fazer sentido. Quando se agarrarem de novo à vida, quando a nuvem passar, serão vocês a enumerar essas mais-valias. A voz ao fundo a vossa cabeça, a mesma que vos dizia que não iriam a lado nenhum, que ninguém vos compreenderia, que ninguém sobraria para vos dar a mão, dá lugar a esse sibilo. Ao das coisas boas.
Se estiverem com depressão, lembrem-se que a voz que procura levar-vos não é a vossa, não são vocês que estão fartos de viver aos dezasseis, vinte, vinte e quatro, cinquenta, sessenta anos. Vocês querem viver, e têm motivos para viver, e devem extrair essa raiz má que se apodera do vosso jardim. Devem acreditar que melhores dias virão, mas que a viagem é difícil. O que vos dava prazer voltará a ser prazeroso. O prometido remédio custa, é amargo, há muito a ultrapassar – vão conhecer os limites da vossa mente e do vosso corpo - antes de começarem a melhorar.
Sobretudo, aproveitem este teste para saber quem tem a sensibilidade de vos compreender (ou tentar) e de vos amar seja como for. Agarrem-se a quem ficou, porque esses são os que não devem deixar ir a lado algum.
E, por favor, não tenham vergonha de falar. Falem com os vossos amigos, falem com os vossos familiares, façam entender-se. Exteriorizem o que pensam, mesmo o que vos pareça mais absurdo. Trabalhem sobre isso. Quando puderem não pensar, não pensem. Descansem. Contemplem tectos, dêem-se tempo. Se ficar em casa é o vosso descanso, fiquem. Se o vosso local de trabalho é o vosso refúgio, mantenham essa rotina intocada para não se sentirem completamente desligados de tudo. Um pé na sociedade, um pé na rotina de uma pessoa “comum”, podem ser um gancho para a cura.
Procurem o especialista correcto. Nessa altura, tudo o que importa é que alguém consiga compreender-nos, não nos julgue fracos, nem desistentes, porque só nós sabemos tudo aquilo pelo qual lutamos e o nosso rosto não é mais do que a cara da derrota.
Um dia, prometo-vos, podem voltar a exibir os vossos sorrisos de triunfo. Um dia, isto sou capaz de jurar, regressarão das cinzas, passarinhos feridos, desajeitados, mas acabarão por abrir as asas e por voltar a voar por vocês próprios.
É só uma fase. Não tem nada de vergonhoso nem de definitivo. 
A mamã pensou que nunca mais voltasse a sorrir... e é ver-me de dentuça arreganhada.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #57

A mãe está melhor.
Voltou a sentir amor.
A sensação de vertigem associada ao amor.
Mas não está desesperada. Acredita que tudo tem o seu tempo. Que o que não está destinado não tem lugar. Que os caminhos apenas se fecham para empurrar-nos da direcção que é suposto seguirmos.
Logo vou falar com as cartas.
Vou perguntar-lhes pelo homem por quem estou apaixonada.
Vou perguntar-lhes se ele se lembra de me cantar ópera pelo sistema de mãos livres do carro até eu chorar de tanto rir. Vou perguntar-lhes se ele se lembra do número de vezes que disse que gostava de mim. Do número de vezes que me chamou de princesa.
Do número de vezes que me reconfortou.
E do resto... que era tão nosso, porque éramos duas almas em sintonia e só a distância soube quebrar-nos.
A mãe... gostaria muito de voltar a ser a miúda dele.
Vou estar atenta às oportunidades.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #56

A mãe costumava rir-se por tudo e por nada.
Costumava encontrar beleza nas coisas pequenas; uma borboleta que insistiu em pousar em mim rua abaixo, um gato que se escapa de rabo-tipo-escovilhão de um mata velhos, as brincadeiras da bisavó Norvinda.
De repente, a mãe deixou de ver beleza em tudo. Deixou de ver formas nas nuvens. E isto segue há vários meses.

Hoje a mãe ligou à avó Vanda. Seriam cinco e meia da tarde. A avó Vanda tinha uma coisa muito importante para tratar. Mas é a avó Vanda, o que se pode esperar?
- Mãe, onde estás? - Perguntei, quando ela atendeu o telemóvel.
- Olha filha, a mãe está a pescar.
E foi isto.
A avó Vanda a gritar, do outro lado do telefone, embora não estivesse sequer a 1 km geográfico de mim, que estava a pescar.
E a mãe, depois de devolver o telemóvel à mala, pôs-se a pensar.
"Pescar. Fishing. Fishing. My mother is fishing. She is fishing. Fishing. The world is a mess but my mother is fishing".
E ri-me como há muito não me ria.
Sozinha.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Carta aos Meus Filhos #54

Se a mãe pudesse escolher que personagem ser na vida, escolheria o papel de uma qualquer actriz num filme francês. Ou melhor, a ideia que tenho do papel de uma francesa num qualquer filme. Uma mulher que não se preocupe demasiado com o perfume sem ser no momento exacto. Ou talvez esta seja a minha ideia de uma mulher francesa; alguém de cabelo meio solto, rosto limpo de maquilhagem, beleza discreta, só visível aos olhos de quem sente, não demasiado alta. Sem madeixas, sem creme hidratante nas mãos. Uma mulher simples, jovem, num mundo onde os homens fumam demais e metem demasiado perfume.
A mãe está melhor. Cinco infusões por dia, mas a mãe ignora o doutor e toma só duas. Não pode dar-se ao luxo de engolir cinco goladas de cura por dia, ou dormiria de manhã à noite.
Se sair desta bruma, saibam que foi a arte que me salvou. O livro que me tem consumido os instantes livres e um quadro sem qualquer espécie de talento promissor que ando a pintar há dois dias. Foi a escrita (que só tem existido na minha cabeça, mas que mesmo aí se desenvolve diariamente com desenvoltura).
A mãe sentiu um laivo de amor, hoje. Na realidade, sentiu dois. É estranho que não me sinta muito normal, que tenha tonturas quando me ponho de pé e que durma sestas de duas horas em sofás. É estranho que tenha destruído o meu dedo médio e ganho uma bolha do tamanho de uma moeda de dois cêntimos no polegar por tanto apertar parafusos em estantes e roupeiros. É estranho que um jarro da bisavó Norvinda, tipo bibelôt daquele azul e branco tão português, seja a minha peça favorita da estante. Fora os livros.
Como dizia, é estranho que a mãe tenha sido bafejada por algo parecido com amor hoje. Caminhava na rua, com as calças demasiado apertadas em torno das ancas, porque agora peso sete quilos a mais do que há três meses, e senti-o. O amor; um sopro na minha testa. Um líquido morno a escorrer-me pelo peito e a comover-me por um instante. Fiquei tão surpreendida que estremeci. Ao sacudir os ombros, perdi essa sensação. Mas, durante alguns instantes, ela esteve lá. Senti-o. Amei. Depois desamei. Mas, por meio milésimo de segundo, amei.

A mãe hoje, apesar de por momentos, voltou a amar.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Carta aos meus filhos #52


Ontem a mãe portou-se muito bem.
Foi ao Hospital dos Capuchos a pé e regressou a pé. Percurso Chiado, Rossio, Restauradores, Avenida da Liberdade por ali acima. Depois Avenida da Liberdade por ali a baixo, Restauradores, Rossio, Baixa, Praça do Comércio, Rua do Arsenal, Cais do Sodré. Pelo caminho admirou as montras, e não só. Sofreu três tentações às quais resistiu heroicamente. 
Primeiro uma montra enorme, ao lado dos CTT dos Restauradores, anunciava livros com 50% de desconto. Entre eles A Queda dos Gigantes, do Ken Follett a quem a mãe se recusa a render-se. O que a tentou mesmo foi “O Inverno do Nosso Descontentamento”, do Steinbeck, a 7€ e pouco. Um clássico a esse valor, as páginas branquinhas e perfumadas a exigir ser lidas... Que força de vontade que é preciso ter para abandonar assim um livrinho indefeso.
Já no caminho para baixo, a Sea Side anunciava descontos mirabolásticos. Na realidade a mãe não entrou na loja para ver sapatos, mas sim porque uma cigana a abalroou com falsificações de óculos Ray Ban. “Olha aqui linda, olha aqui minha linda. Vê só…põe só… não usas óculos, linda? Há uma primeira vez para tudo!” e a mãe deu meia volta nos calcanhares e enfiou-se na Sea Side do Rossio. Lá estavam elas. As sandálias com as quais a mãe andava a sonhar desde que as viras na loja da Sobreda. “Mint”, nº 36. Último par. A um preço equivalente ao PVP habitual de um livro. E a mãe a pensar “tão baratas, e tão bonitas”. Sim, calcei-as e fui ver-me ao espelho. Que saltinho dourado tão perfeito… Passei em revista, mentalmente, a série de vestidos que ficariam a matar com essas sandálias. Pensei nas que tenho e nas que destruí em Fátima graças a um pontapé numa pedra… Sim, Fatinha, é verdade que não acendi as velas que prometi, mas sou boa pessoa e não merecia que me arruinasses as sandálias novas! Depois devolvi-as à caixa e ao seu lugar perto da montra. Respirei fundo e enfrentei uma nova ronda de assédios da cigana.
O objecto que me custou mais foi um vestido cor de café com leite perfeito. Designer brasileiro. A minha loja favorita da Rua Augusta, única, com peças sem igual. Uma golinha de missangas, um tecido leve que ficaria bem na minha pele e melhor ainda com um batom vermelho. É o género de vestido que faz uma mulher como a mãe – estilo chinela, t-shirt e calça de ganga - parecer uma princesa composta. A mãe acariciou-o, tirou-o do cabide. Preço? Uma toalha de rosto. Um par de chinelas. Dois almoços no McDonald’s. E a mãe desistiu dele. Sentiu-se liberta e frustrada ao mesmo tempo.
A mamã desistiu do lindo vestido num primeiro andar, ao cimo de umas escadas sonhadoras de madeira envernizada, e saiu da loja.
Não comprou nada.
As minhas obrigações agora são para com a casa.
São para com o vosso futuro.

domingo, 13 de julho de 2014

Carta aos meus filhos #50

A mãe acordou às seis da tarde de Sábado, após uma sesta de quatro horas, e foi ver o vosso bisavô. Por esta altura – e para sempre – ele precisa de estar na cama ligado ao oxigénio. Sempre e para sempre. As ninharias de que depende a vida… quase tantas quanto as de que depende a felicidade. O bisavô estava a ver um filme com a família toda ao redor. A avó estendida ao lado, a tia Cláudia enrolada entre ambos, a tia Ana ao fundo da cama. E, no centro, estendidas, a Valentina sob as mãos da Cláudia e a Josefina cá em baixo, que ela não gosta de grandes atenções ao seu redor.
É um bonito quadro de família. Mas a mãe está a perecer. A mãe mudou e ainda não retomou as rédeas da sua vida. Nem as rédeas de si própria, para dizer a verdade. A prometida energia que as tais infusões trariam, mantém-me sonolenta o dia inteiro. A mãe continua sem vontade de fazer nada. Ou melhor, a mãe tem vontade mas é incapaz de se concentrar em algo durante muito tempo. Dá-lhe sono a meio dos filmes, não posso escrever muito de cada vez, nem tão-pouco ler. Não há dia em que não boceje a todas as horas, e é raro chegar a casa do trabalho e não me deitar a dormir.
Quanto ao trabalho é outra história… A mãe sente-se puxada para ele de tal maneira que até lhe custa passar os fins-de-semana sem ir adiantar coisas. Por gosto, porque são tarefas que começo e acabo e que termino. Ao contrário de todo o resto, onde me falta motivação.
A mãe sente falta do vosso pai. Dormi pela primeira vez na minha cama sueca 200 x 140. Parece uma nave espacial. Cabiam quatro pessoas com a estrutura da mãe ou três de estrutura comum. O vosso pai poderia dormir à vontade no cantinho dele, partilhar comigo essa viagem nocturna na nave espacial.
Quero que saibam que nem tudo são rosas. Para a mãe, ter uma casa e uma dívida de tantas décadas ao banco é um bocadinho sufocante. Por vezes é até assustador. E a mãe sabe que a casa estará sempre paga, mas o resto assusta-a. As contas empilham-se. Temos que ser os grão-mestres da gestão para que tudo funcione sem sobressaltos. E os sobressaltos sucedem-se… A mãe não tem muito dinheiro mas também não está desgraçada financeiramente. Contudo as preocupações acumulam-se e a mãe tenta estar presente em todas as frentes. Para o mês que vem tem de esterilizar a sua gatinha. Tem de ser… o custo é o equivalente a metade do sofá, 1/3 do esquentador ou três cadeiras para a mesa da sala. Mas o amor é assim. E a mãe ama-as.
Já está na hora de o vosso pai aparecer. Era bom que me mantivesse acordada o dia inteiro, que eu quisesse viver por ele também e me recusasse a cair na inanimação. Escolhi as cores das paredes a pensar nele. Já está na hora de ele vir para nos sentarmos um bocadinho no sofá à noite. A mãe precisa de pousar a cabeça no ombro dele. Precisa de cheirá-lo, de sentir-se amparada. Já está na hora de irmos jantar fora, descobrir restaurantes juntos – a mãe gosta tanto de comer! – e de tirar fins-de-semana algures. Já está na hora de explorarmos o mundo juntos, de nos irmos conhecendo, adaptando, sintonizando. Por enquanto eu ainda tenho avós para lhe apresentar, e sei que o bisavô choraria se eu alguma vez me casasse. E que seria louco de paixão pelos meus filhos. Talvez esteja a ser demasiado ambiciosa… não chegarei a isso. A vida é cruel, ingrata e irónica.
Anda para casa, amor. Está na hora de eu aprender a cozinhar os teus pratos preferidos.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carta aos meus filhos #47

Meus queridos,

A mãe demorou demasiado tempo a aprender a gostar de si. Nomeadamente, da cor do seu cabelo. Quando comecei a gostar de ser magra, depois de tanto ter querido engordar, engordei. Agora não sei como perder o peso. Para dizer a verdade, nem quero dar-me ao trabalho. Quando finalmente decidi deixar de pintar o cabelo de ruivos-desgostos-amorosos e pretos-vou-pôr-me-de-pé-e-não-preciso-dele-para-nada, surgem-me os cabelos brancos. Já são quatro ou cinco, e surgiram todos no último ano. Não vou disfarça-los, para já. Mas gostava de ter tido mais tempo para gozar a glória de um tom de cabelo natural.
Estou feliz porque estou a conseguir escrever um novo livro a todo o gás. Chama-se “Uma Mulher Respeitável”. Está a sair com um carácter mais racional do que emocional, mas talvez seja por isso que é o momento certo para escrevê-lo. Preciso de calculismo e de racionalidade. Nervos à flor da pele não combinam com esta personagem.
De resto, a mamã está vazia.
Uma folha ao vento, sem sequer exibir as impressões digitais das folhas.
A mãe é uma folha de um desenho de criança - não o suporte, mas o objecto da ilustração. Só forma e verde.
Não faz sentido.
Não sabe que é uma folha.
É só um borrão numa folha branca, outrora parte de algo maior.
Outrora árvore.
Agora uma sombra; um desenho.

Neste momento, a melhor forma de descrever o que se passa na cabeça da mãe, no background da cabeça da mãe, é isto:


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